Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, discursa em uma iniciativa de campanha eleitoral em Pensacola, na Flórida, em 8 de dezembro de 2017.
Carlo Allegri / Reuters
Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, discursa em uma iniciativa de campanha eleitoral em Pensacola, na Flórida, em 8 de dezembro de 2017.
NOTÍCIAS
02/02/2020 02:00 -03

O ministério da inverdade

O que as mentiras infindáveis de Donald Trump fizeram com os americanos, a Casa Branca e o país.

Sentado à frente de Volodymyr Zelenskiy em Nova York, o presidente Donald Trump explicou ao líder recém-eleito da Ucrânia que sabia tudo sobre seu país, afinal, ele foi dono do Miss Universo e já houve uma vencedora ucraniana.

“Temos que conhecer muito bem diversos aspectos do país”, afirmou Donald Trump.

Na realidade, esse é o traço mais marcante da Casa Branca atual: o presidente despeja mentiras sobre praticamente tudo, o tempo todo. Ele mente em entrevistas individuais, em coletivas de imprensa formais e até mesmo ao lado de outros líderes mundiais. Ele mente em discursos “oficiais” do governo e em comícios de campanha.

Mike Kemp via Getty Images
Manifestantes contra Trump em Londres, julho de 2018.

Trump mentiu sobre o número de presentes na cerimônia de posse no seu primeiro dia como líder máximo do país, no quartel general da CIA, em frente a um memorial dedicado a oficiais mortos em serviço. Ele também fantasiou “milhões” de votos de imigrantes ilegais para explicar a vitória de Hillary Clinton no voto popular e inventou que funcionários do governo japonês tinham dito que os Democratas queriam que o país sofresse apenas para abalar a imagem dele. Além disso, Trump disse ao líder do Paquistão que o primeiro-ministro da Índia gostaria que ele mediasse um acordo com relação à região da Caxemira. Em questão de minutos, o governo indiano se pronunciou negando a fala de Trump, afirmando que Narenda Modi jamais fez essa sugestão.

Trump mentiu várias vezes sobre a situação do muro na fronteira, pelo qual prometeu que o México pagaria (ele ainda afirmou diversas vezes que o México realmente estava arcando com os custos do muro, quando, na verdade, nem um centavo havia sido pago pelo país). Ele mentiu e continua mentindo quando afirma que a China está pagando as tarifas impostas por ele sobre os bens chineses importados. As mentiras não param, a ponto de Trump afirmar que foi responsável pela lei de escolhas, que permitiu que os veteranos de guerra, há muito tempo desassistidos, pudessem se consultar com médicos particulares. Acontece que, na realidade, o mérito dessa iniciativa é de três inimigos de Trump: o ex-senador republicano do Arizona John McCain, o senador independente de Vermont Bernie Sanders, redator do projeto, e o presidente democrata Barack Obama, que sancionou a lei dois anos antes da eleição de Trump.

Reuters Staff / Reuters
Fotos tiradas no National Mall mostram o grande público presente nas cerimônias de posse de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos, em 20 de janeiro de 2017, e de Barack Obama, em 20 de janeiro de 2009.

Levando todo o histórico em consideração, até hoje, foram milhares e milhares de inverdades, e boa parte delas são mentiras, ou seja, Trump sabe que está mentindo, mas não se importa. Não vale a pena tentar fazer uma lista de todas as mentiras contadas — outros jornalistas já estão fazendo esse trabalho hercúleo — mas, de qualquer forma, é assustador pensar que sempre que o presidente dos Estados Unidos abre a boca, provavelmente é para dizer mentiras. Quando o líder do Mundo Novo publica algo em suas redes sociais, provavelmente são afirmações exageradas, inventadas, e dramatizadas, ou são simplesmente mentiras deliberadas.

A parte mais impressionante disso tudo é que, depois de três anos de governo Trump, essas observações não chocam mais as pessoas. Não chama mais a atenção o fato de o líder da nação mais poderosa do mundo, o comandante do arsenal mais destrutivo da história da humanidade, ser totalmente desonesto. É simplesmente a nossa realidade hoje em dia.

Se Ronald Reagan foi o presidente que venceu a Guerra Fria, e Obama será lembrado como o primeiro presidente negro do país, o lugar de Trump nos livros de história certamente será muito menos nobre: o presidente que sofreu impeachment e inventou grande parte do seu legado, mentindo praticamente todos os dias.

Há pouco tempo, a relação conturbada de Donald Trump com a verdade quase não tinha consequências.

Ele era só um cara do mercado imobiliário que se tornou celebridade em Manhattan, depois virou apresentador de programa de TV e ficou famoso por sair nas páginas de fofoca dos tabloides de Nova York. Ele dizia qualquer aberração ou fazia qualquer provocação que vinha à cabeça para aparecer. Não importava se ele realmente tinha uma relação com uma supermodelo ou se um membro da família real realmente se mudaria para um dos imóveis dele, os jornalistas só queriam manchetes chamativas.

