COMPORTAMENTO
20/09/2019 19:37 -03

Greve Global pelo Clima: Como lidar com a eco-ansiedade

Psicólogos explicam por que houve um aumento no número de pessoas trazendo preocupações sobre as mudanças climáticas e o meio ambiente para a terapia.

‘Eco-ansiedade’ não é um diagnóstico clínico. Nem é um transtorno mental. Mas é uma preocupação muito real que está afetando a vida das pessoas.

Com a Floresta Amazônica queimando, espécies de animais desaparecendo, recifes de corais morrendo, eventos climáticos extremados e geleiras derretendo rapidamente, é compreensível que as pessoas estejam preocupadas. Nas palavras da ativista de mudança climática de 16 anos, Greta Thunberg: “nossa casa está pegando fogo”.

A ansiedade em relação às mudanças climáticas podem causar noites sem dormir, intensas crises de preocupação e, em casos graves, também podem levar a mudanças drásticas no comportamento das pessoas.

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A ansiedade em relação as mudanças ecológicas está aumentando, principalmente entre os jovens.

Especialistas disseram ao HuffPost UK que houve um aumento no número de pessoas preocupadas com o meio ambiente nos últimos dois anos (uma tendência que só parece piorar à medida que as manchetes sobre as mudanças climáticas se tornam mais chocantes) - e com a ONU avisando que temos 11 anos para mudarmos radicalmente os nossos hábitos, antes que seja tarde demais.

No início desta semana, um grupo de psicólogos da Climate Psychology Alliance (CPA) disse ao The Telegraph que a eco-ansiedade entre as crianças cresceu. A organização agora está em campanha para que seja reconhecido como um fenômeno psicológico, no entanto, ressalva-se que não deve ser classificada como uma doença mental.

Com a chegada da Greve Global pelo Clima, marcada para esta sexta-feira (20), veja o que pode ajudá-lo a lidar com a ansiedade em relação às questões ambientais.

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Greta Thunberg.

O que é a eco-ansiedade?

Em termos muito simples, a eco-ansiedade é causada pela preocupação com desastres ecológicos e o risco anunciado ao meio ambiente, diz Yvette Addo, psicóloga. Pessoas com eco-ansiedade podem ter preocupações com sua própria morte, a morte de seus entes queridos e como a sobrevivência do ambiente afetará seu futuro.

Quem são os maiores impactados?

Não há estatísticas oficiais sobre quantas pessoas estão lutando com a eco-ansiedade, pois é um termo relativamente novo, no entanto, os especialistas disseram ao HuffPost UK que é algo que eles têm visto impactando cada vez mais a vida dos seus pacientes nos últimos dois anos.

Um quarto dos clientes de Hilda Burke expressou preocupação com o meio ambiente este ano. A psicoterapeuta diz que os medos são uma resposta totalmente natural ao que está acontecendo no planeta.

“Diferente de outras ansiedades que os pacientes trazem - como ‘eu tenho medo de perder meu emprego’ ou ‘meu parceiro pode me deixar’ - as mudanças climáticas e a eco-ansiedade são baseadas em muitos dados”, diz ela. “É um problema real. Não é uma ansiedade nascida de um sentimento de insegurança ou da síndrome do impostor. Está realmente acontecendo. Os pacientes que têm essas preocupações estão tendo uma resposta natural a coisas muito sérias que estão acontecendo em nosso planeta.”

As mulheres em particular são mais afetadas. Addo, que trabalha com pessoas de 13 a 36 anos, diz que o problema é “muito comum” e estima que 70% das mulheres que ela atende estão particularmente preocupadas com o impacto dos fatores ambientais atuais em sua fertilidade.

Enquanto isso, ela sugere que 60% dos jovens com quem trabalha - neste caso, com 21 anos ou menos - “têm um senso de responsabilidade sobrecarregado pelo o que acontecerá em nosso futuro”. 

“Eles se sentem impotentes e com muito medo”, diz Addo.

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Quais são os sintomas?

A eco-ansiedade pode levar as pessoas a pensar demais sobre o futuro como uma grande catástrofe. Isso pode ser desencadeado por quase tudo, desde ver algo nas notícias até se envolver em um debate com um amigo sobre comer carne.

Uma das pacientes de Burke teve como gatilho ver colegas de trabalho usando com sacos plásticos cheios de comida e não os reciclando. Ela calculou que aquilo que ocorria em seu pequeno escritório era provavelmente o que acontecia em outros milhões de escritórios e começou a pensar na catástrofe sobre a enorme quantidade de lixo e plástico gerado em nosso planeta. Na sala de terapia, ela ficou aos prantos. 

