MULHERES
17/03/2019 08:33 -03 | Atualizado 17/03/2019 08:33 -03

Por que a Islândia é o melhor lugar do mundo para ser mulher

Agradeça ao forte movimento feminista e às leis que promovem a igualdade de gênero no trabalho e em casa.

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Em Reykjavik, a capital da Islândia, quase 40% do Parlamento é composto por mulheres.

A Islândia é mencionada frequentemente por suas lagoas geotérmicas, geleiras deslumbrantes e vistas belíssimas da aurora boreal. Mas ela tem outra razão para ser famosa: parece que é o melhor lugar no mundo para quem é mulher.

Essa nação de 350 mil habitantes lidera o relatório anual de disparidade de gênero do Fórum Econômico Mundial há 10 anos. O relatório é um ranking de países que mapeia o avanço rumo à igualdade de gênero em áreas que incluem participação econômica, representação política, educação e saúde. Os EUA foram o 51º colocado na lista no ano passado, ensanduichado entre México e Peru (o Brasil está apenas em 95º).

A Islândia também se sai bem quase sempre no chamado “índice telhado de vidro” do The Economist, que classifica os melhores países para as mulheres que trabalham. A Islândia foi o primeiro colocado no índice em 2016 e o terceiro em 2018 (os EUA ocuparam a 19ª posição, o Brasil nem aparece entre os 29 melhores).

Esse país nórdico pode se gabar de sua atitude progressista em relação às mulheres. A Islândia foi o primeiro país a ter uma presidente mulher democraticamente eleita, Vigdís Finnbogadóttir, que chegou ao poder em 1980.

A primeira-ministra atual, Katrín Jakobsdóttir, foi eleita em 2017 e é a segunda mulher a ocupar esse cargo na história do país. A Islândia aprovou uma série de leis para reduzir a disparidade salarial entre homens e mulheres, garantir uma representação melhor de mulheres nos altos escalões das empresas e assegurar licença-maternidade e paternidade compartilhada e paga.

No entanto, enquanto o país avança à frente do resto do mundo, algumas líderes em seu esforço para garantir direitos iguais para homens e mulheres destacam que a Islândia ainda não é um paraíso para as mulheres e dizem que os elogios todos revelam sobretudo como são baixos os padrões globais de direitos das mulheres.

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A atual primeira-ministra islandesa, Katrín Jakobsdóttir, é a segunda mulher a exercer esse cargo no país.

Boa parte dos avanços no país se devem a seu movimento feminista forte, que impeliu a reivindicação de igualdade de gênero para o mainstream em um país onde as ideias de hegemonia masculina e papéis de gênero rígidos têm raízes profundas. “A militância de base é crucial. Nada aconteceria sem ela”, comentou Brynhildur Heidar-og Ómarsdóttir, diretora gerente da Associação de Direitos das Mulheres Islandesas.

A maior demonstração disso talvez tenha sido dada em 1975, quando mulheres islandesas foram às ruas, indignadas por não serem pagas o suficiente por seu trabalho – dentro e fora do lar – e frustradas com sua pouca representação política.

“Precisávamos fazer alguma coisa grande e ousada, porque a situação era tenebrosa”, contou Ómarsdóttir. Para ela, as mulheres islandesas se inspiraram no movimento feminista internacional, incluindo as mulheres que marcharam pela igualdade em Nova York em 1970.

Nada menos que 90% da população feminina da Islândia saiu às ruas para o protesto de 1975. Em lugar de descrever o ato como uma greve, algo que poderia ter desagradado às mulheres mais conservadoras (“porque fazer greve era uma coisa muito esquerdista”, explicou Ómarsdóttir), o dia de protesto foi batizado de Kvennafrídagurinn, ou “dia de folga das mulheres”, um conceito que todas as mulheres podiam abraçar.

“Essa solidariedade foi absolutamente fundamental para criar uma tradição no país de todas as mulheres se unirem, não importa seu posicionamento político”, disse Ómarsdóttir.