Tudo isso mudou em maio de 2016, quando Trump se tornou pré-candidato à eleição presidencial por um dos dois principais partidos políticos dos Estados Unidos. Do dia para a noite, seus discursos passaram a ter muito mais relevância, cada sílaba dita por ele era minuciosamente analisada tanto nos Estados Unidos, onde muitos, até esse momento, não prestavam muita atenção nele, quanto em grandes cidades do mundo todo, e mesmo assim ele parecia não se importar.

Três anos e meio depois, praticamente todas as pessoas do planeta que prestam um pouco de atenção já se deram conta que os discursos do presidente americano merecem uma boa dose de ceticismo. Uma dose cavalar, na verdade. Além disso, como Donald Trump exige lealdade total, esperando comportamentos que normalizem o dele, esse ceticismo se fez necessário desde o início para todos os funcionários da Casa Branca e nomeados políticos para órgãos públicos executivos.

ASSOCIATED PRESS
O magnata imobiliário Donald Trump e sua namorada na época (que veio a ser sua segunda esposa), Marla Maples, são vistos na luta entre Holyfield e Foreman, no Trump Plaza em Atlantic City, Nova Jersey, em 19 de abril de 1991.

Assim, chegamos aos dias de hoje. O presidente encara a possibilidade de ser retirado do cargo por reter centenas de milhões de dólares de assistência militar aprovada no congresso para forçar um líder estrangeiro a contribuir para a própria campanha de reeleição. Ao mesmo tempo, ele está embarcando sozinho em uma tensão com o Irã que pode facilmente se transformar em uma guerra de verdade.

Com relação à Ucrânia, existem muitos fatos, tanto depoimentos de vítimas quanto documentos, que corroboram as acusações contra Trump. Já na situação com o Irã, parece que alguns dados sustentam suas alegações de que o país estava preparando ataques iminentes contra os Estados Unidos.

Para sobreviver à votação no Senado e concorrer à reeleição no fim deste ano, o presidente precisa que um número considerável de americanos ignore tudo isso e confie em suas palavras.

No entanto, levando em conta seu histórico, não existe nenhum motivo racional para que isso aconteça. Nenhum mesmo.

 

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No voo de volta para Washington no Air Force One após um passeio pela Louisiana no ano passado, o líder parlamentar do partido Republicano, Steve Scalise, não conseguia segurar o riso enquanto contava os comentários absurdos que ouviu de Trump naquele dia: “Os moinhos de vento provocam câncer! As aves estão morrendo!”

Como é de costume, Trump estava criticando outro inimigo constante, as turbinas eólicas, afirmando que esse modelo de geração de energia não serve para ver TV porque... e se o vento acabar? Disse que as lâminas das turbinas matam as aves, principalmente, por algum motivo desconhecido, as águias que são símbolo dos Estados Unidos, que esse tipo de energia faz o valor dos imóveis próximos despencar e que até pode causar câncer.

Nem é preciso explicar que nada do que Trump disse sobre a energia eólica é verdade. Na realidade, com as piadas de Scalise, ficou evidente que o discurso de Trump não foi levado a sério. Esses comentários podem até ser engraçados, mas não fazem o menor sentido.

Infelizmente, o país e o mundo todo levam a sério as afirmações de Trump porque, embora sejam absurdas e frequentemente falsas, são ditas com convicção e seriedade, e o poder que ele tem é tão grande que não dá para ignorá-lo completamente.

Suas palavras foram muito importantes, por exemplo, para os fuzileiros navais da Marinha Americana e vários cidadãos do Iêmen que morreram nos primeiros dias do mandato de Trump, quando ele aprovou uma invasão no país, principalmente porque seu predecessor, Barack Obama, se negou a aprovar essa medida.

Suas palavras foram e continuarão sendo importantes no Oriente Médio, já que a decisão de abandonar o acordo nuclear com o Irã (mais uma vez, por ter sido assinado por Obama), transferir a embaixada americana em Israel de Tel Aviv para Jerusalém e, mais recentemente, de assassinar o general iraniano desestabilizaram ainda mais a região.

E com certeza essas palavras foram importantes para os fazendeiros do Centro-Oeste americano, que tiverem seus meios de subsistência destruídos pela guerra comercial de Trump com a China.

Jim Young / Reuters
Presidente Donald Trump exibe a “Diretiva de Política Espacial 4”, que estabelece uma força espacial como o sexto braço das forças armadas, 19 de fevereiro de 2019.

