Tamo Junto

Por menos estereótipos e mais olhares recém-nascidos

"Nos últimos anos temos refletido e debatido, como organização, os limites do humor e até onde podemos brincar sem usar características pessoais em benefício da graça."

Tem uma psicóloga ilustre que diz que vivemos uma epidemia de diagnósticos. Algo que vai além dos hospitais. Ela diz que nós, que não somos estudiosos da saúde, usamos a lógica médica para definir as pessoas: aquele ali tem TOC, aquela é estressada, a criança é hiperativa, o outro surtou.

As enfermidades e sintomas viraram atributos, segundo a psicóloga e consultora em educação Rosely Sayão, que podem acabar apagando a identidade da pessoa por trás deles. Daí que viramos todos especialistas em detectar doenças e entender o comportamento humano por meio delas.

A espécie humana sempre foi craque em atribuir significados e reforçar estereótipos. Características físicas e emocionais se tornam adjetivos que identificam – e desumanizam – o outro. São conceitos prévios que atribuímos a alguém, às vezes sem nem ao menos termos contato. Está dado o preconceito. Isso acontece com qualquer ser humano, mas se dá de forma muito mais violenta com mulheres, negros, homossexuais e pessoas fora do padrão estético do momento.

Quantas vezes já não ouvimos que homossexuais são doentes ou transtornados? E que existiria uma cura para isso? Também naturalizamos a ideia de que mulheres são sentimentais e loucas. Mais recentemente, passamos a medicalizar crianças que não conseguem acompanhar uma aula em função do transtorno do déficit de atenção com hiperatividade – neste caso, a enfermidade existe de fato, mas seu diagnóstico tem sido supervalorizado.

Esses adjetivos, quando passam a fazer parte da identidade da pessoa, machucam. Violentam. Desumanizam.

O vocabulário médico faz parte do trabalho dos Doutores da Alegria. Na pele de besteirologistas, brincamos com a ideia de fazer um ultrassom com violão ou uma cirurgia para extração de miolos moles. Nossos colegas da saúde lidam diariamente com doenças difíceis e com tratamentos sofisticados. Mesmo com o desgaste emocional, a maioria dos profissionais enxerga de fato crianças, e não doenças ou diagnósticos em seu lugar. Em uma pesquisa que fizemos há alguns anos, descobrimos que esse “olhar humanizado” fica ainda mais aguçado quando há palhaços intervindo cotidianamente no ambiente.

Nos últimos 50 anos, a Medicina avançou como nunca. Em hospitais universitários, aprendemos muito com os médicos em formação e, estando há quase 30 anos nesse ofício, vimos de perto o avanço da Medicina diagnóstica. E a tecnologia que permite diagnosticar uma alteração rara no corpo humano também abriu as portas do conhecimento para o paciente de hoje, que é muito mais informado. Com um cardápio de patologias ao alcance das mãos, fica fácil adjetivarmos sem qualquer cerimônia. Aliás, caro leitor ou leitora, dá para ver pelas suas últimas decisões que você tem um quê de bipolar...

Nos últimos anos temos refletido e debatido, como organização, os limites do humor e até onde podemos brincar sem usar características pessoais em benefício da graça. Ainda que atuemos em um espaço dado ao diagnóstico médico e que a comicidade do palhaço esteja contida nele mesmo, e não no outro, é uma tarefa contínua desnaturalizar o olhar e enxergar como um recém-nascido.

Mas trata-se, pensamos, de um exercício diário para todos. E de um caminho (ainda bem!) sem volta. Pois aqui vai um manifesto:

Deixemos as bulas de remédio para aqueles que cuidam de doenças!
Os estereótipos para aqueles que estudam comportamentos humanos.
A lógica médica para os médicos.
A poesia... bem, a poesia é para todos, sem contraindicação!
Vamos olhar para o que está vivo e pujante, para o que está potente!
Vamos nos despir dos preconceitos. Do olhar torto. Da risada que dói no outro.
Que nossos sentidos sejam recém-nascidos. Todo dia. Todo dia. Todo dia. Todo dia...

Este artigo é de autoria de articulista do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Assine nossa newsletter e acompanhe por e-mail os melhores conteúdos de nosso site.