LGBT
10/07/2020 02:00 -03 | Atualizado 10/07/2020 08:26 -03

A maternidade de mães ou pais homossexuais é um aprendizado constante

“Quem é a mãe e quem é o pai?", “Ele é bebê de proveta?", “Qual das duas é a mãe de verdade?”

Sara Graefe
Celebramos a família em todas as suas formas.

Quando saí do armário, aos vinte e poucos anos, pensei: “Nunca vou me casar”. Queria ter filhos e senti que, ao assumir minha homossexualidade, estava abrindo mão dessa opção. Às vezes, me belisco quando olho para a minha vida hoje e percebo: “Uau, muita coisa mudou”. 

Conheci Amanda, minha mulher, num daqueles eventos bizarros de encontros relâmpago. Nós duas tínhamos nos separado, e nossos amigos prometeram nos encontrar lá, mas no final deram o cano. Amanda e eu tivemos uma conversa sincera; quando era hora de trocar e falar com outras pessoas, queríamos continuar conversando as duas.

No dia seguinte, nos encontramos para um brunch. Amanda não se prende a gêneros e se apresenta com visual butch. Vi uma varinha de condão brilhante no banco de trás do carro dela e fiquei surpresa, porque não combinava com a imagem dela. Amanda ia interpretar uma fada madrinha na festa de aniversário do filho de uma amiga. Naquele nosso primeiro encontro falamos de como ambas queríamos filhos.

Isso aconteceu em 2004, e o casamento entre pessoas do mesmo sexo tinha sido legalizado no ano anterior no estado da Colúmbia Britânica. Foi a primeira vez que conheci alguém com quem me casaria. Casais queer estavam se casando; o clima era de otimismo e entusiasmo. Foi uma época interessante para me apaixonar.

A sensação de ser ‘penetra’

Quando estávamos prontos para ser mães, ficou claro que a adoção não era o melhor caminho para nós. Não gostávamos da ideia da adoção confidencial: você tem um filho que não conhece nem nunca vai conhecer seus pais biológicos, se essa for a escolha deles.

Optamos pela reprodução assistida. Consideramos pedir para que algum amigo próximo fosse o doador de esperma, mas, por causa da logística, acabamos procurando um banco de esperma em que os doadores estavam dispostos a serem contatados quando a criança completasse 18 anos.

Cada doador tinha um texto que acompanhava seu perfil. Alguns eram religiosos, pregando a palavra de Deus aos seus filhos. Especialmente nos estados do sul dos Estados Unidos, muitos homem doam esperma como um ato religioso. Pensamos: “O que essa pessoa vai pensar quando o filho atingir a maioridade e quiser contatá-la?”

Acabamos escolhendo um doador que fez algo diferente: ele escreveu uma carta para a criança, reconhecendo que eles tinham um relacionamento estranho e depois descrevendo de forma carinhosa a si mesmo e a seu pai. Citei a frase final em meu livro: “O fato de seus pais tanto desejarem tê-lo é realmente muito especial. Isso é muito mais do que qualquer coisa que eu tenha feito. Espero o melhor para você na vida, e você certamente dará orgulho aos seus pais”.

A gravidez exige interações regulares com o sistema de saúde. De repente, parecia que estávamos num mundo muito hétero – e nós éramos penetras. Tive diabetes gestacional e fui a muitas consultas sozinha, então a clínica fazia todo tipo de suposição a respeito do meu “marido”. Às vezes eu corrigia as pessoas, às vezes não tinha energia.

Havia uma clínica de parteiras mais próxima da nossa casa, mas escolhemos uma que tinha várias parteiras queer na equipe. Nunca houve qualquer confusão sobre o fato de sermos um casal, e eles sempre conversaram com Amanda deixando claro que nós duas estávamos “grávidas”. Ela se sentiu mais incluída. Por causa deles, ela ouviu o primeiro batimento cardíaco do bebê. Sempre que estavam no hospital, nos sentíamos mais vistas.

A parte mais devastadora da experiência veio depois do nascimento de Michael. Tivemos complicações e ficamos no hospital por uma semana. As enfermeiras não entenderam que Amanda era minha parceira, não apenas uma amiga. Elas diziam: “Ela é uma ótima amiga para ficar com você 24 horas por dia, 7 dias por semana, dormindo num colchão ruim”. Tentamos corrigi-las às vezes, mas a exaustão nem sempre nos permitia isso. Eu não conseguia amamentar, e falavam mal de mim na enfermagem, dizendo que eu devia estar fazendo algo errado. Foi muito difícil. Felizmente, porém, nossas parteiras apresentaram uma queixa formal. Aí elas aprenderam – mas é frustrante ter de dar essa lição.

