OPINIÃO
11/10/2019 03:00 -03 | Atualizado 11/10/2019 03:00 -03

Não é só uma menina: É o futuro

Por trás de toda mulher pouco representada, há a história de uma menina que também não o foi.

Divulgação/Câmara dos Deputados
Maria Antômnia Deziderio, ao centro, quando presidiu a sessão na Câmara do Parlamento Jovem Brasileiro, em 2018.

Provavelmente você não sabe, mas o dia 11 de outubro é o Dia Internacional da Menina. A diferença desse dia para os vários outros que temos em nosso calendário é que ele foi criado pela ONU e carrega em seu significado, além da comemoração, um grito de alerta para a situação desse grupo tão pouco assistido. 

Aos 18 anos, eu faço parte desse grupo. Sou uma menina. E escrevo esse artigo pensando em milhões de outras meninas como eu, que sabem ou que não sabem sobre o nosso dia. Mas escrevo para que você saiba. 

Vivemos em um mundo claramente desigual em questões de gênero. O papel da mulher ainda é muito pouco discutido e extremamente marginalizado. Mas por trás de toda mulher pouco representada, há a história de uma menina que também não o foi. E é analisando de maneira quase que cíclica esses fatos que somos levados a observar a importância de se valorizar meninas. 

Quando escrevo “valorização” me refiro, na verdade, à promoção de direitos básicos como acesso a educação. Sim, por mais que estejamos na era da informação e da conexão, ainda existem muitas crianças que são privadas de direitos básicos, como o de frequentar escolas. A UNESCO afirma que na região da África Subsaariana, para cada 100 meninos de seis a onze anos fora da escola, há 123 garotas sem direito à educação. Tal fato leva, consequentemente, a falta de representação de mulheres em posição de poder e com capacidade de exigir qualquer tipo de direito.

Foi analisando esses dados, e vendo muitas poucas mulheres em cargos importantes  que eu, aos meus 15 anos, entendi que isso era errado, mas que aparentemente ninguém estava fazendo muita coisa. Como falar sobre direitos da mulheres já é algo muito difícil, especialmente pelo preconceito que se tem com o palavrão chamado “feminismo”, demorei a encontrar pessoas com as quais pudesse falar e questionar sobre como é ser menina numa sociedade tão desigual e assolada pela pobreza e violência como é a nossa. Falar sobre igualdade de gênero na minha escola com os meus amigos meninos principalmente, me rendeu o título de “faladeira”, “politicamente correta” e até mesmo “chata”. 

Me rendi à internet, único meio em que ainda se tem uma liberdade de fala maior e sem tantas represálias como na vida real. E, pesquisando, três anos depois, eu conheci uma menina que ia mudar a minha vida para sempre. Helena, uma menina de 17 anos, me contou que participava de uma organização chamada Girl Up e que eles tratavam sobre questões de gênero e valorização das meninas. Ouvir aquilo foi surreal. Todas as minhas ideias sufocadas, questionamentos e indignações encontraram espaço para serem ouvidas, espaço muito maior do que meus “textões” de Facebook. 

O Girl Up trabalha com a ideia de liderança horizontal e de que empoderar meninas para que elas sejam líderes é a melhor forma de combater as desigualdades vividas em suas comunidades. Montei meu Clube Girl Up no início de 2019, com o nome de Roda Baiana. O Clube, que começou como uma espécie de lugar seguro  onde várias meninas do meu colégio se reuniam na minha casa para falar sobre como lidar com assédio, ou como deveriam existir mais times de futebol para meninas na escola, acabou se tornando algo muito grande. 

Em julho desse ano, tive a oportunidade de ir para o Girl Up Leadership Summit, que é uma conferência realizada pela instituição e que reúne as líderes de todo o mundo em Washington para falar como podemos fazer impacto. Foi louco viajar para outro país, para uma conferência que a Michelle Obama já  participou, para ouvir várias meninas falarem de igualdade de gênero e protagonismo jovem. E o mais surreal ainda é que minha ida foi viabilizada por vaquinha que eu tirei do papel. Até as pessoas que antes me apelidavam de “politicamente correta” e “chata” perceberem que igualdade de gênero é coisa séria, e acesso à educação também. 

Com a rede de contato de meninas de todo Brasil e mundo conectadas com um propósito, aprendi que somos fortes se unidas. Em setembro participei do Parlamento Jovem Brasileiro, um programa promovido pela Câmara dos Deputados para que jovens possam ter a vivência de um parlamentar. Uma das atividades que tivemos foi a criação de partidos fictícios, e junto com outras meninas criei um partido chamado Fêmina indo contra tudo que era feito até então no programa, mas que para mim, já estava mais que na hora de ocorrer. 

O Fêmina tinha como bandeira combater a desigualdade dos números que ainda permeiam no Congresso, onde apenas 15% dos parlamentares são mulheres. Me candidatei à presidência da Câmara, algo inédito, já que seria a primeira vez que o programa teria uma presidente mulher, nordestina, e negra. O discurso de sororidade do Fêmina ganhou muitos adeptos, e acabei sendo eleita, com direito a muitos gritos de “me representa presidenta!”

O que quero demonstrar através desses fatos é que o Dia Internacional da Menina é também uma forma de reforçar a ideia de que quando se educa e empodera garotas, elas educam a sociedade. Quando elas acreditam que são capazes e devem ocupar todos os espaços, elas ocupam. Feliz Dia da Menina e lembre-se: não é só uma garota, é o futuro. 

Este artigo é de autoria de articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Assine nossa newsletter e acompanhe por e-mail os melhores conteúdos de nosso site.