Cada uma dessas decisões foi prevista há meses ou anos e veio acompanhada de alegações no mínimo peculiares de seu conhecimento militar, sua expertise em política externa e sua maestria em comércio exterior — afirmações que se mostraram absolutamente ilusórias. Na prática, Trump não sabe mais sobre guerra que “seus generais”. O acordo com o Irã estava indo bem, e até mesmo os funcionários do governo concordavam. Além disso, as guerras comerciais não são vantajosas nem fáceis de vencer.

Donald Trump e sua equipe, mais do que qualquer administração pública anterior, estão determinados a disseminar informações falsas para promover uma agenda com o único objetivo de garantir um segundo mandato para o republicano.

Existem vários exemplos disso. Trump e sua equipe alegam que o preço das drogas está caindo, que a qualidade do ar nos Estados Unidos é a melhor do mundo, que a construção do muro na fronteira ao sul do país está avançando rapidamente, que o exército, de repente, foi equipado com centenas de aviões e navios novos e que o país está retomando os empregos perdidos para o exterior.

Uma teleconferência digna dos livros de Orwell foi feita na Casa Branca em meados do ano passado. O ex-lobista do carvão que Trump colocou no comando da Agência de Proteção Ambiental literalmente atribuiu a ele o progresso ambiental promovido durante a gestão dos presidentes Richard Nixon, Gerald Ford, Jimmy Carter, George W. Bush, Bill Clinton e Barack Obama. Foi como se o mundo estivesse de ponta-cabeça.

No entanto, isso acontece com tanta frequência e em tantas áreas que está deixando de causar espanto. As pessoas se acostumam com os disparates e simplesmente ignoram. Talvez esse seja o objetivo.

Os progressistas repudiam, e os conservadores glorificam as políticas adotadas por Trump, da reversão de normas ambientais até a implementação de juízes da Sociedade Federalista, passando pela assinatura de um incentivo fiscal que favorece os mais ricos de forma desproporcional. Trump realmente fez tudo isso, mas a maioria das suas atitudes, se não todas, seriam as mesmas que qualquer presidente republicano tomaria partindo do cenário de 2016.

No entanto, a marca registrada de Trump nesta administração traz consequências muito mais graves em longo prazo: ele destruiu a credibilidade do governo dos Estados Unidos, dentro e fora do país e, embora Scalise e outros republicanos façam de conta que isso não tem importância, sabemos que tem sim, e muita.

ASSOCIATED PRESS
30 de junho de 2019, foto de arquivo. Trump e o líder norte-coreano Kim Jong-un posam em Panmunjom, na Zona Desmilitarizada da Coreia do Sul.

A única vez que os recursos de defesa mútua da OTAN foram acionados em seus 70 anos de história foi quando os Estados Unidos sofreram um ataque, em 11 de setembro de 2001. Soldados, pilotos e marinheiros de 14 países arriscaram suas vidas pelo país.

No entanto, nos últimos três anos, o presidente mentiu constantemente sobre os aliados e suas obrigações financeiras com a aliança militar. Trump alegou falsamente que a União Europeia foi criada para enfraquecer os Estados Unidos e mentiu sobre os termos dos acordos comerciais e militares com Japão e Coreia do Sul.

No primeiro ano de Trump, membros de governos europeus ouviram da alta cúpula americana, inclusive de Jim Mattis, na época Secretário de Defesa, e Herbert McMaster, consultor de segurança nacional, que a essência da relação entre os países não tinha mudado, independentemente das declarações pessoais do presidente. Porém, com o tempo, essas afirmações tranquilizadoras perderam força porque ficou claro que Trump costuma agir precipitadamente, como quando anunciou que deixaria os curdos — um povo que deu o sangue e a vida pelos Estados Unidos na luta contra o Estado Islâmico — à mercê do líder turco Recep Erdoğan na Síria.

O que acontecerá se algum dia precisarmos desses tradicionais aliados novamente? Como teremos a confiança deles? Que motivos eles têm para confiar no nosso país?

  

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O que pode acontecer em uma futura crise no exterior, inclusive algo tão iminente e plausível quanto uma guerra com o Irã, é uma hipótese que, por diversos motivos, não preocupa os americanos.

Um exemplo muito mais preocupante da combinação tóxica de imprudência e mentiras da Casa Branca aconteceu nos Estados Unidos há alguns meses.

Em 1º de setembro, às 10h21, no horário de Washington, o presidente dos Estados Unidos saiu de uma sessão informativa sobre o furacão Dorian e decidiu publicar uma atualização no Twitter: “Além da Flórida, Carolina do Sul, Carolina do Norte, Geórgia e Alabama são estados que provavelmente serão atingidos com (muito) mais força do que o previsto. Parece que será um dos maiores tornados da história. Já é considerado categoria 5. MUITO CUIDADO! QUE DEUS ABENÇOE A TODOS!”

