LGBT
27/07/2020 13:26 -03

Estas mães lésbicas falam sobre a ‘estranha sociedade secreta’ da doação de esperma

“Um homem ejacula num copinho, e alguém ganha muito dinheiro.”

Provided by Katie and Megan Pearson
Megan, à esquerda, e Katie, com seus três filhos: Duke, Poppy e Dermott, o bebê.

Katie e Megan Pearson são casadas e moram em Toronto. Elas têm três filhos: Duke, 4, Poppy, 3 e Dermott, 1. Megan deu à luz Duke, e Katie, os outros dois filhos (embora o terceiro bebê tenha originado de um óvulo de Megan).

Elas contaram sua história porque sabem como é complicado para casais do mesmo sexo navegar o processo da fertilidade. “Nem sempre é fácil encontrar informações sobre isso. Você realmente tem que se esforçar”, diz Megan. “É tipo uma estranha sociedade secreta”.

HuffPost Canadá: Como é o processo de escolha de um doador de esperma?

Megan: Existem muitas, muitas decisões que acompanham cada etapa. Que tipo de esperma? Quanto será necessário? O que é importante no doador? Eu sou uma mistura de branco e negro, e Katie é branca. Falamos sobre raça e que tipo de esperma escolher.

Katie:Quando Megan estava grávida do nosso primeiro filho, escolhemos um doador branco, porque estávamos tentando me representar melhor. Foi um doador anônimo: do ponto de vista legal e logístico, doadores desconhecidos são um pouco mais simples.

O doador tem de ser dos Estados Unidos. É ilegal comprar e vender esperma no Canadá. Nossa clínica era parceira de três empresas americanas que enviam o esperma para cá. Você pode importar, mas não pode comprar aqui.

Megan: É bizarro. Ninguém pensa nisso até chegar a hora de usar um serviço desses.

Credit: Jamieson Dean
Megan, à esquerda, e Katie no dia do casamento, em julho de 2013.

Megan: E não tínhamos certeza se era importante ter o mesmo doador na época...

Katie: Para nós, era importante escolher um doador de identidade aberta, ou seja, se você engravidar com sucesso e registrar o nascimento no banco de esperma, quando nossos filhos completarem 18 anos, eles poderão solicitar as informações de contato do pai biológico. Achamos importante que eles tivessem essa opção.

Como vocês escolheram quem seria responsável pela gestação?

Katie: Megan foi a primeira, porque ela é quatro anos mais velha. Nosso primeiro filho, Duke, foi concebido por inseminação intrauterina. Todo mês, listávamos nossas três principais opções de esperma, e a clínica cuidava de trazê-lo dos Estados Unidos. Eles monitoravam o ciclo de Megan e, no dia em que ela ovulava, faziam a inseminação. Depois, ficava por conta da natureza.

Megan: Eles usam basicamente um conta-gotas bem grande.

Katie: Engravidamos na segunda tentativa, o que é bastante sorte.

As complicações extras de ser um casal do mesmo sexo pesou?

Megan: Acho que não para mim. Cresci como uma mulher negra e LGBT, há muita desigualdade. Não é nada estranho para mim.

O que mais pesou foi que tudo era muito invasivo. Na clínica, monitoram seu corpo constantemente, anotam seus ciclos. Os médicos fazem isso o tempo todo, mas esquecem de quem está passando por aquilo pela primeira vez.

Provided by Katie and Megan Pearson
Dermott, Poppy e Duke se divertem no sol.

Katie: Precisávamos fornecer um motivo médico para estarmos na clínica. Acho que me lembro de dizer: “Falta de esperma?” Parecia tão óbvio.

Megan: Pensando agora, não entendemos quanta autonomia poderíamos ter. A maioria das clínicas de fertilidade é para casais heterossexuais que têm problemas para engravidar. Para nós, era tipo: “Você tem de fazer esse teste para ver se suas trompas de falópio estão abertas”. Mas será que eu realmente tinha de fazer esse teste? Uma mulher com dificuldade para engravidar precisa descobrir o porquê, mas não era nosso caso. Estávamos ali porque precisávamos de ajuda para inseminar espermatozoides em nossos corpos.

