Meu casamento estava falido. O isolamento do coronavírus o salvou

“Meu marido me disse que eu tinha sido egoísta com minha carreira, que ele confiara em mim para cuidar de nossas finanças e agora precisava dar um tempo. Comecei a chorar, apavorado, sabendo que era verdade.”
Robert W. Fieseler (à esquerda) e Ryan Leitner atravessam a rua em Walden Pond, na cidade de Concord, Massachusetts, no dia de seu casamento, 24 de março de 2018.
Robert W. Fieseler (à esquerda) e Ryan Leitner atravessam a rua em Walden Pond, na cidade de Concord, Massachusetts, no dia de seu casamento, 24 de março de 2018.

“Ontem desligaram as luzes no apartamento”, disse meu marido, Ryan, quando me buscou no aeroporto. Vi suas mãos tremendo sobre o volante. “Eu não quis estragar sua felicidade.”

Eu acabara de voltar de Nova York com uma vitória inesperada numa cerimônia de premiações para meu primeiro livro, Tinderbox. Isso foi quase um ano antes de a pandemia de covid-19 tomar conta da América. Prêmios não são sinônimos de dinheiro. Não tínhamos dinheiro nenhum. Pus minha mão sobre o ombro de Ryan. Ele sabia que eu lamentava, mas não estava afim de ouvir mais um pedido de desculpas.

Foram minhas palavras que nos meteram nesta enrascada: meu livro consumira nosso relacionamento. O livro foi um sucesso de crítica e colecionou resenhas positivas – mas não rendeu royalties. Ele devorou nosso plano de aposentadoria privada. Depois esgotou nossas linhas de crédito. Já vivíamos com dificuldade antes, mas o livro nos deixou ainda mais quebrados. Dez dólares passaram a ser uma salvação.

Quando chegamos em casa, Ryan foi para o quarto e chorou. Tentei abraçá-lo, para reconfortá-lo, mas não adiantou. Meus braços não conseguiam protegê-lo de nada. Coloquei meu novo troféu na prateleira da nossa sala e fiquei olhando para o rosto inexpressivo da estátua, iluminado ocasionalmente pelos faróis dos carros que passavam lá fora.

Depois de mais de um ano vivendo daquela maneira ― exibindo prosperidade para o mundo enquanto eu viajava para divulgar o livro, basicamente sem ganhar um tostão ―, encontrei Ryan uma noite sentado na cozinha com um copo de uísque na mão. Ele me contou que fora obrigado a pedir mais dinheiro a seus pais― uma coisa vista neste país como vergonhosa, patética. Me disse que eu fora egoísta com minha carreira de escritor, que monopolizava meu tempo e não pagava nossas contas. Disse que antigamente ele confiava em mim para cuidar de nossas finanças, mas que agora precisava de um tempo.

“Foram minhas palavras que nos meteram nesta enrascada: meu livro consumira nosso relacionamento. O livro foi sucesso de crítica e colecionou resenhas positivas, mas não rendeu royalties. Já vivíamos com dificuldade antes, mas o livro nos deixou ainda mais quebrados. Dez dólares passaram a ser uma salvação.”

Comecei a chorar, apavorado, consciente de que o que ele dizia era verdade. Ele chorou ao me ver chorar e perguntou se estávamos nos separando. Acabou que estávamos, sim – na prática, mesmo que não legalmente. Ryan ficou com nosso cachorro, que eu havia criado desde que era filhote, e com o computador, que ele usara para retocar fotos e ganhar nosso sustento enquanto eu percorria o país dando palestras e leituras. Ele foi viver com seus pais na zona rural do Kentucky e eu permanecei autoisolado em Nova Orleans. E então a covid-19 chegou.

Como foi que chegamos a isso?

Eu tinha sonhos de lançar um livro que tivesse um impacto, que fizesse uma diferença. Para isso foram necessários quatro anos de pesquisas financiadas apenas com o adiantamento modesto normalmente dado a autores estreantes – US$ 22.500, sendo a segunda metade paga com quase um ano de atraso e sem juros, em 2018. Esse esforço esgotou nossas finanças e nos empurrou para a quase penúria total. Segundo a Sondagem de Renda de Escritores 2018 realizada pelo Sindicato de Autores, a maioria das pessoas que se definem como escritores de livros em tempo integral recebe uma renda média de US$ 20.300 anuais. Os que têm sorte conseguem ficar abaixo da linha federal de pobreza, retratando-se como membros carismáticos da intelligentsia, sendo que na realidade são pobres. De acordo com a mesma pesquisa, um quarto de todos os autores publicados ganhou US$ 0 (zero) com seus livros no ano passado. Foi o meu caso.