No entanto, naquele momento, era consenso no National Hurricane Center que o furacão Dorian seguiria paralelo à costa leste da Flórida, da Georgia e das Carolinas e depois desviaria para o nordeste e se afastaria da costa. Foram colocados avisos ao longo das costas.

Ou seja, a inclusão do Alabama por Trump não tinha qualquer relação com a previsão dada pelo Hurricane Center.

Talvez quem nunca morou em uma região propensa a furacões não entenda por que as consequências do tweet de Trump foram tão graves. Nessas regiões, a regra é simples: seguir as recomendações e análises dos especialistas, sem amenizar as coisas nem fazer brincadeiras, pois as vidas das pessoas estão em risco.

Também é importante entender que os avisos públicos emitidos pelos meteorologistas são cuidadosamente elaborados para criar um equilíbrio entre a precisão meteorológica e a manutenção da ordem pública. As desocupações levam tempo e também têm riscos e custos de oportunidade. Por exemplo, desocupar o sudeste da Flórida dificulta muito a desocupação da Flórida Central porque, em primeiro lugar, o número de quartos de hotel e abrigos a um dia de distância da costa (de carro) é limitado e, em segundo lugar, as rodovias interestaduais e expressas não comportam tantos veículos sem que o trânsito fique travado. O principal objetivo dos meteorologistas é manter a confiança pública no trabalho que fazem para garantir que a maior parte das pessoas atenda às recomendações de emergência. Por exemplo, eles odeiam dar informações contraditórias, mesmo que um modelo algorítmico preciso indique exatamente isso, porque agir dessa forma pode desesperar pessoas que já são ansiosas.

O tweet de Donald Trump sobre o Alabama passou por cima de todas essas regras.

Tentar adivinhar por que ele fez isso provavelmente não vale a pena, mas a explicação mais simples é que Trump é uma pessoa extremamente dramática e, antes da presidência, ele apresentava um reality show na TV em que essa personalidade era valorizada. O Alabama é um dos lugares preferidos dele desde a visita que fez a Mobile, em agosto de 2015, ainda em período de campanha, mobilizando 30 mil pessoas para vê-lo. Portanto, ele resolveu inserir o estado no episódio do Furacão Dorian. Simples assim.

ASSOCIATED PRESS
Trump segura um gráfico de monitoramento de condições meteorológicas do Furacão Dorian — com uma correção feita à caneta — enquanto conversa com repórteres no Salão Oval da Casa Branca.

As consequências, naturalmente, foram imediatas. O Serviço Nacional do Clima em Birmingham foi inundado de ligações de pessoas em pânico, perguntando sobre o furacão monstruoso que, de repente, estava em rota de colisão com o estado. Os meteorologistas responderam ao tweet do presidente 20 minutos mais tarde: “O Alabama NÃO será afetado pelo #Dorian. Repetimos: não haverá impactos do Furacão #Dorian em qualquer parte do Alabama. Ele continuará muito distante, ao leste”.

Esse fato instigou Trump e seus aliados políticos na Casa Branca a travar uma guerra com os especialistas, os fatos concretos, enfim, com a verdade, por mais de uma semana.

Em vez de simplesmente admitir o erro e seguir em frente, Trump preferiu insistir que estava certo. Ele alegou falsamente que, no momento do tweet, ainda havia uma chance razoável de o Alabama ser atingido. Isso gerou uma reação que já tinha acontecido várias vezes antes e continua se repetindo até hoje: sua equipe tentou ajustar a realidade ao discurso do chefe, que se recusou a mudar de postura.

Para atingir esse objetivo, seus assessores solicitaram a impressão de um grande mapa meteorológico de uma semana antes, quando havia a previsão de que a tempestade cruzasse a península da Flórida. Para completar a obra, Trump desenhou um semicírculo com uma caneta preta para incluir a região sudeste do Alabama na zona de impacto.

Essa se tornou a narrativa oficial da Casa Branca por vários dias, afirmando que Trump estava certo, não os melhores meteorologistas do país. Um dos seus principais assessores de imprensa até mantinha uma versão impressa do mapa de monitoramento desatualizado na mesa para continuar discutindo com os jornalistas e afirmando que Trump estava correto durante meses.

Essa história acabou virando piada, ocultando os perigos que esse tipo de declaração representa.

Mesmo em assuntos sérios, não dá para esperar que Trump diga a verdade ou corrija erros óbvios. A situação é ainda pior porque a Casa Branca e os principais assessores defendem Trump e punem qualquer subordinado que ousar contrariá-lo.

Tomohiro Ohsumi via Getty Images
O navio USS John S. McCain é levado ao Japão no dia 1º de julho de 2019, após uma troca de e-mails entre a Casa Branca e o Departamento de Defesa sobre como esconder o navio durante a visita de Trump para que ele não se enfurecesse ao ver o nome do rival.