A partir disso a Islândia assistiu a ondas de transformação. Em 1976 foi firmada a Lei de Igualdade de Gênero, e após a eleição de Finnbogadóttir como presidente foi lançada a Aliança de Mulheres com o objetivo de levar mais mulheres a participar da política. A aliança conquistou suas primeiras cadeiras no Parlamento em 1983.

Hoje a Islândia possui uma das maiores representações políticas femininas do mundo. Em seu auge, em 2016, quase 48% dos deputados eleitos do Parlamento islandês eram mulheres. Hoje essa porcentagem caiu para 38%, mas ainda é bem mais alta que em países como Estados Unidos, onde as mulheres compõem apenas 23,7% do Congresso.

Em matéria de igualdade no trabalho, a Islândia não hesitou em formalizar os avanços, convertendo-os em lei – algo que muitos outros países evitam fazer, preferindo abordagens voluntárias à reeducação da disparidade de gênero. Apesar da resistência inicial das empresas, o país implementou cotas de gênero compulsórias nos conselhos de direção de empresas. Pelo menos 40% dos membros dos conselhos precisam obrigatoriamente ser mulheres. E essa lei vem funcionando bem. Hoje as mulheres constituem 43% dos conselhos das maiores empresas de capital aberto do país (a cifra equivalente nos Estados Unidos é 21,7%).

“A última coisa que queríamos era instituir cotas no país”, comentou Bergljót Thrastardóttir, da Diretoria de Igualdade do governo islandês. “Mas não tivemos outra saída, porque estávamos dialogando com as empresas havia muito tempo e nada estava sendo feito.”

Embora as mulheres hoje ocupem lugares à mesa decisória das empresas, ainda há um caminho a percorrer. Thrastardóttir explicou que a esperança de que as cotas levassem mais mulheres a se tornarem CEOs ainda não se realizou.

A Islândia também é o único país do mundo que obriga as empresas a comprovar que não pagam menos às mulheres que aos homens, graças a uma lei referencial de paridade salarial que entrou em vigor em 2018. Pagar valores diferentes a homens e mulheres pelo mesmo trabalho é tecnicamente ilegal em muitos países, mas muitas empresas infringem essas leis sem sofrer consequências. A Islândia ainda tem uma disparidade salarial de gênero de cerca de 16% (contra 20% nos Estados Unidos).

“Uma coisa que sempre foi um problema da legislação sobre pagamento igual é que cabia ao funcionário comprovar que houvera discriminação”, disse Ómarsdóttir. Isso requer juntar os recursos financeiros e psicológicos para propor uma briga na justiça. E, mesmo que a funcionária consiga justiça para ela própria, isso talvez não ajude suas colegas de trabalho.

A legislção islandesa obriga as empresas a provar que não discriminam as mulheres. Qualquer firma que tenha 25 funcionários ou mais enfrentará a cada três anos uma auditoria independente dos salários que paga a seus profissionais. As empresas que não forem aprovadas na auditoria serão multadas e podem ser humilhadas publicamente.

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Mulher trabalha na seção de montagem da Ossur, empresa sediada em Reykjavik que produz próteses e recebeu certificação por pagar salários iguais a seus funcionários.

A Islândia procura instituir a igualdade também na vida doméstica, garantindo creches subsidiadas e incentivando a licença-maternidade e paternidade compartilhada.

Desde 2000, pais e mães têm direito a compartilhar nove meses de licença recebendo 80% de seus salários médios (até um limite determinado). As mães ganham três meses de licença, os pais ganham três, e os três meses restantes podem ser compartilhados entre os dois. Uma lei que está sendo discutida no Parlamento pode estender a licença ainda mais, dando a homens e mulheres cinco meses de licença paga para cada um, além de dois meses para compartilhar.

A medida teve impacto enorme. Hoje 90% dos pais islandeses tiram licença paternidade. “Pesquisas revelam que o vínculo das crianças islandesas com a figura de seu pai é um dos melhores”, disse Thrastardóttir. Enquanto isso, segundo um estudo do impacto da lei, as mulheres têm podido assumir uma carga de trabalho maior e ingressar em empregos mais bem pagos, enfrentando menos discriminação dos empregadores.

