MULHERES
21/09/2019 02:00 -03

Diástase pós-parto: Mais de metade das mulheres sofrem desse problema

Aquele “pacotinho” das novas mães, vai muito além da vaidade.

becon via Getty Images
A gravidez exerce muita pressão sobre a barriga, e o músculo reto abdominal se estira. Para algumas mulheres, eles voltam à posição normal. Para outras, não.

Ashley Gammon teve três filhos, um na sequência do outro, com pouco tempo de recuperação. Ela fez a primeira cesárea em 2008, a segunda em 2010 e a terceira, em 2012. Depois disso, parecia haver algo errado com seu corpo. O sexo doía. Ela se sentia inchada e tinha dor na lombar. Meses depois do terceiro parto, as pessoas perguntavam se ela estava grávida.

“Fui ao médico, e basicamente me disseram: A maternidade é assim. O que você esperava depois de três cesáreas?”, diz Gammon, hoje com 36 anos. 

Depois de aturar inchaço e desconforto durante quase três anos, ela deparou com um vídeo no Facebook sobre diástase do reto abdominal – a separação dos músculos superficiais do abdome. A gravidez exerce muita pressão sobre a barriga, e o músculo se estira. Para algumas mulheres, eles voltam à posição normal. Para outras, não.

Era a resposta que Gammon vinha procurando havia anos. “Pensei: sou eu!”, diz ela. Embora nunca tenha recebido oficialmente o diagnóstico de um médico, Gammon, como tantas outras mulheres, usou a internet para encontrar comunidades que discutem sintomas similares e oferecem conselhos de tratamento.

É difícil determinar com precisão quantas mulheres têm diástase pós-parto, pois poucos médicos prestavam atenção nisso até poucos anos atrás – mesmo que esse seja um dos efeitos colaterais mais comuns da gravidez. Os dados mais conservadores estimam que pelo menos 30% das mulheres sofram do problema; outras colocam o número em até 55%.

A diástase do reto abdominal pode trazer complicações significativas. Sim, um dos principais efeitos dessa separação dos músculos é fazer as mulheres parecer que ainda estão grávidas. Mas o que as leva a procurar ajuda não é simplesmente a aparência. O problema afeta a mulher em tarefas do dia-a-dia, porque pode causar dores crônicas nas costas, constipação e até mesmo incontinência urinária.

“Depois da gravidez, você quer que seu corpo volte a ser o mesmo, e não é porque as mulheres são vaidosas”, diz Geeta Sharma, professora assiste de Obstetrícia, Ginecologia e Ciências Reprodutivas da Icahn School of Medicine do hospital Mount Sinai, de Nova York. Ela acrescenta que, se o problema atingisse muitos homens, “seria notícia, chamaria muita atenção”.

Depois da gravidez, você quer que seu corpo volte a ser o mesmo, e não é porque as mulheres são vaidosas.Dr. Geeta Sharma

A fisioterapeuta e enfermeira Julie Tupler, de Nova York, é uma das pioneiras do tratamento da diástase do abdome. Ela desenvolveu uma técnica que leva seu nome e que envolve uma combinação de exercícios e o uso de uma tala. Tupler diz que vem falando da importância – e da prevalência – da diástase desde 1990. Hoje o assunto merece mais atenção do que 30 anos atrás, mas ainda há um caminho longo a trilhar no que diz respeito à educação e ao apoio oferecido às mães.

“Parece que estou nadando contra a corrente”, diz Tupler. “As pessoas estão um pouco mais informadas, mas os profissionais ainda não checam se há diástase. Eles não checam, mas parteiras e obstetras deveriam checar todo mundo.” 

A maioria das mulheres volta ao médico para um check-up rápido um mês e meio depois do parto, para falar de tudo, da alimentação do bebê a potenciais sinais de depressão pós-parto. Muitas vezes, a diástase do reto abdominal nem faz parte da conversa ou da lista de verificação.

Ou seja, as novas mães têm de fazer o diagnóstico por conta própria – o que é relativamente simples. Deitadas de costas, elas devem erguer ligeiramente a cabeça e apertar a barriga com os dedos. Se sentirem um espaço, provavelmente há diástase – muitas vezes medida em dedos: um espaço de três dedos. Mas algumas mulheres podem não notar certas nuances. “A maioria não sabe fazer esse autoexame corretamente”, diz Tupler. 

Além disso, não há muitos estudos que apontem as técnicas e exercícios que ofereçam os melhores resultados. Uma análise de 2014 que examinou os estudos disponíveis até então indicou que são necessárias mais pesquisas de alta qualidade, avaliando métodos particulares. Os poucos estudos pilotos realizados até hoje são relativamente pequenos, apesar de Tupler e Sharma mencionarem pesquisas que ambas estão fazendo para remediar a situação.

Mesmo assim, as mulheres não devem ficar esperando sentadas. O programa de Tupler, por exemplo, tem dados internos que sustentam sua eficácia. Sharma indica serviços online por assinatura que oferecem material educativo e ensinam exercícios, como o Mutusystem (programa usado por Gammon, que agora trabalha para a empresa) e Every Mother. Ambos são recursos para mulheres que podem não ter acesso a fisioterapeutas que entendam do assunto.

Também existe uma comunidade crescente de mulheres postando sobre a diástase nas redes sociais e mostrando vídeos de exercícios e fotos de antes e depois. Sharma diz que isso é sinal de uma mudança de paradigma: as mulheres não têm mais de viver com dores e estão à procura de respostas. Mas, se possível, ela recomenda que as mães procurem um fisioterapeuta ou alguém treinado no reconhecimento e tratamento da diástase antes de tentar resolver o problema por conta própria.

No fim das contas, o mais importante é entender que não se trata de vaidade nem de aceitar a separação dos músculos abdominais como o preço a pagar pela gravidez e pelo parto.

“As mulheres têm de saber que nunca é tarde”, diz Gammon, que escreveu um blog sobre sua experiência lidando com o problema três anos depois do nascimento do seu último filho.

“Dizem que isso é meio normal, que você tem de aceitar”, acrescenta ela. “Que loucura! Pode ser diferente.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês. 

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