O Serviço Nacional do Clima e a Agência Nacional de Administração Oceânica e Atmosférica (NOAA, na sigla em inglês) são duas das joias da coroa do governo — verdadeiros portos seguros em termos de competência, que não se abalam por momentos políticos acalorados. A infantilidade de Trump mergulhou os dois no caos incontrolável que constantemente o cerca.

Em 6 de setembro, a sede da NOAA emitiu uma declaração — não assinada, mas presume-se que o autor tenha sido um funcionário nomeado — apoiando Trump e criticando o departamento de Birmingham. Esse ato provocou a reprovação generalizada dos maiores cientistas e equipes da área. Foi uma verdadeira confusão, criada sem qualquer motivo.

Isso porque o assunto era um furacão, um evento climático relativamente previsível que não tem a Casa Branca como fonte de informação principal, que dirá exclusiva. O que vai acontecer quando o tema da vez for outro, por exemplo, um bombardeio terrorista, um ataque a uma base militar no exterior ou um surto de doença, e a Casa Branca efetivamente for a principal ou até mesmo a única fonte de informações sobre o assunto?

Talvez o assassinato planejado do grande líder de uma nação hostil?

 

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Por ter tornado a desonestidade uma das principais características da Casa Branca, Trump contava com um cúmplice involuntário: os jornalistas que cobrem a mansão.

Parte dessa situação era inevitável, pelo menos no início. Nós, jornalistas, costumamos presumir que os entrevistados falam a verdade quando conversam conosco, e Trump e sua equipe tiveram o mesmo benefício da dúvida. Acontece que, com um histórico tão extenso de mentiras (vale lembrar que Trump costumava ligar para os colunistas de fofocas e se identificar como “John Barron” ou “John Miller” para tentar plantar mentiras sobre suas conquistas sexuais e financeiras), talvez Trump não merecesse a confiança que teve.

Mas havia um consenso, disseminado pelos líderes republicanos nacionais, de que Trump evoluiria no cargo, de que a responsabilidade pesaria e ele finalmente agiria como adulto.

Obviamente, isso não aconteceu. Por acaso, fui um dos repórteres presentes no primeiro dia de Trump no cargo e vi com meus próprios olhos quando, em frente ao muro memorial na sede da CIA em Langley, Virgínia, ele alegou falsamente que havia cerca de um milhão e meio de pessoas no National Mall na sua cerimônia de posse, e que a imprensa mentiu quando afirmou que o público dele foi muito menor que o de Barack Obama oito anos antes. Algumas horas depois, o primeiro ato oficial de Sean Spicer, secretário de imprensa da Casa Branca, foi entrar na sala de imprensa, repetir as mentiras e sair.

O bombardeiro quase que diário de inverdades que veio depois disso ajudou a eliminar a aversão dos jornalistas pela palavra “mentira” em mídia impressa e TV. O problema dessa palavra, além da possibilidade de espantar parte da audiência pela escolha de um termo tão categórico, é que existe uma questão de definição: uma mentira implica que o suposto mentiroso sabe que está dizendo algo falso no momento da fala. Acontece que, em tempo real, é praticamente impossível provar que uma determinada declaração é falsa. Como podemos saber o que se passa na cabeça de uma pessoa enquanto ela está falando?

No entanto, conforme o tempo passava, começamos a perceber que Trump sempre recebia informações corretas sobre todos os assuntos, seja sobre temas irrelevantes (como o fato de Ronald Reagan ter ou não vencido em Wisconsin — ele venceu) ou graves (como o pagamento pela China das tarifas impostas por Trump — o que não era verdade). Mesmo assim, ele mantinha as alegações falsas. Esse cenário levou cada vez mais organizações de notícias a abandonar os costumes e passar a chamar Trump de mentiroso, merecidamente.

Infelizmente, outros fatores mais enraizados fizeram a relação do presidente com a verdade parecer transitar dentro do que se considera aceitável, quando, na verdade, ela está totalmente fora dos limites.

Em vez de identificar as mentiras contadas pela administração, muitos jornalistas simplesmente transformam essas mentiras em notícias. Ou seja, a manchete é: “Presidente afirma X”, quando deveria ser: “Presidente mente sobre X” ou, mais precisamente, “Presidente volta a mentir sobre X”.

Já fui repórter da Associated Press e sei da responsabilidade de oferecer uma cobertura limitada aos fatos, por isso, entendo que, às vezes, quando o trabalho exige, é preciso apenas informar o que aconteceu. No entanto, também acompanho Trump desde seu primeiro dia na Casa Branca, por isso, sei que essa abordagem é um enorme desserviço ao público. Mesmo assim, ela continua sendo o padrão em muitas coberturas da Casa Branca.

