ENTRETENIMENTO
24/12/2019 04:00 -03

Retrospectiva 2019: O ano de novelas para guardar na memória e outras para esquecer

Embarque nesta retrospectiva da teledramaturgia nacional!

Montagem/Artur Meninea/Raquel Cunha/TV Globo
Regina Casé em "Amor de Mãe", Antônio Fagundes e Grazi Massafera em "Bom Sucesso" e Juliana Paes em "A Dona do Pedaço

Foi um ano de altos e baixos também para a televisão e, por consequência, para as telenovelas. Teve de tudo, de sucessos populares a tramas esquecíveis. Esta retrospectiva abrange os 12 títulos exibidos em 2019, cada qual com particularidades únicas.

  1. As Aventuras de Poliana

O que dizer de uma novela infantil que estreou em maio de 2018 sem previsão para acabar? Apenas que, com o SBT esticando-a o máximo possível, não há qualidade dramatúrgica que perdure com a mesma narrativa e mesmo elenco iniciais. Corre o risco de superar Chiquititas como a novela mais longa do SBT. Quando Silvio Santos estrear uma novela inédita, a gente volta a conversar. 

  1. Espelho da Vida

De seus 160 capítulos, a metade foi exibida em 2019. E justamente a que interessa. A novela de trama espiritualista, escrita por Elizabeth Jhin, estreou em 2018 sem despertar interesse do público, mas acordou de um sono profundo em janeiro de 2019. Era verão, ano-novo, férias, e chegou o carnaval, a fome, a peste, a guerra. Quem não viu perdeu uma história bem alinhavada sobre épocas que se cruzavam com personagens vivendo suas encarnações passadas. Mais um trabalho de Jhin que merece elogios, assim como a direção de Pedro Vasconcelos, Cláudio Boeckel e equipe e as ótimas atuações de Felipe Camargo, Vitória Strada, Alinne Moraes e Irene Ravache. Cristal injustiçado e incompreendido (como se fala na Internet) que não mereceu a audiência baixa que teve.

  1. O Sétimo Guardião

Uma novela para esquecer. Quanto maior era a expectativa pelo retorno de Aguinaldo Silva ao realismo fantástico, gênero que o consagrou na década de 1990, e retorno pelo qual o autor era tão cobrado, maior foi o tombo. Um desacerto só entre Aguinaldo e a direção de Alan Fiterman e Rogério Gomes. O autor escrevia uma coisa, os diretores entendiam outra. A celeuma toda começou antes da estreia, com o processo envolvendo a autoria da novela, requerida pelos alunos da Masterclass de Aguinaldo, e culminou com os bastidores mais barulhentos da história das telenovelas - uma novela à parte envolvendo o elenco em meio a traições, choro, brigas e fofocas de sexo em Noronha e nos Estúdios Globo. Em meio ao caos, Elizabeth Savalla destacou-se com sua personagem - o único bom legado de O Sétimo Guardião.

Montagem/TV Globo/SBT
Vitória Strada e João Vicente de Castro em "Espelho da Vida", o gato Leon de "O Sétimo Guardião" e Sophia Valverde e Igor Jansen em "As Aventuras de Poliana

 

  1. Verão 90

O canto de cisne de Jorge Fernando (falecido em outubro em 2019) se considerarmos que nela o diretor reuniu muitas das características que marcaram sua obra na televisão: a irreverência e o humor nonsense sem compromisso com verossimilhança. A história bobinha repleta de referências à década de 1990 (na moda, música e cultura pop) só foi cativar o público a partir de sua metade. Cláudia Raia elevou à última potência a caricatura dos tipos que acostumou-se a viver na TV, enquanto Jesuíta Barbosa errou o tom na interpretação de seu vilão ao deixar transparecer uma eterna cara amarrada. Que bom que o público conseguiu embarcar e elevou a audiência do horário a bons patamares em seus últimos meses.

  1. Órfãos da Terra

Uma novela que deixou sua marca pela importância na abordagem da diversidade étnica e da questão dos imigrantes refugiados e exilados. A direção de Gustavo Fernandez fez a diferença, principalmente na primeira fase da trama, em que brilharam os personagens de Herson Capri e Letícia Sabatella - tanto que lamentou-se suas ausências pelo resto da novela. O humor foi destaque ao pontuar a rivalidade entre judeus e árabes de maneira leve e divertida, com as atuações de Flávio Migliaccio, Osmar Prado, Nicette Bruno, Marcelo Médici e Luana Martau. No entanto, faltou fôlego a Órfãos da Terra para levar adiante a trama central, que revelou-se fraca e inconsistente, recheada de um cansativo e pouco coerente vaivém da vilã vivida por Alice Wegmann, em uma interpretação caricata que não cabia na proposta da novela. Uma ideia digna, mas com desenvolvimento que deixou a desejar.

  1. Jezabel

Uma boa leitura dessa produção da Record TV: a gota d´água das novelas bíblicas da emissora. Produção portentosa (Record + Formata), mas sem texto e elenco que cativasse o interesse do telespectador, sinalizando a emissora para o cansaço do formato novela com história da Bíblia. Ainda bem que foi curta. Por ora, a Record dá uma arejada com novelas contemporâneas enquanto prepara Gênesis, a estrear em 2020.

