ENTRETENIMENTO
31/03/2019 01:00 -03 | Atualizado 31/03/2019 11:38 -03

'Matrix' 20 anos: Com filosofia, porrada e efeitos, filme previu dilemas das redes sociais

Encarar uma realidade dura ou viver “feliz” em sua bolha? Há 20 anos, 'Matrix' se tornava um verdadeiro fenômeno da cultura pop.

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Desde que estreou nos cinemas americanos, no dia 31 de março de 1999, Matrix tornou-se quase que imediatamente um fenômeno da cultura pop. E boa parcela desse sucesso se deve ao fato de que suas criadoras, as irmãs Wachowski, conseguiram alcançar um perfeito equilíbrio entre questões filosóficas e muito tiro, porrada e bomba ao estilo dos filmes de ação de Hong Kong. Tudo muito bem embalado em um visual cyberpunk cool.

Mas não foi só isso.

Há 20 anos, a internet ainda estava em sua infância, mas isso não impediu o ousado plano das Wachowski, que pensaram o filme como a ponta de um iceberg de worldbuilding [processo de construção de um mundo imaginário] que previa, além de sequências cinematográficas, games, animações, livros e quadrinhos. E tudo começou com um misterioso site que questionava: O que é a Matrix?

“Confesso que o filme me pegou de surpresa. Eles tiveram uma estratégia de marketing que foi bem bacana para a época, aquela coisa do ‘what is the Matrix?’, em que você abria um site e ele só tinha aquela frase com aquela tela verde das letras caindo. E só depois que estreou o filme que começaram a jogar lá os contos e Goliath, o quadrinho do Neil Gaiman. Mas quando eu fui ver o filme eu realmente não tinha ideia do que iria assistir”, conta Fábio Fernandes, escritor, tradutor e professor do curso de graduação em em Jogos Digitais da PUC-SP.

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O famoso efeito bullet time impressionou plateias pelo mundo.

“O filme me pegou desde a primeira cena em que aparece a Trinity virando e a câmera segundo os movimentos dela de uma forma diferente. Ali já dava para ver que vinha algo que não era comum. Não existia aquele tipo de efeito antes. É como acontece com livros. A primeira frase tem que ter impacto. Essa primeira cena de Matrix já deixa você querendo mais. Se perguntando: ‘mas que m… é essa que eu estou vendo? Quero ver mais!’. Foi bem empolgante na época”, completou Fernandes.

Na época, as aventuras de Neo (Keanu Reeves), Trinity (Carrie-Anne Moss) e Morpheus (Laurence Fishburne) em um mundo distópico governado por máquinas pareciam mais uma revolução técnica do que cultural, uma ficção científica ultra-estilosa que apresentava ao planeta novas e impressionantes técnicas de efeitos especiais. Isso se refletiu rapidamente em outros filmes, transformando o bullet time em um clichê do gênero nos anos seguintes.

No entanto, o plano de expansão narrativa das Wachowski provou ter um impacto muito mais profundo. “Matriz mudou a história do cinema? O cinema de entretenimento hollywoodiano mudou sim. Mudou a história da indústria do entretenimento como um todo. Matrix puxou outras obras como, claro, as duas sequências, mas também Animatrix, games, livros, quadrinhos… Hoje ninguém gosta de dar muito crédito para Matrix quando se fala de transmedia storytelling, mas Matrix teve impacto nessa questão”, explica Fernandes.

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Algumas técnicas de efeitos especiais acabaram virando clichê de tanto que foram usadas por outros filmes depois do lançamento de Matrix.

Mesmo assim, muito do impacto duradouro de Matrix se deve àquela fórmula de sucesso infalível: estar no lugar certo na hora certa.

“Estamos cada vez mais ficando ligados à máquina e Matrix mostrou o início desse processo. O protagonista do filme é um programador! Naquela época pouca gente sabia o que um programador fazia. Hackers eram novidade para as pessoas. Matrix nos preparou para muitas inovações que mudariam drasticamente nosso estilo de vida. É um filme muito importante para a passagem do século 20 para o 21”, diz Cláudia Fusco, jornalista que foi a primeira mulher da América Latina a fazer mestrado em ficção científica na Universidade de Liverpool (Inglaterra).

Algo que ainda reverbera até hoje. Matrix se baseia na ideia de que as pessoas precisam fazer uma escolha: encarar uma realidade dura de lutas ou viver “feliz” em sua bolha. Quem diria que 20 anos depois as mídias sociais refletissem exatamente esse questionamento. Hoje, o mundo está sendo construído com base nessa escolha, inundado por um surto de informações que estão muito mais de acordo com nossas noções preconcebidas do que com a realidade. 

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E aí, você escolheria a pílula vermelha ou azul?

“A Ficção Científica é um excelente meio para discutir questões filosóficas. Matrix tem essa pegada, mas sem ser ‘cabeçudo’, trazendo muita aventura e ação. Nos permitimos chegar aos anos 2000 por meio de Matrix”, concluiu Fusco.