Parte disso se deve ao fato de que os jornalistas mais jovens e inexperientes não compreendem que o comportamento de Trump não é simplesmente incomum, mas sim imoral e perigoso para uma sociedade autônoma.

Algum tempo atrás, cobrir a Casa Branca era tarefa para jornalistas mais experientes. Para chegar lá, os repórteres passavam décadas cobrindo conselhos de escolas, comissões municipais, tribunais criminais, assembleias legislativas estaduais, o Congresso, o Pentágono, o Departamento de Estado e outros. Eram essas experiências que formavam uma base sólida para entender o funcionamento do governo americano e o papel dos envolvidos que fazem essa engrenagem girar.

Erin Scott / Reuters
Trump segura o que parece ser um discurso preparado e notas escritas à mão após assistir ao discurso de Gordon Sondland, embaixador americano na União Europeia, em uma coletiva de imprensa no Gramado Sul da Casa Branca, em 20 de novembro de 2019.

Hoje, os jornalistas que cobrem a Casa Branca são totalmente diferentes. Muitos repórteres que estão lá cobriram poucas campanhas políticas antes de serem designados para essa tarefa e teriam muita dificuldade para explicar coisas como o imposto sobre valor agregado, como funciona uma emissão de títulos do tesouro ou as fórmulas de financiamento educacional em nível estadual. Esse é um dos motivos pelos quais muitos dos repórteres que cobriram a votação dos candidatos de 2016 para eliminar as normas educacionais do Common Core e delegar essa decisão aos conselhos educacionais locais apenas anotaram tudo, em vez de perguntar aos candidatos o que eles queriam dizer, pois as escolas já eram controladas por conselhos locais, por exemplo.

Mas, justiça seja feita: a culpa não é toda deles. A recessão econômica de 2008-2009 atingiu em cheio o setor de notícias, o que gerou a demissão generalizada dos jornalistas que ganhavam salários mais altos, ou seja, os que tinham uma década ou mais de experiência. Como resultado, hoje em dia, os jornalistas do país todo e de Washington são muito mais jovens e inexperientes do que antes da recessão. Além disso, o setor passou por uma grande reformulação para acompanhar os avanços da Internet e das redes sociais.

Essa última parte é o elemento mais sinistro que contribui para a “normalização” de pessoas como Trump.

Os dias em que um ou dois artigos eram escritos por dia ou uma matéria mais detalhada por semana ficaram no passado para a maioria das organizações de notícias. Alguns dos “novos canais de mídia” têm uma cota de cinco ou seis artigos assinados por dia. É óbvio que, dessa forma, fica muito difícil produzir jornalismo de qualidade.

No entanto, como ficou claro, essa máquina de ruídos chamada Trump combina perfeitamente com a cota de cinco ou seis artigos por dia. Na verdade, entre os tweets matinais e os comentários aleatórios nas sessões de fotos no Salão Oval, prévias de reuniões de gabinete e sessões ruidosas no Gramado Sul acompanhadas das turbinas a jato do Marine 1, Donald Trump produz matéria-prima nova para uma dúzia, às vezes até duas, de “conteúdo” por dia. É muito diferente do governo Obama ou da administração de George W. Bush, quando o presidente chegava a passar dias ou até uma semana sem dizer algo que merecesse destaque jornalístico.

É por isso que até os jornalistas que cobrem a Casa Branca há mais tempo, e que deveriam ter um pouco mais de noção, elogiam Trump e seu governo por ser o mais “acessível” da história, sem considerar que grande parte desse acesso inclui material totalmente falso ou sem sentido.

ASSOCIATED PRESS
Sarah Huckabee Sanders, secretária de imprensa da Casa Branca, conversa com repórteres no Gramado Norte, na área externa da Casa Branca, em 23 de maio de 2019.

Um exemplo perfeito é Sarah Huckabee Sanders. Como secretária de imprensa da Casa Branca, sua principal função deveria ser fornecer informações precisas ao povo americano por meio dos veículos de imprensa. É claro que ela poderia “distorcer” os fatos para colocar o presidente na posição mais favorável possível. No entanto, ela foi além. Com certa frequência, Sarah costumava declarar, por exemplo, que Trump trabalhava mais do que qualquer pessoa que ela conhecia. No entanto, ele tem o horário de trabalho mais leve entre todos os presidentes pelo menos nos últimos 50 anos. Ela também afirmava que Trump conhecia profundamente os detalhes dos objetivos políticos do governo. No entanto, qualquer análise superficial das declarações dele é suficiente para comprovar que, muitas vezes, ele não faz a menor ideia do que está disposto na legislação ou, às vezes, até mesmo nos próprios decretos executivos.

Apesar de excessivas, essas manobras de relações públicas ainda estão dentro do limite aceitável, mas o que ela fez nos dias seguintes à demissão de James Comey em maio de 2017, não.