A indústria da mídia, em processo de contração desde o final dos anos 2000, já vivia um expurgo perpétuo, expulsando de suas folhas de pagamento os jornalistas contratados e seus benefícios. Ayn Rand ganhou. Apenas os Titãs têm importância. Com a recessão gerada pela covid-19, essa dinâmica provavelmente vai se acelerar, convertendo mais escritores em tempo integral em freelancers em situação de penúria que vão inchar as fileiras dos mais de 20 milhões de americanos que vêm dando entrada em pedidos de auxílio-desemprego.

Cada autor que tem trabalhos publicados é freelancer por definição contratual: quando seu contrato termina, você está desempregado. Poucos leitores neste momento querem que materiais de leitura lhes sejam entregues em casa, e os armazéns da Amazon vêm adiando as entregas de livros ou não as realizando. Enquanto livrarias independentes divulgam súplicas através de campanhas GoFundMe e autores lançam títulos usando o Zoom, as editoras receiam que cada novo lançamento vire o equivalente literário a um bebê natimorto.

Dedicatória do primeiro livro de Robert W. Fieseler, Tinderbox. Foto feita e postada no Facebook em 5 de junho de 2018, o dia do lançamento do livro em versão de capa dura.
Dedicatória do primeiro livro de Robert W. Fieseler, Tinderbox. Foto feita e postada no Facebook em 5 de junho de 2018, o dia do lançamento do livro em versão de capa dura.

Ryan e eu parecíamos estar no final do nosso “primeiro casamento” quando a covid-19 chegou. Cada um de nós acordou sozinho, a mais de 800 km de distância um do outro. Então ele me telefonou. Era o fim de semana do Dia de St. Patrick, bem quando a Espanha fechou suas fronteiras. Ryan disse que estava com medo. Falei a ele: isto é minha culpa. Ele disse que estava com saudades de mim. Perguntei se ele estava tão furioso que sentiu necessidade de se proteger da pandemia em um lugar diferente de onde eu estava: “Você está com tanta raiva que quer correr o risco de morrermos longe um do outro?” Ele fez uma pausa longa, e pensei que ele ia dizer que queria um divórcio. Mas não. Tenho uma sorte inacreditável. Ryan me pediu para ficar com ele, refugiando-me com a família dele na casa isolada deles no Kentucky.

Depois de uma viagem estressante até o aeroporto, com o motorista do Uber tossindo e expulsando catarro, mandei uma mensagem a meu marido: “Amo você”. O aeroporto de Armstrong estava parecendo a última cena de Os 12 Macacos, com multidões de pessoas rindo, se abraçando, se cumprimentando com apertos de mão e “toca aqui”, enquanto um vírus se propaga desenfreadamente. Ryan prometeu me buscar no aeroporto de Nashville. Meu voo partiu com metade da cabine vazia.

Quando pousamos, vi meu marido no carro e quase desmaiei de alívio. Ele sorriu e piscou para mim. Seus olhos cor de mel estavam brilhando. Se estivéssemos nos conhecendo naquele momento, eu ia querer sair com ele. Ainda na fila do desembarque, antes de entrar no carro, tirei minhas roupas externas e as coloquei num saco de lixo. Arranquei minha máscara e luvas de látex e as joguei numa lata de lixo. No banco de trás do carro, passei álcool gel nas mãos e no rosto. “Graças a Deus!” exclamou Ryan. “Estão tão feliz que você conseguiu chegar!” Chegando à casa dos meus sogros, me lavei com água e sabão no chuveiro externo, antes de entrar.

“Começamos a viver segundo as regras impostas pela peste, e essas regras geralmente têm precedência sobre a farsa usual da respeitabilidade de classe. As regras da peste viram o jogo e priorizam a vida, em lugar da subsistência, sendo que normalmente o que ocorre é o oposto. Eles articulam as perguntas importantes – não “cadê suas economias?” ou “qual é o tamanho de sua poupança?”, mas “quem você ama?” e “como você se saiu neste jogo que é a vida?””

