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07/08/2020 12:26 -03

Michelle Bolsonaro recebeu R$ 72 mil em 21 cheques de Queiroz, segundo revista

Segundo a Crusoé, extratos bancários mostram que primeira-dama não recebeu apenas R$ 24 mil do ex-assessor de Flávio; Bolsonaro disse, em 2018, ter feito empréstimos a Queiroz.

Adriano Machado / reuters
Bolsonaro disse, inicialmente, que Queiroz pagou dívida de R$ 40 mil com repasses a Michelle.

Dados bancários de Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro, mostram que o policial militar aposentado repassou à primeira-dama Michelle Bolsonaro, entre 2011 e 2018, 21 cheques, no valor total de R$ 72 mil. A informação foi publicada pela revista Crusoé, após a quebra do sigilo bancário de Queiroz.

Até agora, o que se sabia era que Queiroz – peça-chave da investigação sobre um suposto esquema de “rachadinha” no gabinete de Flávio quando ele era deputado estadual no Rio de Janeiro – havia repassado R$ 24 mil para Michelle. Em resposta, ainda em 2018, Bolsonaro disse que o ex-assessor tinha depositado 10 cheques de R$ 4.000 para quitar uma dívida de R$ 40 mil que Queiroz tinha com o então deputado federal. O empréstimo não tinha sido declarado no Imposto de Renda.

Agora, a informação é de que esse valor chega a R$ 72 mil. 

Segundo a revista, a quebra de sigilo mostrou a movimentação financeira de Queiroz de 2007 a 2018 – e  não há depósitos de Bolsonaro na conta do ex-assessor neste período, que comprovariam o empréstimo. 

Após a publicação da Crusoé, a Folha revelou que a mulher de Queiroz, Márcia Aguiar, também depositou pelo menos quatro cheques na conta de Michelle em 2011, no valor total de R$ 11 mil.

Queiroz foi preso em 18 de junho, em Atibaia, no interior de São Paulo, num imóvel de Frederick Wassef, então advogado do presidente Jair Bolsonaro e de Flávio. Wassef defendia Flávio no caso da “rachadinha” e Jair no caso da ataque a faca que sofreu em 2018.

Sua mulher ficou foragida por três semanas e se entregou à polícia em 11 de julho. Márcia só apareceu depois que o Superior Tribunal de Justiça (STJ) concedeu prisão domiciliar a ela ao marido. A decisão do tribunal diz levar em conta o estado de saúde do ex-assessor, que se recupera de um câncer. 

Até a publicação desta reportagem, Bolsonaro ou a Presidência não tinham se manifestado.

Entenda mais sobre o caso Queiroz:

O que se sabe das movimentações de Queiroz?

As investigações foram iniciadas a partir de um relatório prévio do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), finalizado em janeiro de 2018. O documento mostra que Queiroz movimentou R$ 1,2 milhão de janeiro de 2016 a janeiro de 2017.

Em 2019, relatório do Coaf revelado pelo Jornal Nacional em 2019 identificou 48 depósitos em um mês na conta de Flávio Bolsonaro, no total de R$ 96 mil. De acordo com o documento, entre junho e julho de 2017, foram feitos depósitos no valor de R$ 2 mil. O fato de terem sido feitos de forma fracionada desperta a suspeita de ocultação da origem do dinheiro, segundo o Coaf. O Conselho não identificou quem fez os depósitos.

Reprodução/Instagram
Queiroz

O novo relatório foi feito a pedido do Ministério Público do Rio, que investiga movimentação financeira atípica de assessores parlamentares da Alerj.

Ao todo, 13 funcionários participaram da “rachadinha”, de acordo com os promotores. Foi identificado o recebimento de 383 depósitos na conta bancária de Queiroz, em valores que, somados, passam de R$ 2 milhões. Ele é apontado como operador do esquema que teria Flávio como chefe.

Assim como Flávio Bolsonaro, Fabrício Queiroz não explicou as movimentações suspeitas. Ele faltou aos depoimentos marcados no MP do Rio, em dezembro de 2018. Suas ilhas, Nathalia e Evelyn Queiroz, também faltaram a um depoimento marcado pelo MP. Elas também são citadas no relatório do Coaf.

Nathália Queiroz foi lotada no gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj de agosto de 2011 a dezembro de 2016, quando passou para o gabinete do então deputado Jair Bolsonaro na Câmara, em Brasília, onde ficou lotada até outubro de 2018. A filha de Queiroz, contudo, atuava como personal trainer no Rio no período em que esteve lotada nos 2 gabinetes.