Quando vocês decidiram que todos os filhos teriam o mesmo doador?

Katie: Acho que nosso pensamento inicial era que, quando chegasse a hora de engravidar de nosso segundo filho, procuraríamos um doador negro para representar Megan.

Mas começamos a pensar como seria nossa família se, dali a alguns anos, tivéssemos três ou quatro filhos, todos com doadores diferentes. Existe uma mesa de jantar de Natal que inclua quatro homens diferentes? Tentamos simplificar e queríamos que houvesse algum tipo de fio comum entre os filhos.

É coisa para gente rica, com certezaMegan

Katie: Voltamos à clínica de fertilidade e compramos as últimas quatro unidades de esperma disponíveis do doador de Duke.

Megan: Mas isso custa dinheiro.

Katie: Isso custa dinheiro. Uma unidade de esperma custa cerca de mil dólares. E, aparentemente, você obtém entre três e cinco unidades de esperma em uma doação.

Espera, então uma unidade é... 

Katie: Uma unidade não corresponde a uma ejaculação! Um homem ejacula num copinho e alguém está ganhando muito dinheiro. 

Megan: É coisa para gente rica, com certeza.

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Duke e Poppy se protegem da covid-19.

Katie: Tivemos muita sorte de ter benefícios incríveis por causa do trabalho.

Megan: Temos sorte de ser pessoas de ótimo nível educacional e com os meios necessários para navegar o sistema. Sem isso, ter um bebê fica muito menos alegre. E as chances também são menores. 

Katie: Quando Duke nasceu, Megan aparece como mãe na certidão de nascimento. Eu apareço como pai-barra-segunda-mãe. Mas eu poderia aparecer diretamente na certidão de nascimento. Na época fomos informadas por um advogado que poderíamos fazer uma adoção oficial, mas realmente não sentimos que isso era necessário. Nunca foi um problema. 

Tirei licença parental e para receber meus benefícios do governo lembro de ter de explicar várias vezes que não estava tirando licença-maternidade. [Nos formulários] havia opções de pai biológico ou pai adotivo, e eu não me encaixava em nenhum dos dois casos.

Qual foi o processo na segunda gravidez?

Katie: Engravidamos novamente quando Duke tinha cerca de 9 meses. Queríamos esperar um pouco mais, mas o estado de Ontario passou a oferecer tratamentos de fertilidade financiados. Pode ser uma rodada de inseminação intrauterina ou uma rodada de fertilização in vitro. A fertilização in vitro aumenta a chance de uma gravidez bem-sucedida e, se você tem direito a uma tentativa paga pelo governo, por que não escolher a que tem mais chances?

Provided by Katie and Megan Pearson
Megan com seus filhos Duke e Dermott.

Megan: [Com a fertilização in vitro], você usa apenas um frasco de esperma e potencialmente obtém vários embriões. Depois, pode congelá-los – e eles serão usados na fertilização in vitro.

Katie: A fertilização in vitro seria paga pelo governo, mas esse método incorre em custos de medicação significativamente mais altos, porque no primeiro trimestre você precisa sustentar artificialmente os hormônios, o que significa que você usa estrogênio e progesterona e vários outros remédios durante três meses e meio ou quatro meses.

Megan: Isso custa muito caro. Além disso, você tem de tomar injeção todos os dias. É emocionalmente desgastante. 

Katie: Calculo que o custo total dos remédios nesses três ou quatro meses fica entre US$ 5.000 e US$ 10.000, dependendo de quanto você precisar.

Quando você faz fertilização in vitro, eles te dão hormônios para que corpo produza o maior número possível de óvulos. E, no momento da ovulação, controlada quimicamente com a medicação, o médico entra com uma agulha grande na vagina.

Katie: (rindo) Temos opiniões diferentes, mas eles entram na vagina com uma agulha grande para sugar todos os óvulos maduros.

Megan: É a pior coisa do mundo.