Ao responder a uma pergunta sobre o ânimo dos agentes do FBI depois que Trump demitiu o diretor da instituição com o intuito de obstruir uma investigação sobre sua campanha, Sanders afirmou que ouviu pessoalmente “vários membros do FBI” apoiando essa medida. No dia seguinte, quando precisou explicar quantas pessoas exatamente eram os “vários membros do FBI” que mencionou, ela disse: “Diversas pessoas que trabalham no FBI disseram que estavam muito felizes com a decisão do presidente”.

No fim das contas, era tudo uma grande mentira. Toda a declaração foi completamente inventada com a finalidade exclusiva de destruir a reputação de uma pessoa. Quase dois anos depois, o fato foi publicado no relatório do procurador especial Robert Mueller. Desse dia em diante, Sanders deveria ter sido tratada como uma grande mentirosa, e nenhum jornalista deveria mais confiar em nada que ela falasse.

Porém, meses depois, quando ela pediu demissão, tudo parecia já ter sido perdoado. Inclusive, dois membros do comitê da Associação de Correspondentes da Casa Branca (WHCA, na sigla em inglês) organizaram uma festa de despedida para ela.

 

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Algum dia, Donald Trump não será mais presidente.

Talvez em um ano, talvez em cinco, ou, no caso de uma improvável renúncia ou da aprovação do processo de impeachment, talvez em poucas semanas ou meses. De qualquer forma, a saída de Trump da Casa Branca trará uma reflexão séria sobre o que os americanos vão tolerar do principal representante eleito.

 

Carlo Allegri / Reuters
Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, discursa em uma iniciativa de campanha eleitoral em Pensacola, na Flórida, em 8 de dezembro de 2017.

Depois do governo Nixon, o país chegou ao consenso de que aquela situação não foi nem um pouco benéfica e, por isso, foram criadas proteções institucionais para evitar que ela se repetisse. O uso de caixa dois pelo governo Nixon para contratar os assaltantes do escândalo Watergate foi responsável pela criação de novas leis para o financiamento de campanha que impunham limites e exigiam maior transparência. Outras leis instituíram proteções à privacidade, inspetores independentes gerais para órgãos do executivo, codificação dos registros presidenciais e fortalecimento da Lei da Liberdade de Informação.

O que sustentava todas essas reformas era a convicção geral de que um presidente não deve mentir ou enganar, e a principal promessa de Jimmy Carter em 1976 era não mentir para o povo americano. Ele não tinha muitas chances, mas, com essa mensagem, acabou vencendo as eleições.

Quatro décadas mais tarde, será que a verdade ainda tem valor para os americanos? Pesquisas mostram que a grande maioria do público sabe muito bem que Trump e sua equipe são muito desonestos. Uma pesquisa da CNN realizada em setembro mostrou que somente 28% dos americanos acreditam em todas ou na maior parte das informações veiculadas pela Casa Branca. Mesmo com esses números, cerca de 40% a 45% do público ainda aprova o governo Trump. Conversei com diversas pessoas que não acreditam em Trump, mas apoiam o governo dele mesmo assim. Uma das justificativas que eu mais ouvi foi: “Todos os políticos mentem, por que eu me importaria tanto com as mentiras do Trump?”

Essa talvez seja a pior e mais corrosiva mentira que ganhou força com Trump: que todos são corruptos e todos mentem, por isso, os republicanos podem aceitar um mentiroso corrupto, desde que seja um aliado.

Percebi essa atitude nos defensores de Trump em todo o país, do Wisconsin à Flórida, quando confrontados com provas irrefutáveis das mentiras e do uso da posição pública em benefício próprio por parte de Trump. Um membro do conselho governamental local de Plymouth, New Hampshire, que tem 6.752 habitantes, disse que não se importa com a desonestidade de Trump porque todos os políticos são assim, embora não conseguisse se lembrar de um único exemplo. O tesoureiro de um comitê municipal do partido republicano da região oeste de Iowa afirmou que não se incomoda com o fato de Trump estar costurando um contrato público multimilionário com seu próprio resort de golfe no Sul da Flórida porque todos os eleitos encontram formas de desviar dinheiro público.

Acontece que nem todos são corruptos. Nem todos são mentirosos.

ASSOCIATED PRESS
O presidente Donald Trump gesticula durante um discurso da senadora republicana da Carolina do Sul, Lindsey Graham, no Salão Leste da Casa Branca, em 6 de novembro de 2019. Graham se tornou uma das maiores apoiadoras de Trump no Partido Republicano.

