LGBT
04/08/2019 00:00 -03

'Já está em nossos planos', diz Mauro Sousa sobre personagem LGBT na Turma da Mônica

Em entrevista ao HuffPost Brasil, filho de Mauricio de Sousa fala sobre homossexualidade e diz estudar quadrinho que priorize diversidade.

Reprodução/Instagram
Com 32 anos, Mauro é o 9º de 10 filhos do quadrinista Mauricio de Sousa.

Até maio de 2019, Mauro Sousa, 32, estava longe de ser um dos filhos mais famosos de Mauricio de Sousa. Mas no dia 12 daquele mês, um post do quadrinista mais famoso do Brasil no Instagram jogou luz sobre Mauro, que é homossexual e casado há 12 anos com Rafael Piccin, seu marido.

“Foi super natural. Meu pai adora tirar fotos de tudo. Ele vive tirando foto da família. Estávamos ali tomando café e ele quis tirar uma foto daquele momento”, conta Mauro, que é Diretor de Espetáculos, Parques e Eventos da Mauricio de Sousa Produções (MSP), em entrevista ao HuffPost Brasil.

Segundo Mauro, a repercussão do post foi “muito mais positiva que negativa” e iniciou uma inquietação que, de certa forma, já estava nos planos de Mauro: criar um personagem que aborde questões LGBT nos quadrinhos da Turma da Mônica. “Já está em nossos planos. Estamos conversando sobre isso e obviamente abordaremos questões LGBT em algum momento”, diz.

Esse personagem pode até ser Nimbus, que é inspirado no próprio Mauro. Não tão famoso quanto Mônica, Magali, Cebolinha e Cascão ― que são versões de duas irmãs dele e dois primos ― Mauro diz que adoraria ver uma versão dele em uma graphic novel e que ela possa abordar temas diversos.

“E por que não o universo LGBT?”, questiona.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, Mauro conta como é sua história com os quadrinhos criados por seu pai, fala como é trabalhar com um legado artístico, além de compartilhar como foi se entender como homossexual ― do bullying que sofreu na infância e de como a Turma da Mônica abraça as diferenças.

Leia a entrevista completa:  

HuffPost Brasil: Como e quando você começou a trabalhar com seu pai? Seu plano sempre foi trabalhar com ele?
Mauro Sousa: Trabalho com meu pai desde 2010. Sou formado em artes cênicas e música. Estudei minha vida inteira para isso. Durante um período da minha vida foquei minha carreira em espetáculos musicais, como ator. Participei de alguns musicais grandes como Miss Saigon, O Rei e Eu e Rent. Estava bastante concentrado nessa carreira, e em 2010 enxerguei a oportunidade de dentro da MSP, com a Turma da Mônica, em abrir um braço da empresa focado em espetáculos e eventos, que é o meu know-how, o que eu conheço bem, essa parte de espetáculos. Foi então que abri a MSP Ao Vivo, que uma empresa do grupo que cuida de espetáculos, eventos e parques. Uni o útil ao agradável. Com essa oportunidade da Turma da Mônica para criar meu próprio negócio.

Como é trabalhar com sua família? E com seu marido também! Ele também trabalha com seu pai, certo? Como isso aconteceu e como você lida com isso?
Hoje eu digo que é um prazer, eu adoro. É muito gostoso poder ter essa relação profissional além da relação pessoal de uma maneira muito saudável com todas as pessoas da minha família. Mas isso foi um processo. Essa relação foi desenvolvida com o tempo, entendendo como funciona essa relação profissional com sua família. No começo tivemos vários percalços. É claro que há desentendimentos, mas essa relação hoje é muito mais redonda, mais azeitada e equilibrada. O início foi turbulento, mas valeu a pena. Tudo compensou pela relação super saudável que temos hoje. O Rafael começou a trabalhar com meu pai antes do que eu. Foi uma proposta que partiu do meu pai. Ele é Gerente de Produção e Administrativo da MSP.  

O meu pai, com seus personagens, faz uma diferença na vida das pessoas de uma maneira muito positiva.

Para você, o que a Turma da Mônica representa?
Eu me sinto uma pessoa muito abençoada, privilegiada de poder trabalhar com a Turma da Mônica. Porque, acima de tudo, acredito nos valores desses personagens, como o respeito às diferenças, a diversidade, a inclusão, a união, o amor, a amizade. Eu acredito nesses valores e por isso trabalho com a Turma da Mônica com muito amor e carinho para que possamos disseminar esses valores através dos nossos projetos.

A responsabilidade de levar para frente o legado do seu pai deve ser bem grande. Você sente esse peso?
Peso não, nunca. É sim uma grande responsabilidade, mas também um grande privilégio poder trabalhar com esses personagens e com o meu pai. Tenho consciência do tamanho dessa responsabilidade e por isso me dedico muito. 

Para você, qual é o legado mais importante que seu pai vai deixar?
São tantos… Eu como filho, acho que é o amor que ele deu para seus filhos e por seu trabalho. Mesmo com 83 anos ele continua trabalhando muito e sempre com um sorriso no rosto. Ele é uma pessoa extremamente humilde. Mesmo construindo esse império que ele construiu, ele tem um coração gigante. Para mim, o grande legado dele é todo esse carinho, amor e humildade que ele entrega para tudo que ele faz. Para o público em geral, para os fãs da Turma da Mônica, a contribuição dele na cultura, na arte, na alfabetização, no entretenimento… Tudo isso, de alguma forma, o meu pai, com seus personagens, faz uma diferença na vida das pessoas de uma maneira muito positiva.

