ENTRETENIMENTO
25/08/2020 02:00 -03 | Atualizado 25/08/2020 02:00 -03

Como Michaela Coel tornou-se o talento mais empolgante da TV – segundo quem a conhece

O que move a estrela da série “I May Destroy You”? Energia, paixão, visão criativa e muito trabalho, dizem seus colegas de trabalho.

“Ela está lá como sua colega, sua amiga, aí ela assume o papel de atriz para a cena”, diz Ita O’Brien, coordenadora de intimidade que trabalhou com Michaela Coel em I May Destroy You. “E às vezes ela termina a cena, bota as suas roupas e pronto: está no modo co-diretora... E então: ‘Ai, desculpa, não posso conversar mais, tenho uma reunião da produção’ – modo produtora executiva.”

Este é um pequena janela para o que era a vida de Michaela Coel durante as filmagens de I May Destroy You, drama da BBC que abriu novos precedentes de como exibir na tela consentimento e ataques sexuais – e também vidas em geral.

Coel já tinha produzido e estrelado a série Chewing Gum (vencedora do prêmio BAFTA), portanto seu novo trabalho chamaria atenção de qualquer maneira, mas quando o tabloide Daily Mail começou a escrever sobre a série, ficou claro que esse projeto experimental gravado no leste de Londres tinha atingido uma grande audiência.

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Michaela Coel em "I May Destroy You".

Logo na sequência, quando Coel apareceu na primeira página da revista New York, com a manchete “Michaela, The Destroyer”, seus fãs – poucos, mas ferrenhos – se sentiram validados. I May Destroy levou Coel a um nível de fama que só aqueles próximos da atriz-roteirista poderiam ter previsto.

“O brilhante é que ela denuncia a indústria: ‘Espera aí, vocês não estão nos considerando de verdade’”, diz O’Brien. “Acho que realmente é pioneiro. Como Michaela escreve, os temas que elas escolhe e também o fato de ela ser uma roteirista mulher.”

“Parte do pioneirismo é a mudança de foco: o texto não vem de uma perspectiva masculina, com o olhar gratuito em relação ao conteúdo sexual. Não estou dizendo que todos os roteiristas homens sejam gratuitos...”

A proeminência de mulheres roteiristas como Coel, Sally Rooney (de Normal People) e Laurie Nun (Sex Education) sugere que estamos vivendo numa era que elas têm a oportunidade de oferecer novas perspectivas para as histórias que são contadas.

Os fãs e colegas de Coel dizem que seus textos nos forçam a considerar quanto do conteúdo que absorvemos passivamente da TV é escrito de perspectivas masculinas.

Tome a cena no terceiro episódio de I May Destroy You (alerta de pequeno spoiler), quando Arabella, a personagem de Coel, está com um italiano chamado Biagio. Durante a transa, ele percebe um pouco de sangue coagulado na menstruação dela.

“O detalhe da menstruação não é algo que se vê normalmente”, diz O’Brien, lembrando que metade da população passa cerca de metade da vida envolvida com seus ciclos menstruais – mas essa realidade quase nunca aparece na TV.

“É muito gratificante ser parte de algo que ajuda a conscientizar as pessoas”, continua O’Brien. “Além disso, quando você viu uma mulher não-branca com um homem asiático?”

As cenas gráficas de ataques sexuais, de homens tirando a camisinha durante o sexo sem avisar a parceira e de uso de drogas vão muito além de outras séries quando se trata de retratar cenas da vida real, rompendo estigmas do que podemos e do que não podemos dizer – e também de como o dizemos.

Mais que aglomerados de cenas refletindo a vida de uma millennial negra, o brilhantismo de Coel está em desmontar narrativas tradicionais – que são muito patriarcais, diz Nadia Fall, que dirigiu Coel na peça Home, de 2013, e trabalhou com ela na Guidlhall School for Acting.

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Michaela Coel.

I May Destroy You me deixou de pernas bambas porque definiu o gênero”, diz Fall. “Cada episódio tem seu ritmo e não é linear. Acho que essa é uma maneira muito feminina de olhar o mundo – e você sabe que neste caso tem uma mulher no comando.”

As mulheres aprenderam a escrever e produzir assim, com começo, meio e fim: ela rompe essa regra.Nadia Fall, diretora de teatro.

