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06/04/2020 07:00 -03

Classe médica critica Bolsonaro por postura sobre coronavírus, mas antipetismo persiste

HuffPost conversou com médicos e entidades representativas da categoria, que criticam tom do presidente, mas continuam resistindo ao PT.

Andressa Anholete via Getty Images
Presidente está na mira dos médicos por postura na crise do coronavírus.

Se o segundo turno daquele 28 de outubro de 2018 entre Fernando Haddad (PT) e Jair Bolsonaro (sem partido, ex-PSL) tivesse ocorrido neste domingo, dia 5 de março de 2020, o médico Leonardo Vaz, 25 anos, teria votado novamente no atual presidente da República. 

As recentes e repetidas afirmações do mandatário sobre a crise do coronavírus, no sentido contrário à ciência, mãe da medicina, têm indignado o residente em oftalmologia no Hospital Universitário de Brasília. Não são, contudo, suficientes para romper a imagem deixada pelos anos que o PT governou o País, aliadas às denúncias de corrupção envolvendo o partido, a prisão de seu maior líder, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e a significativa derrocada do governo da ex-presidente Dilma Rousseff. Marcou. 

“O PT é inadmissível. Deu errado várias vezes e o povo demorou a se tocar. Não faria feliz [votar em Bolsonaro], já que teria péssimas opções [de um hipotético voto]”, opinou Leonardo Vaz na última sexta-feira (3), em conversa com o HuffPost.

Arquivo pessoal
O médico Leonardo Vaz, 25 anos, votaria em Bolsonaro se o pleito fosse contra o PT, mas é crítico ao discurso atual do presidente sobre coronavírus.

De forma geral, Vaz vê uma gestão que “está funcionando”: “A equipe que o presidente montou tem feito o governo dar mais ou menos certo, na minha opinião. Não é o que ele e os filhos fazem ou deixam de fazer que vale”.

Seu único grande incômodo é a forma como o mandatário está conduzindo a maior crise enfrentada nestes 15 meses de gestão: a pandemia do coronavírus. “Chamar de gripezinha? Tem muita gente que vai morrer. Esse tom do discurso nunca me desceu, nunca me agradou”, desabafou. 

“O sustento das famílias deve ser preservado. Devemos, sim, voltar à normalidade. Algumas poucas autoridades estaduais e municipais devem abandonar o conceito de terra arrasada, como proibição de transporte, fechamento de comércio e confinamento em massa. O que se passa no mundo tem mostrado que o grupo de risco é o das pessoas acima dos 60 anos. Então, por que fechar escolas?”, disse Bolsonaro no pronunciamento do último dia 24 de março, o seu terceiro em rede nacional de rádio e televisão para falar de coronavírus.  

Falou ainda na ocasião: “No meu caso particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria, quando muito, acometido de uma gripezinha ou resfriadinho, como bem disse aquele conhecido médico daquela conhecida televisão”.

Apesar de moderar o tom no quarto pronunciamento na TV, na semana passada, Bolsonaro continua questionando o isolamento social como forma de conter o avanço da covid-19 no Brasil.   

A classe médica e Bolsonaro na crise do coronavírus

Leonardo foi o único médico que aceitou se identificar ao HuffPost. Ao longo da semana passada, conversamos com quase 20 médicos, além de representantes das associações representativas da classe (em âmbito geral e diversas especialidades) para questionar sobre a percepção da categoria em torno da atuação do presidente contra a pandemias. 

O sentimento antipetista que levou Bolsonaro ao poder ainda é muito presente entre a categoria. Ainda em 2014, médicos, grandes formadores de opinião, uniram-se de forma bastante contundente contra a reeleição da ex-presidente Dilma Rousseff e, em sua maioria, fecharam a favor da eleição de Jair Bolsonaro.

Um cardiologista, um oncologista e um infectologista de Brasília resumiram: a maioria dos médicos atualmente não apoia o posicionamento do presidente sobre a questão do confinamento, suas falas em dissonância do próprio ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, em um momento de crise de saúde pública. Contudo, todos concordam que, se o PT entrar na discussão, é fácil prever um amplo apoio da classe ao presidente.  

“O médico tem hoje um sentimento de vergonha, porque mexeu com os brios dele, do saber racional, que é a abordagem de uma coisa. Um sentimento de remorso, de culpa. Alguns pedem desculpa. Mas tem os recalcitrantes do PT”, afirmou o infectologista com quem o HuffPost conversou na sexta, que preferiu não se identificar. 

Especialista em infectologia há 30 anos, dizendo-se enfurecido com o presidente por incentivar as pessoas a irem às ruas neste momento, o médico explica: “[Se] Aumentar a circulação viral, vai se salvar somente o indivíduo com maior capacidade biológica de responder. Imagina 120 milhões de pessoas, que é mais ou menos a força de trabalho hoje, na rua”. 

O pronunciamento de Jair Bolsonaro em rede nacional no dia 24 de março foi um marco. A partir dali, entidades que até então procuraram não se posicionar de maneira direta viram a necessidade de marcar alguma posição. Havia chegado um limite. 

A Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) assina uma nota com outras 25 entidades da sociedade civil intitulada “Bolsonaro, inimigo da saúde do povo” em que chamam a fala do mandatário de “discurso de morte”, “incoerente e criminosa”. “Seu pronunciamento perverso pode resultar em mais sofrimento e mortes na já tão sofrida população brasileira, particularmente entre os segmentos vulnerabilizados em nosso País”, destaca a nota. 

A Abrasco e demais entidades afirmam que, ao negar as evidências científicas e incitar as pessoas a romperem as barreiras sanitárias, “Bolsonaro comete o crime de infração de medida sanitária preventiva, a ser enquadrado no Art. 268 do Código Penal Brasileiro”. 

Entidades tentam manter neutralidade política após campanha contra Dilma  

Demais entidades médicas, porém, preferiram evitar uma menção direta ao presidente, tratando de forma mais abstrata o discurso do mandatário à nação naquele dia 24 e a permanência de sua postura contra o confinamento de maioria dos brasileiros.

A Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib), por exemplo, disse em nota ter assistido “com bastante preocupação ao pronunciamento”. É inquestionável que se fazem necessárias medidas para evitar o colapso total da economia e essas medidas precisam ocorrer de forma responsável”.

Defendendo a manutenção do isolamento social no momento, a Amib afirmou que, no momento correto, apoiará junto com outras sociedades científicas as medidas do governo. “Mas não é possível abandonar os mais vulneráveis e permitir que nossos profissionais de saúde conduzam sozinhos o colapso do sistema de saúde, pagando com suas próprias vidas”, alertou.

Foram neste mesmo sentido os posicionamentos da Sociedade Brasileira de Infectologia, que elogiou o trabalho de Mandetta, e da Sociedade Brasileira de Imunologia

O que mais chama a atenção é a nota da AMB (Associação Médica Brasileira), em conjunto com o CFM (Conselho Federal de Medicina), posteriormente subscrita por outras 50 entidades. Em nenhum momento, houve menção qualquer ao pronunciamento de Bolsonaro, apenas elogios a Mandetta e sua condução “precisa e responsável” da crise do coronavírus:  

“Os transparentes relatos com atualizações constantes sobre a pandemia da COVID-19 nos ajudam a entender o cenário atual, as perspectivas de soluções, e estimula nossa participação colaborativa. O respeito com o qual o Ministério vem tratando os médicos e demais profissionais de saúde, bem como o empenho para resolver questões relevantes à classe, como a disponibilização de EPIs, aumento de respiradores, leitos de UTI, estratégias e logística para o enfrentamento desta pandemia encoraja ainda mais a categoria para avançar na linha de frente e cumprir seu papel, resguardando a segurança de todos e a assistência à população. A incansável luta contra outra praga desta crise, as fake news, também tem sido louvável.”

Nos bastidores, afirma-se que há uma tentativa de evitar o confronto político, embora a nota tenha sido um recado ao presidente.  

Stringer . / Reuters
AMB classificou facada em Bolsonaro como atentado "à democracia".

A AMB e o CFM atuaram de forma contundente contra a reeleição da ex-presidente Dilma Rousseff em 2014. Tornaram-se críticos contumazes da petista desde 2013, quando da instituição do programa Mais Médicos, que trouxe ao País médicos cubanos sem a necessidade de validação dos diplomas. Essa prática atingiu em cheio a categoria, de forma geral, que tornou-se grande rival do PT, já abatido pelas sucessivas denúncias de que se via alvo. 

Em 6 de setembro de 2018, no dia que Bolsonaro, então candidato à Presidência, foi atingido por uma facada, a AMB divulgou uma nota na qual afirmava que o ataque a ele atingia “a democracia” e já propunha soluções para o caso: ”Provavelmente as investigações chegarão à conclusão de que o ataque foi premeditado, dado o local onde a facada foi dada. Quem fez sabia o que estava fazendo e queria que o golpe fosse fatal”.

Dias após a eleição de Bolsonaro, a AMB divulgou uma “carta aberta” parabenizando-o pela vitória que “mostrou o anseio da nação por uma mudança que honre nosso País, por democracia, por transparência e por alternância no poder”.

Entre outras coisas, o texto destacou a obrigatoriedade do Revalida, uma das promessas de campanha do presidente e ponto crítica da relação entre médicos brasileiros e a ex-presidente Dilma. Essa demanda veio expressa na carta da AMB pela eleição de Bolsonaro: “Por estarem na linha de frente da saúde, os médicos têm sido escolhidos como bode expiatório do sistema, como se fossem os culpados por todas as mazelas da saúde pública. Há uma grande esperança de que este quadro mude e que o médico brasileiro volte a ser valorizado e respeitado. O loteamento político e as preferências ideológicas não podem mais influenciar a condução do Ministério da Saúde e das agências reguladoras”.

O desmantelamento do Mais Médicos teve início em meados de 2019, dificultando a permanência dos cubanos que atuavam no programa no Brasil. Agora, com a crise do coronavírus, interlocutores do Ministério da Saúde afirmaram sob condição de anonimato que Mandetta, chefe da pasta, se ressente da decisão, uma vez que há falta de mão de obra em vários postos, em especial no interior, comunidades isoladas e periferias.