Desafiando as premissas heteronormativas

Na maior parte do tempo, Amanda e eu levamos nossas vidas sem pensar duas vezes no fato de sermos queer. Mas certos episódios da maternidade acabam te abalando. 

Meu filho vai para o ensino médio no próximo ano e tem de preencher alguns formulários de escolas. Em alguns, ele tem de incluir o nome do pai. Michael me disse: “Mãe, acho que essa escola não está muito ligada”. No fim, ele descartou essa escola.

Sara Graefe
Para Sara Graefe e sua família, pequenos lembretes como formulários desatualizados são lembretes de heteronormatividade.

Quando Amanda não está comigo, em certos ambientes as pessoas simplesmente presumem que eu sou hétero. Quando digo que não é o caso, muita gente fica curiosa e faz perguntas do tipo:

“Quem é a mãe e quem é o pai?”

“Ele é bebê de proveta?”

“Qual das duas é a mãe de verdade?”

Às vezes é OK, às vezes nem tanto. Preferimos os ambientes em que as famílias são parecidas com as nossas. Acampar em grupos grandes é sempre muito divertido. Alguns dos casais mais próximos da gente são héteros e que jamais teríamos conhecido se não fosse por nosso filho. Conhecemos famílias muito legais assim e somos mais próximas delas do que alguns de nossos amigos queer.

Tivemos uma experiência ruim com homofobia em 2005. Alguém nos viu andando de mãos dadas na rua, e as pessoas do bairro começaram a nos olhar de um jeito estranho. Decidimos que ali não seria o lugar para criar nosso filho.

Na maior parte do tempo, Amanda e eu levamos nossas vidas sem pensar duas vezes no fato de sermos queer. Mas certos episódios da maternidade acabam te abalando.Sara Graefe

Nos mudamos para East Vancouver, há muito tempo um território lésbico. Por acaso o melhor amigo do meu filho também tem duas mães e foi gerado com o esperma de um doador anônimo. Ele acha interessante ter isso em comum com o amigo, mas não é nada demais para Michael.

É legal que várias crianças da escola dele também têm pais queer. Todo mundo sabe que existem vários tipos de família. Alguns amigos até lhe disseram: “Eu também queria ter duas mães”. Parece que as mães ainda são as grandes responsáveis por cuidar das crianças (da perspectiva delas), então Michael teria isso em dobro.

O interessante de ter filho, quando você é queer, é que isso meio que te tira do armário. Imagine que você está andando na rua e vê alguém sendo um imbecil. Se vocês se sentirem inseguras, podem largar as mãos, e aí são apenas duas mulheres. Mas, quando você tem um filho, não quer mais fazer isso. Você não quer que seu filho duvide que vocês são um casal.

“Ele pode ser quem quiser”

Quando era menor, Michael não se prendia muito a gêneros, mas isso é difícil entre crianças pequenas. Foi uma surpresa para ela, porque em casa você pode gostar do que quiser. Quando tinha sete anos, ele gostava de Meu Pequeno Pônei e de A Pequena Sereia, mas também brincava de Lego, lia gibi e jogava curling. Hoje em dia, ele e Amanda adoram RuPaul’s Drag Race.

Sara Graefe
Sara diz que Michael faz planilhas no computador para acompanhar os competidores de “RuPaul’s Drag Race”.

Ele pode ser quem quiser. É muito diferente de como eu e Amanda nos sentimos nas nossas famílias. Quando souberam que não éramos hétero, houve uma grande decepção. Ambas as famílias acabaram aceitando melhor quando começamos a namorar e desde o casamento, em 2006. Perceber que somos amadas, aceitas e apoiadas mesmo sendo um casal de mulheres os fez entender que amor é amor. Somos quem somos.

Pink Monkey Studios
Sara e Amanda em uma foto do álbum de casamento em 2006.

Somos um casal formado por uma mulher e uma pessoa genderqueer que cria um menino. Falamos muito sobre o que isso significa: criar um homem que vai tratar os outros com respeito. Talvez nossa sociedade tenha tipos diferentes de homens, pois eles cresceram em famílias como a nossa. Minha esperança é que a nossa família faça de Michael uma pessoa mais gentil, capaz de compaixão e pronta para amar quem ele queira amar. É um privilégio ser de uma família que não é “heteronormativa”, que presume que ser hétero é normal e natural.

Nunca houve um plano de romper esses estereótipos de gênero. O fizemos simplesmente sendo quem somos. Espero que, quando for mais velho, ele demonstrar isso a seu parceiro ou parceira, a seus colegas de trabalho, às pessoas de seu círculo social. Aos poucos, as famílias queer estão transformando o mundo somente sendo o que são. Espero que meu filho seja uma representação disso. Mas nenhuma pressão sobre ele!

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost Canada e traduzido do inglês.