“As mulheres aprenderam a escrever e produzir assim, com começo, meio e fim: ela rompe essa regra. Ela o faz porque é boa, mas também porque tem o tempo e o espaço”, diz Fall.

Coel revisou o roteiro da série durante toda a filmagem, o que é meio meta, já que a personagem Arabella é uma escritora com dificuldade de terminar o esboço de um livro. “Michaela reescreveu 191 vezes”, lembra O’Brien sobre o processo criativo de I May Destroy You.

“Estávamos refletindo sobre como a arte absolutamente repete a vida”, diz O’Brien. “A arte é o desafio que ela enfrentava, a narrativa é que ela tem de terminar o esboço do livro, e não há tempo na narrativa para ela lidar com o trauma... e isso meio estava acontecendo no mecanismo da filmagem.”

Michaela tinha um coach de bem-estar no set, o que é normal em produções que lidam com temas como ataques sexuais (I May Destroy You é inspirada em experiências pessoais de Coel).

“Era uma coisa meio como pausar e voltar no tempo para que Michaela pudesse ter o apoio necessário para dar o melhor de si como atriz nas cenas, além de ocupar os espaços de produtora executiva, co-diretora e roteirista”, diz O’Brien.

Ainda assim, ela lembra de uma mulher no controle da situação. “O desenvolvimento da criatividade ao longo da produção foi realmente extraordinário. Esse desenvolvimento constante do roteiro, essa besta que vai se desdobrando, tende a acontecer mais no teatro: parecia uma ondulação constante, acompanhada por todo mundo.”

O’Brien lembra de Coel refletindo sobre seu processo criativo durante as filmagens. “Perguntei o que ela teria feito diferente, e ela respondeu que teria criado uma sala de roteiristas”, afirma O’Brien.

“Eu não escreveria tudo sozinha – mas ela fez tudo sozinha. A tenacidade dela para o trabalho é simplesmente fenomenal. Ela tinha autocuidados óbvios para conseguir voltar todos os dias e colocar cada um desses diferentes chapéus, assumir esses diferentes papéis (Coel tem créditos de roteirista, atriz, produtora e diretora)”, lembra O’Brien.

Nadia Fall reconhece em Michaela uma habilidade realizadora incomparável. “Nunca conheci alguém que desse tão duro. E quero dizer isso em todos os sentidos da palavra: física e mentalmente, escrevendo até tarde da noite e assim por diante”.

A tenacidade dela para o trabalho é simplesmente fenomenal. Ela tinha autocuidados óbvios para conseguir voltar todos os dias e assumir cada um desses diferentes chapéus, esses diferentes papéis.Ita O'Brien, coordenadora de intimidade de "I May Destroy You"

“Esta é Michaela hoje, e aquela era Michaela na época em que estava estudando: muito esforçada, nada foi fruto do acaso, sorte, ‘Oh, tive uma ótima ideia.’ Ela dá duro todos os dias. Isso me enche de esperança e alegria, porque me faz pensar que, se você trabalhar muito e estiver realmente determinado e focado, é possível deixar sua marca...”

A criatividade de Michaela já fluía nos seus tempos de Guildhall School of Music & Drama, ao lado de Paapa Essiedu, que também aparece em I May Destroy You. “Lembro que ela era muito enérgica e criativa”, diz Nicoletta, colega de turma de Coel.

“Tive a oportunidade de assistir à primeira apresentação de Chewing Gum Dreams e fiquei muito impressionada quando soube que viraria uma série da Netflix. Essa é a magia de Guildhall: conhecer pessoas inspiradoras e ter a chance, como música, de trabalhar com atores.”

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Michaela Coel em "I May Destroy You".

Coel pode não ter achado aquela época tão mágica assim: Paapa Essiedu já falou da cultura da escola e disse que um professor usou uma ofensa racista a aula. “Era confuso ser negro ali”, afirmou Essiedu em uma entrevista recente.

“Lembro de conhecê-la em Guildhall. Você sabe quando alguém tem um espírito nos olhos: são pessoas imediatamente atraentes e carismáticos e muito, muito especiais. Acho que foi a primeira vez que nos conhecemos de verdade”, diz Nadia Fall.