Na verdade, a maioria dos políticos não mentem, e fazem o possível para evitar mentir. Eles apresentam fatos desfavoráveis sobre si mesmos de uma forma favorável e leve para poder administrar a situação. Eles confundem, desconversam e evitam jornalistas e o público, mas, de forma geral, os políticos tentam não mentir porque, na melhor das hipóteses, as mentiras geram críticas, e na pior, podem destruir sua carreira política.

Pelo menos, era assim que as coisas funcionavam antes da presidência de Trump.

A conduta dos mais fervorosos apoiadores republicanos de Trump na Casa Branca, observada durante as sessões sobre o impeachment, sugere que haverá um quadro de funcionários públicos que tentarão entranhar a criação de “fatos alternativos” permanentemente à cultura da política americana de agora em diante.

Essa mentalidade é extremamente perigosa. A revelação de que Nixon mentiu sobre algo tão importante só o levou à ruína quando uma grande parcela dos eleitores do partido chegou à conclusão de que essa conduta era inaceitável. Quarenta e seis anos depois, com um conjunto parecido de fatos já sob domínio público, comprovando que Trump tentou fraudar sua possível reeleição, os eleitores republicanos parecem não se importar, mostrando aceitar uma série de mentiras absolutamente fantasiosas.

Como um governo autônomo sobrevive quando grande parte de seus adeptos simplesmente se recusa a aceitar os fatos porque são contrários ao líder que representa seus preconceitos?

Na astrofísica, existe um ditado que diz que a gravidade sempre vence. Depois de usadas todas as forças nucleares, tanto robustas quanto frágeis, depois de dilacerados e dissipados todos os fótons do planeta, a gravidade perdurará e continuará atuando sobre tudo.

Na vida, também é assim. As pessoas podem ignorar os fatos, mas isso não impede que eles continuem existindo. Dizer que as mudanças climáticas são falsas não impedirá que Miami, Norfolk ou Annapolis fiquem inundadas a cada maré alta. Alegar que Kim Jong-un, líder norte-coreano, não está mais interessado em armas nucleares não faz com que isso seja realidade.

Para que a verdade possa vencer depois do governo Trump, o povo americano deverá ser o responsável por esse movimento. Os cidadãos comuns, que não passam horas por dia monitorando notícias e o Twitter, terão que decidir que mentir é inaceitável para o governo, que os encarregados do dinheiro público e do bem-estar social têm a obrigação fundamental de levar a verdade ao povo.

A imprensa não pode liderar essa caminhada. A imprensa é um negócio e, nos negócios, o cliente tem sempre razão. Se, neste caso, o cliente prefere ouvir mentiras que validam seus medos e preconceitos, existem muitos canais de mídia dispostos a satisfazer essa necessidade.

ASSOCIATED PRESS
25 de setembro de 2019, foto de arquivo. O presidente Donald Trump se encontra com o presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskiy, durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York.

Os americanos precisam pensar se têm direito a informações verídicas vindas da Casa Branca ou não. Será que o povo estaria disposto a permitir que o prefeito eleito de uma cidade pequena mentisse com tanta frequência sobre a administração da cidade? E quanto ao presidente de um conselho escolar?

Pensando bem, é fácil entender por que a vencedora ucraniana do Miss Universo não apareceu na foto no dia 25 de setembro e ninguém se deu conta.

Nesses 17 minutos, Trump alegou — mais uma vez, falsamente — que não havia pressionado o novo presidente ucraniano a investigar Joe e Hunter Biden, embora o registro da ligação dessa mesma conversa telefônica ocorrida dois meses antes deixava claro que foi exatamente o que ele fez. Ele alegou que outros países europeus não ajudavam nem a Ucrânia nem os Estados Unidos, quando na verdade era o oposto.

Ele defendeu os esforços de seu advogado, Rudy Guiliani, em disseminar uma teoria conspiratória já desmascarada de que a Rússia não havia ajudado na eleição de Trump em 2016, e que a Ucrânia culpou a Rússia plantando provas falsas. Ele reiterou sua frequente, mas mentirosa, alegação de que a China “doou” US$ 1,5 bilhão a Hunter Biden.

Escondida ali, em meio a todas as mentiras, Trump fez uma declaração a Volodymyr Zelenskiy que quase poderia ser qualificada como uma definição de política. Ao receber o pedido de ajuda de Zelenskiy para recuperar a Crimeia das mãos da Rússia, Trump “lavou as mãos”, afirmando que a invasão e a anexação tinham acontecido durante o governo de seu antecessor, Barack Obama e insistindo que Zelenskiy conversasse com o líder russo, Vladimir Putin. “Você já avançou bastante no diálogo com a Rússia”, disse Trump a Zelenskiy. “Continue assim”.

A expressão de terror no rosto de Zelenskiy durante a maior parte da conversa disse tudo. Corrigir Trump quanto à ucraniana do Miss Universo seria o menor dos seus problemas. Ou dos nossos.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.