MULHERES
21/09/2020 14:33 -03

Damares cumpre promessa e exige retirada de 'Mignonnes' do catálogo da Netflix

Filme francês distribuído pela Netflix se tornou alvo de uma campanha nas redes sociais e de acusações de "estimular a pedofilia".

A polêmica envolvendo o longa Mignonnesda (Cutties, em países de língua inglesa e Lindinhas, em tradução para o português), disponível na Netflix, e dirigido pela cineasta francesa de origem senegalesa Maïmouna Doucouré ganhou um novo capítulo nesta segunda (21).

O Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH) divulgou uma nota oficial indicando a suspensão da veiculação do filme pela Netflix no Brasil. Segundo a nota, a razão para o pedido é “para a proteção de crianças e adolescentes”, já que o longa vem sendo acusado de “promover a pedofilia”.

“Crianças e adolescentes são o bem mais precioso da nação e o mais vulnerável. É interesse de todos nós botarmos freio em conteúdos que coloquem as crianças em risco ou as exponham à erotização precoce. O governo do presidente Jair Bolsonaro não vai ficar parado nessa luta. Vamos tomar todas as medidas judiciais cabíveis. A nossa luta é para direitos humanos para todas as crianças do Brasil”, diz a ministra Damares Alves em nota.

Pouco depois da hashtag #pedoflix figurar entre os assuntos mais comentados do Twitter no Brasil, em 13 de setembro, a própria Damares publicou na mesma rede social que estava “estudando quais medidas poderiam ser tomadas”.

O filme, que estreou mundialmente na Netflix no dia 9 de setembro, também foi alvo de questionamentos nos Estados Unidos. Uma petição na plataforma Change.org também pede que o filme seja removido da plataforma.

Nos EUA, políticos conservadores e grupos religiosos passaram a utilizá-lo como forma de criticar as propostas ligadas à oposição, em um contexto que mede a temperatura das eleições deste ano no país, realizadas em novembro.

O que explica a polêmica em torno do filme

Tudo começou quando a Netflix comercializou o longa com uma imagem do jovem elenco do filme posando de forma provocativa, em vez de utilizar o pôster original, em que as protagonistas apareciam fazendo compras.

Desde então, a Netflix removeu o pôster de circulação e se desculpou por divulgar o filme de uma forma equivocada e que deu margem à outras interpretações.

“Lamentamos profundamente a arte inadequada que usamos para Mignonnes/ Cuties”, disse a Netflix em um tuíte que incluía o título original em francês do filme. “Não estava certo nem representava esse filme francês que ganhou um prêmio no Sundance. Atualizamos as fotos e a descrição do filme.”

Doucouré, diretora do longa, disse que passou a receber ameaças de morte e que chegou a receber um pedido formal de desculpas do co-CEO da Netflix, Ted Sarandos. 

“Eu escrevi este filme depois de passar um ano e meio entrevistando garotas pré-adolescentes, tentando entender sua noção do que era feminilidade e como as redes sociais estavam afetando essa ideia”, disse Doucouré ao Deadline.

“Recebi inúmeros ataques de pessoas que não tinham visto o filme, que pensaram que eu estava realmente fazendo um filme que pedia desculpas sobre a hipersexualização de crianças”, completou Doucouré sobre o filme que ganhou um dos principais prêmios do prestigiado Festival de Sundance, em janeiro de 2020.

Qual é a história do filme que Damares quer censurar

Mignonnes foi bem avaliado por críticos de cinema profissionais, com pontuação de 85% nas críticas online do agregador Rotten Tomatoes.

No filme, Amy (Fathia Youssouf) é uma menina senegalesa de 11 anos que chega a Paris acompanhada de sua mãe e seu irmão mais novo. Sentindo a pressão da série de obrigações que uma mulher muçulmana têm de seguir e do fato de seu pai estar casando com uma nova esposa, algo que sua religião permite, ela tenta se enturmar na escola. E a forma que ela encontra para isso é ficando amiga de três meninas que têm um grupo de dança chamado Mignonnes.

Na nota do governo brasileiro, o secretário Maurício Cunha, da Secretaria Nacional de Direitos da Criança e do Adolescente (SNDCA), destaca que a produção possui como pano de fundo o fascínio pela dança, a busca pela liberdade, o desenvolvimento da identidade sexual e o conflito em relação à tradição religiosa de sua família, mas que também “apresenta pornografia infantil e múltiplas cenas com foco nas partes íntimas das meninas enquanto reproduzem movimentos eróticos durante a dança, se contorcem e simulam práticas sexuais.” O roteiro, segundo ele, pode levar à normalização da hipersexualidade das crianças em produções artísticas.

Já o crítico Richard Brody, em texto na prestigiada revista The New Yorker rebate acusações semelhantes às de Cunha e Damares, afirmando que o filme é, na verdade, uma crítica à hipersexualidade das crianças.

“Duvido que os traficantes de escândalos (incluindo algumas figuras bem conhecidas da extrema direita) tenham realmente visto Lindinhas, mas alguns elementos do filme que não foram apresentados na publicidade certamente seriam irritantes para eles: é a história da indignação e desafio de uma menina a uma ordem patriarcal. O assunto Lindinhas não é twerking; são as crianças, especialmente as crianças pobres e não brancas, que são privadas de recursos - educação, apoio emocional, discussão familiar aberta - para colocar a mídia sexualizada e a cultura pop em perspectiva”.

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