Em entrevista ao SBT na época, Queiroz chegou a dizer que “fazia dinheiro” com a compra e revenda de carros, mas afirmou que só prestaria esclarecimentos detalhados à Justiça. O filho do presidente nega todas as acusações e diz ser vítima de perseguição.

Como funcionava a rachadinha?

O senador Flávio Bolsonaro é apontado pelo Ministério Público do Rio como chefe de uma organização criminosa que atuou em seu gabinete em um esquema de lavagem de dinheiro que envolveria imóveis e uma loja de chocolates no Rio da qual o senador é sócio. Nesta quarta-feira (18), a loja foi alvo de busca e apreensão.

Queiroz era operador do esquema, segundo o MP. Ele empregava funcionários fantasmas e exigia parte do salário de volta. Foram identificados 3 grupos envolvidos no esquema: a família de Queiroz, a família Siqueira e pessoas ligadas a milicianos.

O grupo da família Siqueira inclui 10 pessoas ligadas a Ana Cristina Valle, ex-esposa de Jair Bolsonaro, suspeitas de serem funcionárias fantasmas do gabinete de Flávio. Segundo as investigações, elas moravam em Resende (RJ) na época em que foram contratadas e muitas não tinham nem mesmo crachá para entrar na Alerj. Entre 2007 e 2018, foram sacados R$ 4 milhões de suas contas bancárias.

Rachadinha abastecia milícia, segundo MP

Já o grupo de suspeitos de serem funcionários fantasmas ligado a milicianos inclui Danielle Mendonça da Costa Nóbrega, viúva do ex-policial militar Adriano Magalhães da Nóbrega, acusado de chefiar o Escritório do Crime; e Raimunda Veras Magalhães, sogra de Adriano. O miliciano foi morto em fevereiro, em confronto com policiais após ser localizado no município de Esplanada, na Bahia.

Queiroz e Adriano trabalharam juntos na Polícia Militar. Em junho de 2005, Adriano foi condecorado pelo então deputado Flávio Bolsonaro com a Medalha Tiradentes da Alerj. Flávio exaltou o ”êxito” do então PM de “prender 12 marginais” em uma favela, além de apreender armas e drogas.

O Escritório do Crime, milícia que teria sido chefiada por Adriano, é suspeita de matar a vereadora Marielle Franco (PSol-RJ) e o motorista Anderson Gomes em março de 2018.

De acordo com a investigação, Danielle e Raimunda receberam R$ 1,03 milhão do gabinete de Flávio e repassaram ao menos R$ 203 mil a Queiroz. Segundo a Promotoria, contas de restaurantes que seriam de Adriano foram usadas para fazer os repasses.

A loja de chocolate de Flávio Bolsonaro

Além dos funcionários laranja, o Ministério Público identificou 3 outros grupos suspeitos de fazerem parte do esquema de lavagem do dinheiro desviado de salários da Alerj.

O MP suspeita que uma franquia da loja chocolate Kopenhagen, da qual Flávio Bolsonaro detém 50%, foi usada para lavar dinheiro. Segundo os investigadores, o volume de dinheiro em espécie depositado na conta da loja era desproporcional em relação ao faturamento.

As quantias depositadas coincidiam com as datas em que Queiroz arrecadava parte dos salários da Alerj. O montante de dinheiro lavado no estabelecimento pode chegar a R$ 1,6 milhão entre 2015 e 2018, de acordo com a Promotoria.

Também é investigada a relação de Flávio Bolsonaro com Diego Sodré de Castro Ambrósio, sargento da PM e dono da empresa de vigilância Santa Clara Serviços.

Em outubro de 2016, Ambrósio pagou um boleto de R$ 16.564,81, emitido no nome de Fernanda, esposa de Flávio. O pagamento se referia a uma prestação de apartamento comprado pelo casal no Rio e Flávio disse que pediu ajuda para pagar a conta porque não tinha aplicativo do banco no celular na época. Segundo o PM, a quantia foi devolvida pelo senador, mas ele disse não lembrar quando.

Também em 2016, Ambrósio efetuou transferências para dois funcionários do gabinete de Flávio. Foram identificados ainda depósitos feitos na conta da loja de chocolates do atual senador entre 2015 e 2018 no valor total de R$ 21 mil.

Uma terceira frente de investigação envolve a compra e venda de imóveis. O MP apura a suspeita de lavagem de R$ 638,4 mil na compra e venda de dois imóveis em Copacabana. O investidor americano Glenn Howard vendeu a Flávio os imóveis com preços abaixo do mercado. O valor foi depositado em dinheiro na conta de um corretor em 2012.

Dois anos depois, o filho do presidente vendeu os apartamentos. Ele declarou ter lucrado 292% no mesmo período em que a valorização imobiliária na região não ultrapassou 11%.