POLÍTICA
20/05/2019 00:27 -03 | Atualizado 20/05/2019 09:01 -03

Bolsonaro segue caminho do caos e dá vazão a retórica antidemocrática, diz líder do MBL

Para Renan Santos, "quem busca o conflito não está interessado no andamento das reformas": “A gente avisa e nos chamam de comunistas”.

ASSOCIATED PRESS

Durante o fim de semana, a hashtag #MBLtraidoresdaPatria, levantada por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (PSL), esteve entre os assuntos mais comentados no Twitter. Bolsonaristas se indignaram com recentes declarações de representantes do Movimento Brasil Livre e pela sua decisão de não apoiar as manifestações em apoio ao presidente marcadas para o próximo domingo (26).

Para Renan Santos, um dos líderes do MBL, a resposta do movimento, que foi um dos responsáveis por mobilizar multidões na época do impeachment de Dilma Rousseff (PT), não poderia ser outra, já que Bolsonaro está seguindo a retórica do caos.

“Bolsonaro adotou um discurso que está dando vazão para uma retórica antidemocrática, de gente antirrepublicana, retórica populista. (…) Ou ele permanece no caminho do caos ou começa a ser um presidente interessado em bater as metas dele. Temos um problema de crise fiscal”, disse Santos, em entrevista ao HuffPost Brasil.

A voz de Santos engrossa o coro dos que acreditam que o presidente precisa mudar o caminho, como a deputada estadual Janaína Paschoal (PSL-SP), uma das autoras do pedido de impeachment de Dilma. No domingo (19), ela foi alvo de ataques nas redes ao se posicionar contra as manifestações pró-Bolsonaro, também promovidas pela hashtag #OPovoVaiInvadirOCongresso.

“Quem o está colocando em risco é ele [Bolsonaro], os filhos dele e alguns assessores que o cercam. Acordem! Dia 26, se as ruas estiverem vazias, Bolsonaro perceberá que terá que parar de fazer drama para TRABALHAR!”, escreveu a deputada. 

A gente quer passar as reformas, quer manter um clima político e econômico minimamente estável. O Brasil não aguenta mais, já tem 10 anos de crise econômica. Eles estão acirrando o discurso.Renan Santos, líder do MBL

As manifestações de 15 de maio contra cortes na Educação - que surpreenderam pela participação popular significativa -, as pautas econômicas paradas, o acirramento do conflito entre o Parlamento e o governo Bolsonaro acenderam um sinal de alerta no MBL.

O grupo apoiou a eleição de Bolsonaro com enaltecimento da bandeira econômica e aposta alta no ministro da Economia, Paulo Guedes — estrela do congresso do movimento no ano passado. Mas os primeiros meses do governo mostraram que o presidente rema para outro caminho.

“A gente quer passar as reformas, quer manter um clima político e econômico minimamente estável. O Brasil não aguenta mais, já tem 10 anos de crise econômica. Eles estão acirrando o discurso. Se eles ouvissem a gente seria muito melhor”, diz.

NELSON ALMEIDA via Getty Images
No último dia 15, mais de 100 cidades brasileiras registraram atos em defesa de recursos para a educação. 

Santos diz que o MBL tentou avisar diversas vezes. Mas para ele, o presidente ouve muito seus filhos e o guru do bolsonarismo Olavo de Carvalho.

“Esses caras estão buscando o conflito. Quem busca o conflito e o caos não está interessado no andamento das reformas, por exemplo. Tem que escolher um caminho. Não dá para escolher o caminho da guerra, é cansativo. Quando você avisa que é um caminho errado, pouco institucional, eles ficam bravos, chamam você de comunista.”

A sugestão do grupo é que o presidente comece a fazer política, por meios virtuosos. Santos enfatiza que a missão do presidente é essa, “não é negar a política e seguir essa retórica de caos”. 

 

Manifestação favorável a Bolsonaro divide direita

O movimento pró-Bolsonaro do próximo domingo surgiu em resposta às manifestações pela educação que ocuparam as ruas de mais de 100 cidades brasileiras. Os manifestantes negam a política e criticam instituições como Câmara, Senado e Supremo Tribunal Federal.

No entanto, a pauta difusa já foi criticada pelo movimento Vem pra Rua, que teve seu nome inserido em material de divulgação do protesto - o grupo não está apoiando a manifestação, que pede também o “impeachment” dos ministros do STF Gilmar Mendes e Dias Toffoli, e defende a “invasão” do Congresso. 

Na avaliação do MBL, que também não apoia o movimento do próximo domingo, os protestos que pregaram confronto de instituições não terminaram bem. “A gente não quer participar”, diz Santos.

Ele considera a aposta arriscada. “Será que ele [Bolsonaro] precisa fazer uma aposta tão arriscada? Tanto indo bem quanto mal, a manifestação não será boa para ele. Precisava disso?”