OPINIÃO
19/09/2019 05:00 -03 | Atualizado 19/09/2019 05:00 -03

'Midsommar': A DR em forma de terror que vai mexer com você

Novo filme do diretor do ótimo "Hereditário" escancara o incômodo e dilacerante ritual pelo qual cada um de nós deve passar.

Desde que apareceu com Hereditário (2028), Ari Aster segue uma linha que vem ganhando força no gênero terror, a que enxerga o horror como manifestação das aflições humanas. Assim como acontece em Corrente do Mal (2014), de David Robert Mitchell, O Babadook (2014), de Jennifer Kent, ou Corra! (2017) e Nós (2019), de Jordan Peele. 

Se em seu primeiro longa o diretor americano transforma as complicadas relações familiares em uma trama de possessão satânica, em Midsommar - O Mal Não Espera a Noite (2019), que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (19), ele materializa uma DR em um pesadelo rural ao estilo de O Homem de Palha (1973).

Aliás, a grande semelhança com o filme eternizado pela figura imponente de Christopher Lee pode decepcionar muitos fãs do gênero, mas Midsommar é bem mais do que apenas uma recauchutagem do clássico britânico.

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A vida exige sacrifícios de formas distintas.

Aster tem um bom domínio de seu ofício e sabe construir uma atmosfera de estranhamento sem ser tão explícito, nos dando, o tempo todo e de forma cirúrgica, pistas sensoriais de que um grande mal está chegando. Mas, diferentemente do que pode parecer, esse mal não é um serial killer, um demônio ou uma seita pagã, mas as nossas aflições. Como o luto, um estado de espírito presente em seus dois longas.

O luto move Dani (Florence Pugh) em direção a seu destino. Ela sofre pela perda de sua família, mas também pela morte lenta e agonizante de seu relacionamento com Christian (Jack Reynor). Ela precisa passar por um ritual de renovação que será doloroso, mas libertador. Assistir a esse rito de passagem bizarro em plena luz do dia é dilacerante, mas é exatamente isso que Aster quer com seu horror rural psicodélico.

Na trama, Dani sofre com uma irmã bipolar que ameaça se matar junto com seus pais. Ela busca o apoio psicológico de seu namorado Christian, mas ele está de saco cheio dessa relação e dá qualquer desculpa para ficar mais tempo com seus amigos.

Um deles é o estudante sueco Pelle (Vilhelm Blomgren), que convida o grupo a participar de um ritual de celebração da chegada do verão em um pequeno vilarejo na Suécia. De malas prontas para o tal festival, Christian é quase que obrigado a aceitar a ida de Dani junto com a turma de amigos. Chegando lá, eles descobrem que há algo muito errado nesse lugar.

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O doloroso e necessário rito de passagem de Dani (Florence Pugh): a purificação pelo sangue.

Florence Pugh pode não estar à altura de Toni Collette em Hereditário, mas ela se entrega de corpo e alma ao papel de Dani e dá a Midsommar uma densidade que o filme em partes não consegue atingir. Muito por conta da pouco profundidade da maioria dos personagens que constituem o seu grupo de “amigos”. A figura ambígua de Christia, por exemplo, poderia ser bem mais explorada.

Problemas como esse podem prejudicar um pouco a intensidade com que reagimos aos acontecimentos do filme. Dar mais importância ao clima que seus personagens não nos dá empatia suficiente para sentirmos todo o impacto dos atos terríveis que testemunharemos. Por outro lado, essa opção maximiza a sensação de náusea que tudo indica ser o grande objetivo do jogo que Ari nos propõe. Midsommar não é uma experiência agradável, mas é exatamente esse incômodo que fã de terror busca ao ir ao cinema.