Infelizmente, ainda existe muito preconceito, muita homofobia. É incômodo ler mensagens homofóbicas, te xingando.

O post que seu pai fez com você e seu marido foi algo espontâneo? Como aconteceu?
Foi super espontâneo. Super natural. Meu pai é viciado em Instagram. Ele é viciado em rede social e adora tirar fotos de tudo. Ele vive tirando foto da família. Estávamos ali  tomando café e ele quis tirar uma foto daquele momento. Minha mãe tirou aquela foto e ele adorou tanto que queria postar. Ele perguntou para mim e para o Rafa [Rafael Piccin, marido de Mauro] se ele podia postar, respondemos que ‘sim’ e ele postou. É claro que nós já esperávamos que aquilo poderia repercutir de alguma forma, mas não da maneira que repercutiu. Foi maior do que imaginávamos. Mas a nossa maior surpresa é que a repercussão foi muito mais positiva. Recebemos muitas mensagens lindas. Meu pai também. O que me deixou bastante estimulado e inspirado para continuar abordando esse assunto.  

Você disse que passou a ser hostilizado nas redes sociais também...
Claro. Infelizmente, ainda existe muito preconceito, muita homofobia. Sabíamos que de alguma forma, essa repercussão também atingiria essas pessoas preconceituosas. E, de fato, atingiu. Tanto que eu e o Rafael também sofremos com muitos comentários homofóbicos. Nesse sentido, claro que não é legal. É incômodo ler mensagens homofóbicas, te xingando. Mas, ao mesmo tempo, entendemos que essa discussão é importante e que meu pai, como um formador de opinião, é importante ele mostrar a maneira como ele trata esse assunto, que é uma maneira muito natural, super respeitosa. Eu, falando por mim, estou  gostando dessa repercussão da maneira como as coisas têm se encaminhado nesse sentido.

Quando e porque você decidiu compartilhar que é gay com seus pais?
Contei para os meus pais quando tinha 18 anos, mas tenho consciência que sou gay desde os 12. Contei para minha mãe e ela foi a pessoa mais incrível do mundo. Foi o dia mais feliz da minha vida. Ela me tratou com o maior respeito, com muito amor, dizendo que me apoiava e que só queria que eu fosse muito feliz. Quando ela falou isso eu comecei a chorar na hora. Eu sempre achei que quando chegasse esse momento ia ser o contrário, que ela iria chorar, mas fui eu que chorei. Foi lindo. Eu tirei um peso das costas e pude viver minha vida de uma forma muito mais feliz e tranquila. Graças a minha mãe. Depois o assunto foi compartilhado com toda a família e todos me trataram com muito respeito.

Reprodução/Instagram
Mauro ao lado de Nimbus, personagem que seu pai se inspirou nele para criar. 

Imagino que ser filho do Maurício de Sousa deve atrair muito admiração na escola, mas vi que você disse que sofria muito bullying. Disse que não tinha amigos.
O bullying começou na época em que eu tinha uns 10 anos. Era uma criança muito afeminada, gordinho e tímido. Então sempre ouvia xingamentos tipo “gordo bichinha”. Sim, tive esse momento na época da escola. Na época, eu nem tinha consciência direito de que eu era gay, mas recebia sim esse tipo de comentário. E isso nunca é bom, né. Mas, ao mesmo tempo, eles me fizeram ser mais forte. Eu não me deixei abalar e transformei esse sofrimento em força. Claro que não desejo isso para ninguém, mas me fortaleci e aprendi com isso.   

A Turma da Mônica sempre busca estar atualizada com o conceito de diversidade. O personagem baseado em você, o Nimbus, será o veículo para a homossexualidade ser abordada nas histórias da Turma? 
Não acredito que seria o Nimbus porque ele tem 7 anos. E nesse idade, pelo menos é o que eu acho, as crianças ainda não têm uma consciência clara sobre orientação sexual. Então não acredito que seria ele o personagem. Mas acredito sim que teremos um personagem LGBT de alguma forma.

Eu tirei um peso das costas e pude viver minha vida de uma forma muito mais feliz e tranquila. Graças a minha mãe.

Talvez em uma graphic novel?
Sim, uma graphic novel ou na Turma da Mônica Jovem. Esses seriam os veículos para abordarmos essa questão de uma maneira legal. Ainda é um assunto muito cru, mas, sim, já está em nossos planos. Estamos conversando sobre isso e obviamente abordaremos questões LGBT em algum momento.

Você gostaria de ver o Nimbus em uma das graphic novels? Como você imaginaria ele nesse formato?
Eu  adoraria! Acho que seria incrível. As graphic novels têm uma liberdade de abordar os personagens de uma maneira um pouco diferente, mais autoral. Adoraria ver uma versão do Nimbus em uma graphic novel e que ela possa abordar temas diversos. E por que não o universo LGBT?

Falando nas graphic novels, o que você achou do Turma da Mônica - Laços [filme baseado na graphic novel de mesmo nome]?
Assisti já duas vezes. Achei lindo de morrer. Acho que o Daniel [Rezende, diretor do filme] fez um trabalho excepcional. A direção está incrível e a fotografia linda. Ele é um filme autoral. É a visão do Daniel sobre a Turma da Mônica e a nossa sorte é que  o Daniel tem muito bom gosto. Viralizou um vídeo do meu pai em que ele chorou depois da pré-estreia. Eu que filmei. Aquele momento foi a certificação de que o filme tem a qualidade que esperávamos. Eu estou muito satisfeito. Tanto que já estamos conversando sobre a sequência.