COMPORTAMENTO
30/08/2019 03:00 -03

É difícil não se sentir ansioso quando nenhum lugar parece seguro

Após os massacres a tiros em locais públicos e escolas, terapeutas compartilham recomendações para a superação de traumas.

Enquanto as tragédias de massacres de atiradores, questões ambientais e violências de todos os tipos dominam o noticiário, é compreensível que você sinta um sentimento crescente de desconforto e mal-estar.

Algumas dos principais gatilhos para a ansiedade são justamente questões como o racismo, a insegurança, o terrorismo e modo como nossa sociedade encara as doenças mentais.

Mas há também um componente muito subjetivo que acompanha qualquer pessoa que já viveu um evento traumático.

[Sempre que estou em um espaço público, penso no que aconteceria se começasse um massacre a tiros. É uma ansiedade constante, de baixo nível mas que me acompanha em todo lugar. Não sei se sou apenas eu que sinto isso. Acho que não.]

Uma reportagem recente do BuzzFeed, nos Estdos Unidos, descreveu “um novo tipo de ansiedade e medo” de nossa era – a sensação de que onde quer que você vá, pode estar se colocando em situação de perigo, vulnerável a um ataque em massa.

Trata-se de uma reação natural a acontecimentos traumáticos amplamente veiculados.

“Um princípio fundamental da psicologia humana é nossa necessidade de sentir que nosso mundo é relativamente controlável e previsível”, disse ao HuffPost US o Dr. Victor Schwartz, diretor médico da Jed Foundation, organização de saúde mental com sede em Nova York.

“Procuramos padrões em nossa vivência que nos ajudem a organizar as coisas na nossa cabeça para que possamos nos orientar na vida do dia a dia”, ele explicou.

“A expectativa que temos é que as pessoas e o ambiente que nos cerca se comportem mais ou menos da maneira prevista. As pessoas conduzem seus carros na rua do jeito que prevemos, os dias e meses se sucedem segundo padrões previsíveis que nos permitem saber que roupas usar em diferentes épocas do ano.”

A expectativa que temos é que as pessoas e o ambiente que nos cerca se comportem mais ou menos da maneira prevista.Dr. Victor Schwartz, diretor médico da Jed Foundation.

Quando fatos como massacres a tiros perturbam nosso senso de ordem e daquilo que é controlável, isso coloca de ponta-cabeça a ideia de que o mundo é um lugar seguro, onde as pessoas se comportam do modo que prevemos. E isso pode gerar ansiedade profunda.

“Um dos motivos por que qualificamos esses acontecimentos de ‘terrorismo’ é que seus perpetradores querem nos meter medo”, disse Schwartz. “São tragédias terríveis, mas a intenção é também que esses atos nos assustem, levando-nos a não mais confiar uns nos outros. Logo, não surpreende que as pessoas tenham medo de que fatos como esses se repitam. Além disso, nosso senso de como as coisas devem funcionar e nossa visão do mundo como um lugar seguro e que nos dá apoio, tudo isso também é perturbado.”

O que você pode fazer quando sente que não há segurança em nenhum lugar? Schwartz e outros especialistas em saúde mental conversaram com o HuffPost US sobre as melhores maneiras de superar esse tipo de ansiedade.   

Primeiro, converse sobre isso

Quando você está ansioso, talvez sinta vontade de se isolar. Mas entrar em contato com outras pessoas pode lhe ajudar muito.

“Converse sobre o que aconteceu com pessoas que possam lhe dar apoio e ajudá-lo a processar o que houve. Deve ser alguém que vai lhe ouvir, como um amigo, um parente ou até seu terapeuta”, aconselhou Christen Sistrunk, terapeuta profissional no Texas, especializado em tratar transtornos de ansiedade.

“Não use a tecnologia para falar com outras pessoas. Fale com elas cara a cara”, ele recomendou.

A professora de psiquiatria Michelle Riba, diretora adjunta do Centro de Depressão da Universidade do Michigan, destacou que comunidades como grupos religiosos ou escolares muitas vezes se unem depois de acontecimentos traumáticos para juntos enviar condolências ou votos de melhoras a vítimas, para orar e até para debater questões relacionadas, como supremacia branca ou doença mental. Participar ativamente das comunidades que fazem parte de sua vida é outra maneira muito boa de lidar com sentimentos negativos.

“São problemas complicados”, explicou Riba, ex-presidente da Associação Americana de Psiquiatria. “Pode ser útil conversar sobre eles com um grupo de pessoas, para juntos tentar divisar um caminho a seguir.”

Depois, tire uma folga dos jornais e das notícias

Pode ser muito benéfico se afastar por algumas horas das atualizações constantes e do fluxo de informações na TV e nas redes sociais. O fato de precisar de uma folga não quer dizer que você seja uma pessoa péssima, quer dizer apenas que você é humano.

“Quando ocorrem tragédias, geralmente só ouvimos falar disso nos noticiários e nas redes sociais”, comentou Sistrunk. “Ficamos literalmente acabados por lembrar constantemente de tudo isso. A tragédia que ocorreu e os sentimentos de ansiedade e medo dominam nossa consciência.”

Embora seja sensato se manter a par das notícias, assistir a versões e reportagens repetidas não ajuda – apenas alimenta nossa sensação de tristeza e medo.Dr. Victor Schwartz

Para Schwartz, é importante reconhecer que embora esses acontecimentos sejam tragédias horrorosas – e que sentir medo, raiva e tristeza é muito normal ―, as chances de você pessoalmente ser vítima de um massacre são pequenas.