Elas trabalharam juntas logo da formatura de Coel, uma peça sobre saúde mental apresentada num teatro empoeirado. “Tentamos trazer [a peça] à vida com esses pequenos dramas interiores”, diz ela sobre o trabalho, que Fall descreve como um prelúdio de “Home”, a produção do National Theatre em que ela trabalhou com Coel e um dos primeiros grandes sucessos de Coel no palco.

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Michaela Coel.

“Acho que é uma característica que cada vez mais jovens artistas têm: eles não são apenas atores ou diretores ― são artistas no verdadeiro sentido da palavra, porque eles fazem um pouco de tudo. Reúnem as pessoas certas, produzem, pensam no roteiro. Michaela realmente é a soma de todas as partes. Essas pessoas não aparecem com muita frequência, então, quando acontece, é realmente impressionante.”

Essas pessoas não aparecem com muita frequência, então, quando acontece, é realmente impressionante.Nadia Fall

Foi em 2015 que Rachel Springett, da rede britânica Channel 4, encomendou a Coel uma versão televisiva de “Chewing Gum”. A peça fora desenvolvida em Guildhall e estreou num teatro londrino logo após a formatura de Coel, em 2012.

“Receber uma encomenda é muito difícil, especialmente para novos roteiristas; quem faz a encomenda inevitavelmente tem seu próprio gosto, e comédia é uma coisa muito subjetiva”, explica Springett.

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“Sempre adorei Chewing Gum e depois de fazer curtas online realmente briguei para conseguir lançar para uma série completa. Sabia que Michaela era alguém muito especial. Seu texto era único e sua performance, incrível.”

Springett assistiu Chewing Gum Dreams no teatro, em 2012: “Ela evocou imagens de personagens de uma forma original, bem observada, trágica e bem-humorada”, lembra ela.

A peça ilustrou uma parte da sociedade que não é suficientemente representada. Os temas de gentrificação, classe, sistemas, relacionamentos e abuso foram todos explorados de uma maneira que eu nunca tinha visto antes.Rachel Springett, sobre "Chewing Gum"

“Seus comentários afiadíssimos sobre as crianças de Hackney não eram paternalistas nem caíam em estereótipos. A peça ilustrou uma parte da sociedade que não é suficientemente representada. Os temas de gentrificação, classe, sistemas, relacionamentos e abuso foram todos explorados de uma maneira que eu nunca tinha visto antes”, diz Springett.

“Michaela estava discutindo temas realmente importantes, nos deu personagens incríveis que você nunca veria na TV, mostrou-nos dor e comédia de forma original e com diálogos maravilhosamente únicos. Michaela é uma das roteiristas e atrizes mais talentosas de nossa geração.”

Oliver Prout
Michaela Coel como Tracey Gordon em "Chewing Gum Dreams".

Uma autora, atriz e produtora multidisciplinar num setor lotado de homens, e sempre perder a perspectiva de cada um desses papeis, Coel pareceria sobrehumana – a não ser por seu amor por pessoas.

Lewis Reeves, que fez o papel de seu agressor em I May Destroy You, é efusivo ao descrever ao HuffPost UK os momentos entre cada cena gravada. “Ela é incrivelmente inteligente e uma ouvinte maravilhosa”, diz ela. “Ela é demais. Engraçada, pé no chão, mas direta em relação aos seus objetivos.”

Reeves resume por que tanta gente ficou cativada com I May Destroy You: “A série mostrou coisas que reconhecemos, mostradas de maneira que todos nos identificamos”.

“Seja a cena do sangue coagulado ou reconhecendo a Londres que está sendo mostrada. É uma habilidade real: ser fiel a si mesmo, mas também conectar-se com o espectador.”

Todos esperam para ver qual será o próximo projeto de Coel – apesar de não haver nada listado em sua página do imdb.com e I May Destroy You ainda estar sendo exibido nos Estados Unidos (na HBO).

As ramificações do estilo e do conteúdo da série serão amplas, mas é bom lembrar que, com os teatros fechados, o ecossistema de novos talentos – a próxima Michaela Coel – está temporariamente pausado.

Atrizes como Coel e Phoebe Waller-Bridge (de Fleabag) começaram suas carreiras nos palcos. Temos de garantir que os teatros voltem a funcionar de forma segura, para que outras Coels mudem o cenário da TV mais uma vez.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost UK e traduzido do inglês.

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