“Muitas políticas na Islândia não teriam chegado aonde estamos hoje, não fosse pela creche e a licença-maternidade e paternidade”, escreveu no ano passado a primeira-ministra Jakobsdóttir no site do Fórum Econômico Mundial. “Eu sou um ótimo exemplo disso.”

Os avanços da Islândia em igualdade de gênero mostram o poder do ativismo de base de defender uma representação melhor e o impacto das leis para garantir que compromissos sejam cumpridos. Mas também refletem a cultura política e social muito própria do país. A Islândia faz parte do bloco de países nórdicos, todos os quais são muito engajados com a igualdade de gêneros.

Outra coisa a levar em conta é que a sociedade islandesa é muito pequena. “Basta uma pessoa com uma ótima ideia para transformar nossa sociedade em uma década”, comentou Ómarsdóttir, apontando para o exemplo de uma professora secundária em Reykjavik, a capital, que começou a oferecer estudos de gênero como disciplina optativa.

“Funcionou muito bem”, disse Ómarsdóttir. “Os alunos dela saíram do curso realmente motivados. O curso abriu os olhos deles para a realidade.”

A professora começou a ensinar outros professores em todo o país. Hoje, uma década mais tarde, metade das escolas secundárias do país tem cursos de estudos de gênero, que são obrigatórios em três colégios (isso pode não parecer muito, mas representa quase 10% das escolas secundárias da Islândia).

É claro que a Islândia está longe de ser perfeita. “A ideia de que a Islândia seria o melhor país no mundo revela mais sobre como as coisas estão ruins no resto do mundo que sobre como estão boas aqui”, disse Ómarsdóttir. Thrastardóttir concorda: “Não somos esse paraíso de gênero do qual todo o mundo vem falando”.

A violência e o assédio sexual de mulheres – um fator que não é medido no relatório de disparidade de gênero do Fórum Econômico Mundial – ainda é um problema sério. Um grupo fechado de Facebook intitulado “Beauty Tips” (Dicas de Beleza) foi criado em 2014 e rapidamente virou um fórum em que as participantes podem compartilhar seus relatos de estupro e violência. O grupo tem cerca de 30 mil membros – 20% das mulheres do país.

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As integrantes do grupo de rap Reykjavíkurdætur (Filhas de Reykjavik), composto de 16 mulheres, fazem música sobre a vida na Islândia. Seus temas incluem a desigualdade de gênero, o empoderamento das mulheres e o slut-shaming.

Um escândalo recente destacou quanto ainda falta ser feito para eliminar os estereótipos de gênero da Islândia. No final de novembro um grupo de políticos (incluindo o ex-primeiro-ministro Sigmundur Davíd Gunnlaugsson) foi gravado em um bar dizendo frases misóginas e criticando o movimento Me Too. Gunnlaugsson havia se descrito anteriormente como defensor dos direitos das mulheres. Chegara a ser eleito um dos homens mais feministas do país.

Batizado de Klausturfokk (devido ao Klaustur, o bar onde ocorreu), o incidente revela algo importante sobre a sociedade islandesa, disse a professora de ciência política Janet Johnson, do Brooklyn College.

“À primeira vista, há muita coisa bacana acontecendo no país, há um movimento feminista muito forte, e as feministas islandesas trabalharam muito”, disse Johnson. Mas ela acha que essa imagem é enganosa. Para ela, as conquistas formais das mulheres são solapadas pelas redes políticas informais, ainda dominadas por homens – homens que frequentaram os mesmos colégios e que se encontram em bares e quintais para tomar suas decisões.

Para Thrastardóttir, caberá à geração que está chegando à maioridade agora mudar essa situação. “Houve uma pequena revolução aqui entre os jovens, algo que é muito promissor para o futuro”, ela comentou. “Em matéria de igualdade de gênero, é uma transformação lenta, mas está acontecendo. Nós que trabalhamos nesse setor sempre queremos que as coisas avancem mais rápido e sempre precisamos estar alertas.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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