Sem nos darmos conta disso, começamos a viver segundo as regras impostas pela peste, e essas regras geralmente têm precedência sobre a farsa usual da respeitabilidade de classe. As regras da peste viram o jogo e priorizam a vida, em lugar da subsistência, sendo que normalmente o que ocorre é o oposto. Os artistas se dão bem sob as regras da peste, que eliminam todas as garantias e decretam que qualquer pessoa que esteja viva é mais rica do que qualquer uma que esteja morrendo. Os artistas articulam as perguntas importantes – não “cadê suas economias?” e “qual o tamanho de sua poupança?”, mas “quem você ama?” e o “como você se saiu neste jogo que é a vida?”. Com seu último tossido e s ão fará diferença se você partir deste mundo tão cheio de bens quanto os faraós em seus túmulos. Você não levará nada do que tenha guardado em seu ninho, e nada que tiver guardado o salvará.

Sou da geração que acreditava em toda aquela baboseira cantada por Eminem sobre aproveitar sua única chance – uma oportunidade de agarrar tudo que você jamais quis em qualquer momento. Você aceita o risco, por maior medo que possa sentir, e torce para tudo dar certo, como se fosse um truque de magia. Quando meu livro foi publicado, meus mentores me aconselharam a nunca deixar uma plateia me ver transpirando. Isso porque o sucesso ou o fracasso não podem ser aleatórios no showbusiness – assim que alguém farejar que um livro está correndo perigo comercial, as pessoas vão criticar o livro e colocar seu autor de escanteio. De seu túmulo, Ayn Rand está sorrindo. Os Titãs dominam o mundo. O terceiro prêmio é você ser demitido.

Eis o que você deve fazer se vem querendo escrever e publicar um livro que tenha importância desde que tinha 5 anos de idade, mas nasceu no meio do nada no Meio-Oeste americano: você não deixa transparecer quanto trabalho está tendo para fazer isso acontecer. Você cola um sorriso no rosto e esconde o sofrimento onde ninguém pode vê-lo, onde apenas ele pode vê-lo. Você deixa seu marido na mão, quando devia haver deixado seu livro na mão.

Robert W. Fieseler (à direita) e Ryan Leitner trabalhando num quarto durante a quarentena da Covid.
Robert W. Fieseler (à direita) e Ryan Leitner trabalhando num quarto durante a quarentena da Covid.

O dia em que Ryan me beijou outra vez, depois de uma caminhada matinal, foi o mesmo dia que dei entrada num pedido de auxílio de US$ 1.000 do Fundo Emergencial para Escritores da PEN America – uma ajuda beneficente para escritores depauperados, ampliada recentemente para ajudar escritores afetados pela covid-19. Por acaso, também era nosso segundo aniversário de casamento. Antes de apertar “send” no pedido feito online, perguntei a meu marido se era tudo bem revelar ao pessoal da PEN que estávamos quebrados. Sim, ele disse. É hora de pararmos de mentir para sua editora, para salvar seu orgulho. Como escreveu certa vez a romancista Zora Neale Hurston, “se você guardar silêncio sobre sua dor, eles o matarão e dirão que você sentiu prazer nisso”.

Meu marido pôs sua mão sobre a minha. Pressionamos o “send” juntos. Nossas alianças se tocaram. “É tudo uma grande m...”, ele falou. “O modo como eles tratam os artistas. E as coisas que as pessoas fazem para colocar comida sobre a mesa. O jeito como os ricos o suas empresas podem nos arrasar.” Ficamos de pé e nos beijamos. Foi o beijo prolongado de um casal que passou 15 anos se beijando e depois parou de se beijar por 15 dias. Em um mundo capital, o dólar, com a finura de uma folha de papel, virara a única barreira que não tínhamos conseguido superar. Mas isso foi antes da chegada de uma doença mortífera que derrubou os mercados e nos uniu novamente.

Robert W. Fieseler é Jornalista do ano da Associação Nacional de Jornalistas Gays e Lésbicas e autor aclamado do livro de estreia “Tinderbox: The Untold Story of the Up Stairs Lounge Fire and the Rise of Gay Liberation”, além de ganhador do Prêmio Edgar de Melhor Livro Policial Factual e do Louisiana Literary Award. Fieseler foi co-orador de sua turma de graduação na Escola de Jornalismo da Universidade Columbia e recebeu uma bolsa de viagem Pulitzer. Ele está se isolando contra a pandemia com seu marido, o artista Ryan Leitner, na zona rural do Kentucky.

Este texto, escrito com o generoso apoio do Economic Hardship Reporting Project, foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.