COMIDA
12/08/2019 02:00 -03

Como a reputação da melancia acabou sendo vinculada ao racismo

Símbolos culturais são mais poderosos do que talvez pareçam.

LIFE
LIFE Capa da revista Life em 1937 traz melancias empilhadas na traseira de uma caminhonete.

Um homem negro calvo, de meia idade, com ombros largos, está sentado na traseira da caminhonete, sem camisa, usando calças velhas com suspensórios.  Seu nome é Roy E. Parrish e ele é de Adel, na Geórgia. Sentado na traseira da caminhonete, ele olha para as os campos plantados que se estendem de cada lado de uma estrada de terra. 

À primeira vista a foto parece uma homenagem ao trabalho árduo de Parrish, mostrando os frutos que ele colheu. Na realidade, porém, ela oculta um estereótipo racista muito mais destrutivo e sombrio que persiste até hoje e que liga os afro-americanos ao hábito muito apreciado de comer melancia no calor do verão.

Mas como tudo isso começou? Como foi que esta fruta suculenta, de interior vermelho e casca listrada de verde e branco, virou um símbolo racista?

As imagens disseminadas na reportagem da Life e outras semelhantes tiveram um papel fundamental, convertendo uma suposição preconceituosa num estereótipo racista duradouro na cabeça dos sulistas brancos – e também dos brancos do norte dos Estados Unidos. 

LIFE
Legenda na reportagem de capa da Life em 1937 diz: “Nada faz um negro sentir tanta água na boca quanto uma melancia suculenta, recém-colhida. Qualquer ‘aia preta’ é capaz de segurar uma fatia enorme em uma mão e sua prole na outra.”

A Dra. Psyche Williams-Forson, professora e diretora de estudos afro-americanos na Universidade de Maryland, estuda o patrulhamento alimentar e o “food shaming”, processo de humilhar as pessoas e levá-las a se envergonharem por suas escolhas alimentares. Ela descobriu que as imagens estereotipadas envolvendo pessoas negras e comida começaram a circular no início da década de 1900.

“Enquanto eu estava pesquisando o frango frito, encontrei o mesmo volume de imagens envolvendo melancias”, ela contou. “De fato, uma das primeiras imagens que tenho é de um afro-americano com uma melancia em cada braço e um frango – ou ‘pullet’, como diziam – no chão. Ele estaria supostamente decidindo se colocava as melancias no chão para pegar o frango. Ou deveria deixar o frango no chão e ficar com as melancias?”

Uma das primeiras imagens desse tipo a ser documentada saiu em 1869 no Illustrated Newspaper, de Frank Leslie. O cartum em preto e branco mostra cinco garotinhos negros sentados e em pé diante de uma porta aberta, devorando melancia. Um dos meninos está tão mergulhado na melancia que a fruta esconde seu rosto. Outro está com a cabeça inclinada, inclinando o que parece ser uma casca de melancia na direção de sua boca para captar o restinho da suculência. 

Library of Congress
A partitura de uma canção de 1881 intitulada "Dat Borrowed Watermelon" (Essa melancia emprestada) retrata o conceito do “negrinho alegre”, “uma pessoa que adora melancia”, segundo a explicação de s Williams-Forson explains it.

Nos anos e décadas seguintes, jornais e revistas perpetuaram essas imagens em ensaios fotográficos, cartuns e anúncios. Elas começaram a aparecer também em objetos de cozinha como saleiros e pimenteiros, panos de prato e até pesos de papel. As imagens eram sempre as mesmas: pessoas negras devorando melancias com cara de desfrute enorme.

“Há esse conceito do ‘negrinho feliz’, uma pessoa que adora melancia e pronto”, disse Williams-Forson said. “A melancia é cultivada no Sul, mas é comida pelas pessoas do Sul e outras regiões também. A diferença ocorre quando negros são retratados de modo pejorativo em situações envolvendo esses alimentos. É uma associação diferente que é formada.”

Debra Freeman, jornalista e editora gerente da Southern Grit Magazine, descobriu alguns desses anúncios e fotos graças à sua mãe e ficou espantada com as imagens e suas implicações mais amplas.

“Minha mãe coleciona memorabília negra. Ela passou uma época super interessada em melancias. Foi chocante olhar os anúncios mostrando criancinhas negras com os beiços exagerados e as melancias. Essas imagens foram usadas em todo lugar. Foi uma decisão calculada para impedir o empoderamento das pessoas negras.” 

Library of Congress
Esta litografia de 1900 é intitulada “Afro-americanos dançando em volta de pilha de melancias”.

Para afro-americanos antes escravizados, a melancia representava essencialmente um caminho para a liberdade econômica. Enquanto eram escravos, eles foram forçados a cultivar melancias. Mas depois de virar cidadãos livres, as melancias lhes ofereciam uma maneira de recuperar a independência e ganhar dinheiro. Eles cultivavam as melancias e as vendiam nas esquinas das cidades.

Durante a época das leis de Jim Crow, essa atividade econômica crescente foi vista como ameaça aos moradores brancos de cidades do Sul dos Estados Unidos. O Instituto Smithsonian observa que “muitos brancos sulinos reagiram a essa autossuficiência de negros convertendo a melancia em um símbolo da pobreza. A melancia acabou simbolizando o banquete de pessoas ‘sujas, preguiçosas e infantilizadas’. Para humilhar os vendedores de melancias, anúncios populares e imagens diversas, incluindo cartões postais, mostravam afro-americanos roubando melancias, brigando por melancias ou sentados na rua comendo melancias.”

Freeman destaca que essas imagens lhe parecem totalmente ilógicas e sem sentido. Muitas delas, por exemplo, mostram melancias enormes cortadas de comprido, como que para exagerar os traços dos afro-americanos, desenhados no estilo da caricatura lamentavelmente familiar de “Black Sambo”. Mas as pessoas que gostam de melancia geralmente sabem que o mais comum é cortar a melancia em pequenos triângulos. Comer a fruta do modo como é mostrado nessas imagens seria um desperdício e faria uma sujeira enorme.

Símbolos culturais são mais poderosos do que talvez pareçam. Foi por essa razão que essas imagens depreciativas de negros permaneceram, mesmo décadas depois de a era de Jim Crow ter chegado ao fim. Em vez de terminar, o racismo se reconstruiu em algo que não era novo, mas diferente.

É por isso que quando refeitórios de faculdades servem frango frito e melancia e uma pessoa tão famosa quando Madonna posta uma foto de suas filhas adotivas africanas comendo melancia, isso pode ser prejudicial.

A capa da revista Life constitui um exemplo rematado de como alguma coisa pode aparentar ser afirmativa, positiva e elogiosa, mas em vez disso contribuir para desumanizar todo um segmento da população. Apenas quando investigamos a história, aprendemos sobre esses símbolos e os desconstruímos, é que eles podem começar a perder seu poder.  

National Museum of African American History and Culture
Imagem de 1895 mostra duas crianças negras comendo melancia.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.