“O sofrimento psicológico decorre do reconhecimento da tragédia, mas também da amplitude do que ocorreu. Quando muitas pessoas são mortas ou feridas ao mesmo tempo, isso foge completamente da ordem típica das coisas”, ele comentou.

Schwartz comparou esse medo ao medo que muitas pessoas sentem de viajar de avião, apesar de os aviões serem muito seguros e de viagens de avião serem menos perigosas que as de carro. Mas os desastres aéreos ganham destaque noticioso muito maior que os acidentes de carro, por isso quando lemos sobre esses acontecimentos, que são raros, é difícil de colocá-los em perspectiva.

“Com isso em mente, embora seja sensato se manter a par das notícias, assistir a versões e reportagens repetidas não ajuda – apenas alimenta nossa sensação de tristeza e medo”, ele disse. “Portanto, limitar sua exposição às notícias pode ser benéfico. Isso se aplica também às imagens visuais dos acontecimentos e dos locais onde ocorreram.”

Saia de casa e faça coisas que te façam bem

Se atividades corriqueiras como ir ao supermercado ou ao cinema lhe deixam ansioso, pode ser tentador evitar fazer essas coisas. Mas isso na realidade é pior ainda.

“É melhor sair e fazer coisas, e não evitar pessoas, lugares ou situações”, recomendou Sistrunk. Para ele, a melhor maneira de se cuidar é continuar a viver sua vida e a fazer as coisas que te deixam feliz.

“Uma maneira de conservar um senso de ordem pessoal e fortalecer nosso senso de controle é manter nossas rotinas pessoais. Trabalhar, alimentar-se saudavelmente, dormir e praticar exercício físico, tudo isso ajudará você a se sentir bem”, disse Schwartz.

Mario Tama via Getty Images
22 pessoas morreram e 26 ficaram feridas em tiroteio em massa no Shopping Center em El Paso, no Texas, nos Estados Unidos.

Preste atenção aos seus pensamentos

É bom lembrar que seus sentimentos são válidos, mas não deixe suas emoções controlarem sua vida de maneira pouco sadia.

“Recomendo a todos que se ajudem, fazendo respiração profunda e tornando-se observadores de seus próprios pensamentos”, disse Nicole Bentley, terapeuta e coordenadora da Cityscape Counseling, em Chicago. “Quando tomamos nota de nossos padrões de pensamento, isso nos dá a liberdade de reagir aos nossos pensamentos de uma maneira mais benéfica. Se não há indícios de perigo real, mas você está tenso e com medo, pode optar por voltar sua atenção para alguma coisa no momento presente.”

Ela recomendou a prática do mindfullness, prestando atenção ao momento presente sem fazer julgamentos e praticando exercícios respiratórios, como expirar em mais tempo do que cada inspiração.

Se você estiver começando a entrar em pânico, experimente alguns exercícios que vão ajudá-lo a “pôr os pés no chão”. Faça um balanço mental do que há à sua volta. Por exemplo, observe a cor do chão ou note a roupa que você está usando. Faça isso até sentir que sua atenção voltou para o momento presente.

Envolva-se, participe

Depois de um acontecimento traumático como um massacre, é natural que você se sinta impotente, e isso pode lhe deixar com medo de aventurar-se em espaços públicos. Mas existem maneiras de superar esse sentimento de que as coisas estão fora de seu controle. 

“Se você puder fazer algo de concreto para tentar resolver problemas ligados à tragédia, isso pode ajudar a dissipar seu sentimento de impotência”, disse Schwartz. “Participe de uma organização ou atividade, faça trabalho voluntário, doe tempo e dinheiro para organizações que trabalham com questões sociais ou políticas ligadas ao que aconteceu.”

Ele destacou: “Foi tranquilizador ver o grande número de cidadãos de El Paso que fizeram fila para doar sangue após o massacre na cidade. Não apenas foi uma atitude de responsabilidade cívica, como provavelmente, para as pessoas que doaram sangue, isso as ajudou a se sentirem mais no controle, a sentir que podiam ‘fazer alguma coisa’. Ajudar aos outros e não ficar impotentes também nos ajuda.”

Anote detalhes do ambiente que você frequenta

Outra maneira de recuperar um senso de controle é tomar nota das coisas que o cercam quando você vai para um espaço público.

“Quando vamos para lugares com grande concentração de pessoas, é bom procurar onde estão as saídas”, disse Riba. “Quando você viaja de avião, você é informado sobre o que fazer em caso de emergência. É útil pensar nisso também em outros lugares. As pessoas podem ficar tranquilizadas se repassarem diferentes cenários pela cabeça e pensarem de antemão ’o que eu faria se acontecesse tal coisa? Para quem eu telefonaria?”

Procure ajuda

Segundo Schwartz, “é natural sentir tristeza, raiva e aflição generalizada após tragédias como essas. Mas se esses sentimentos não diminuírem com o passar do tempo, ou se piorarem e estiverem atrapalhando sua capacidade de concentração, de dormir, trabalhar ou relacionar-se com outras pessoas, é possível que você esteja sofrendo uma dificuldade mais séria, como estresse pós-traumático”.

Se você estiver passando por qualquer dessas dificuldades, é importante procurar assistência profissional.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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