Esse tipo de ansiedade também pode fazer as pessoas se tornarem compulsivas em comportamentos que adotam para tentar fazer a sua parte pelo planeta. Natasha Crowe viu isso na prática.

As mães mais jovens, em particular, podem se tornar compulsivas sobre seus comportamentos diários, explica ela, “reciclando tudo o que veem pela frente e certificando-se de que estão usando lenços ecológicos e fraldas ecológicas, e realmente tentando detalhar o impacto diário que estão causando”.

É tudo bem você mudar a sua rotina para ter um maior controle sobre os seus impactos no mundo, mas quando essas mudanças afetam o seu bem-estar ou têm um impacto negativo na vida de alguém, é hora de refletir.

Pensamentos super catastróficos podem ser perigosos, pois podem levar a “uma sensação de desamparo” e podem ser “imobilizantes”, diz Burke. 

Você acaba pensando: qual é o objetivo disso tudo? Existem soluções?

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O que podemos fazer?

Em última análise, o ônus recai sobre os líderes políticos e as empresas para fazer os tipos de mudanças que podem ter repercussões extremamente positivas para o planeta - por exemplo, reduzindo as emissões de carbono e concentrando-se em energia sustentável.

No entanto, eles geralmente precisam de um empurrão. Se você tiver preocupações ambientais, escreva para o seu parlamentar local, que pode pressionar aqueles que estão no poder para fazer essas mudanças ou escreva uma nota para as empresas que você acha que não estão exercendo seu papel no que diz respeito às responsabilidades ecológicas.

Em um nível mais pessoal, enquanto as técnicas de terapia cognitivo-comportamental (TCC) podem ajudar algumas pessoas a lidar com a ansiedade que estão sentindo, no final das contas pode valer a pena se inspirar em Greta  Thunberg.

Tanto Burke quanto Crowe acreditam que agir e fazer mudanças diárias (não importa quão pequenas elas pareçam) pode ajudar a superar esses sentimentos de impotência.

“Volte ao básico”, diz Crowe. Talvez você não consiga controlar diretamente o que está acontecendo na Amazônia, mas pode usar menos plástico. “Veja o que você está fazendo, e não o que não está fazendo”, ela recomenda.

O conselho dela é “reformular o seu impacto diário”. Isso pode significar desenvolver novos hábitos nos quais você sente que está fazendo a diferença.

Podem ser mudanças muito pequenas, como não usar lenços umedecidos ou mudar para uma escova de dentes de bambu, estar atento às embalagens nos supermercados, andar de bicicleta para o trabalho ou ser um pouco mais rigoroso com a sua reciclagem em casa.

“Se você sente que pode controlar suas próprias ações, superará muitos desses sentimentos grandes [de ansiedade]”, acrescenta ela.

É importante não deixar que isso se torne um exercício compulsivo que, no entanto, começa a ter um efeito adverso na sua vida e na sua saúde mental. Equilíbrio é tudo. “Trata-se de modelar o comportamento e ver o que é realista”, continua ela.

Pode ser útil anotar o que você deseja alterar ao longo de um período de tempo e não se esqueça de definir as etapas possíveis para fazer essas alterações. “Não tente fazer tudo de uma vez”, ela aconselha.

E se você sentir que está muito catastrófico ou deprimido, ou se os hábitos que você desenvolveu estão afetando seu bem-estar, não tenha medo de entrar em contato com um terapeuta para obter ajuda.

Burke compara os sentimentos de impotência que cercam as mudanças climáticas aos que cercam o Brexit. “Como em qualquer tipo de problema ou desafio que uma pessoa se sente impotente, em terapia eu trabalhava para provocar isso e ver o que você pode realmente fazer”, diz ela.

Seja na mudança de comportamento, no envolvimento com uma organização ou no voluntariado. “Essa pessoa se sentirá melhor se puder canalizar essa ansiedade de uma maneira prática”, conclui ela.

Então, a eco-ansiedade é ruim?

“Acho positivo que as pessoas estejam falando sobre isso, porque não é um medo infundado, está acontecendo”, diz ela.

“Essa questão precisa ser discutida: Ok, esse problema existe, mas o que vamos fazer sobre isso?”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost UK e traduzido do inglês.