Montagem/TV Globo/Record TV
Jesuíta Barbosa em "Verão 90", Lidi Lisboa em "Jezabel" (Blad Meneghel/Record TV) e Herson Capri em "Órfãos da Terra

 

  1. A Dona do Pedaço

O maior sucesso de audiência e faturamento da TV brasileira no ano. Para levantar o moral do horário das nove da noite - combalida com o desempenho insatisfatório de O Sétimo Guardião -, a Globo não teve dúvida: protelou a estreia da produção inicialmente escolhida para a faixa (Amor de Mãe, da estreante Manuela Dias) e convocou Walcyr Carrasco, o arrasa-quarteirão das novelas brasileiras. Tiro certeiro. O autor armou seu leque de tramas batidas, personagens caricatos, texto direto, fácil e infantil, sem o menor pudor de passar por cima da verossimilhança e da inteligência do telespectador, exigindo-o nada além de passividade. Em meio a atores subaproveitados, sem nenhum grande destaque ou interpretação, o público exorcizou a dura realidade do dia a dia. A Dona do Pedaço ainda ficou marcada pela inovação da Globo na maneira de trabalhar o merchandising: pela primeira vez, os personagens fictícios extrapolaram os limites da novela para anunciar produtos no intervalo comercial. Também a primeira vez em que a Globo gravou (em seus próprios estúdios) anúncios de produtos com seus personagens para serem exibidos no intervalo. Novos tempos, novas abordagens.

  1. Topíssima + 9. Amor Sem Igual

Topíssima marcou o retorno da Record TV (após um hiato de quatro anos) às tramas contemporâneas não-bíblicas. Com base na comédia romântica e privilegiando a leveza (apesar de pinceladas em tramas fortes como tráfico de drogas e aborto), a novela de Cristianne Fridman agradou inclusive a crítica. Para substituí-la, a emissora desprezou uma regrinha básica da produção de novelas brasileiras: repetiu autora (Fridman) e diretor (Rudi Lagemann). Apesar de elenco, tramas e ambientações diferentes, Amor Sem Igual traz a mesma marca da produção anterior, quando geralmente se escalam profissionais diferentes com a intenção de diversificar a oferta para o público. Não chega a ser um problema, mesmo porque Amor Sem Igual é mais calcada no drama do que Topíssima. Ou talvez este seja um problema: o público não sentirá falta em Amor Sem Igual da leveza que predominou em Topíssima? A conferir, já que a nova produção da Record não tem nem um mês no ar.

  1. Bom Sucesso

O título faz jus ao merecido sucesso. A melhor novela de 2019 não precisou de didatismo, reiteração ou texto tatibitate para fisgar o público. Pelo contrário, usou de uma abordagem que corria o risco de espantar a audiência: a paixão pela leitura. Sem impor nada, pedantismo, levantar bandeira ou empurrar goela abaixo o tema, os autores Rosane Svartman e Paulo Halm e o diretor artístico Luiz Henrique Rios se ampararam em texto e direção sensíveis e personagens cativantes, defendidos por um elenco afinado, com destaque para Grazi Massafera, Antônio Fagundes, Fabiula Nascimento, Davi Júnior e Armando Babaioff. Apenas um puxão de orelha nessas últimas semanas: a trama “puxadíssima” do pai que acreditava-se morto, mas que estava vivo, e que quer vender seu sangue para salvar a vida da filha. Uma mácula que destoa de tudo o que a produção foi e representou até então. Se era para preencher tempo, bastava repetir Fagundão lendo algum livro enquanto Grazi fantasiava a situação, um dos recursos que encantou o público da novela. 

Montagem/Record TV/TV Globo
Felipe Cunha e Camila Rodrigues em "Topíssima", Day Mesquita em "Amor Sem Igual e Glória Pires e Antônio Calloni em "Éramos Seis".

 

  1. Éramos Seis

Quem disse que uma boa trama não pode ser recontada várias vezes? A quinta versão para a TV do famoso romance de Maria José Dupré chegou à Globo com a adaptação de Ângela Chaves do texto de Silvio de Abreu e Rubens Ewald Filho já levado ao ar pela TV Tupi (em 1977) e pelo SBT (em 1994). Os destaques dessa versão são a direção (artística de Carlos Araújo), bonita, cuidadosa e criativa, a trilha sonora escolhida a dedo e as interpretações de Glória Pires e Antônio Calloni, como o casal central. Uma novela bonita.

  1. Amor de Mãe 

Estreia de Manuela Dias no horário mais nobre, com direção artística de José Luiz Villamarim. Do pouco que se viu, a novela tem correspondido às expectativas. Com os pés fincados no realismo, a trama privilegia as interpretações dos atores, com grande destaque para Regina Casé, irrepreensível como Lurdes, senhora das melhores falas e cenas - sem desmerecer as atuações, também irrepreensíveis, de Adriana Esteves, Taís Araújo, Jéssica Ellen, Enrique Diaz, Irandhir Santos, Malu Galli, Ísis Valverde, Vera Holtz (em curta participação) e outros. Chama a atenção a direção, tomadas, ambientações, cenários, figurinos, fotografia e a trilha sonora espetacular. Não tivesse estreado no fim do ano, poderia ser considerada a melhor. Porém, em tão pouco tempo já merece o título de uma das melhores da década. Uma pérola que o público da maior audiência da TV brasileira precisa prestigiar. Exagerei? Não.

Feliz 2020!

Nilson Xavier assina esta coluna no HuffPost. Siga nosso colunista no Twitter e acompanhe seus melhores conteúdos no site dele. Também assine nossa newsletter aqui com os melhores conteúdos do HuffPost.