Katie: Discordo disso, mas de cada um tem sua opinião.

Megan: Cada um com uma agulha na sua vagina.

Katie: De fato é invasivo. Você está no consultório, com as pernas para o ar, quase completamente nua, com pelo menos quatro ou cinco profissionais médicos na sala e um laboratório inteiro de pessoas olhando por uma janela. 

Você tem a opção de simplesmente colocar os óvulos em uma placa de Petri com esperma e esperar que haja fecundação. Acho que pagamos mil dólares a mais para que eles injetassem um único esperma em cada óvulo para aumentar o número de óvulos fertilizados e saudáveis.

Fiquei grávida de Poppy, nossa segunda, na primeira tentativa.

E o terceiro filho?

Katie: Megan deu à luz Duke, que foi concebido com seu óvulo. Depois veio Kate, que eu dei à luz, com meu óvulo e o esperma do doador. Depois, no terceiro, invertemos, usando óvulo de Megan e o esperma do doador.

Megan: Eu acho que esse sempre foi o plano, que Katie usasse o óvulo e o doador de esperma. No terceiro, não queria engravidar nunca mais, então sabíamos que ela seria responsável pela gestação.

A gravidez foi mágica por muitas razões; criar uma vida humana é indescritível. Mas não gostei nem um pouco da gravidez ou do parto. Estava doente quase o tempo todo, o trabalho de parto foi longo e acabou numa cesariana traumática. Depois tive depressão pós-parto. É importante que as mulheres entendam que não há problema em não curtir a gravidez.

Katie: Eu adorava estar grávida. O que mais adorava era a sensação de nunca estar sozinha, de ter sempre alguém comigo. Adoro a barriga de grávida e a emoção, a expectativa. Por mais que haja momentos ruins, acho que sempre estaria disposta a engravidar de novo.

Provided by Katie and Megan Pearson
Baby Dermott e seu macacão especial.

Megan: Sou muito grata por Katie ter tido experiências positivas.

Katie: Quando engravidamos do nosso terceiro, achávamos que teríamos direito a mais uma rodada de fertilização in vitro paga pelo governo, porque existe a opção da barriga de aluguel. Pensávamos que eu poderia ser considerada a barriga de aluguel de Megan, mas no meio do caminho descobrimos que não.

Foi boa maneira de ambas estarmos envolvidas, intimamente conectadas. Dermott viveu nos corpos das duas, o que é bem legal.

Você já pensou em como explicar tudo isso para seus filhos?

Katie: Ah, eles sabem.

Megan: De maneiras apropriadas às suas idades, eles sabem em qual corpo cada um estava e como eles saíram. Somos muito abertas e sinceras com as crianças. Queremos que elas se orgulhem de onde vieram. Queremos que elas não tenham vergonha, que sejam capazes de falar sobre isso com confiança e curiosidade quando chegar a hora. Não há segredos.

Katie: Eles sabem que as mamães tiveram que usar um médico para ajudá-las porque só temos óvulos e precisávamos de esperma. 

O parto de Duke foi cesariana, e ele sabe que saiu da barriga da mamãe. Poppy sabe que ela veio da vagina da mamãe. Duke sabe que ele não queria sair – o trabalho de parto durou 36 horas, ele estava confortável lá dentro. Poppy sabe que estava animada para vir ao mundo, porque saiu muito rápido. Dermott ainda não entende, mas os dois mais velhos sabem que Dermott veio da barriga de uma mamãe e depois nasceu da barriga da outra mamãe.

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Os pequenos.

Como disse Megan, queremos que eles se orgulhem de sua história. Mas acho que é apenas um lembrete de que somos diferentes, e temos que realmente enfrentar... nossas inseguranças?

Megan: Homofobia internalizada?

Katie: Homofobia internalizada, ou vergonha, ou algo assim. Todos os nossos filhos têm aparências diferentes e passamos por situações em que, mesmo quando todos juntos, acham que Megan é minha babá...

Megan: No meu próprio bairro.

Katie: É chocante o que as pessoas se sintam à vontade para dizer certas coisas. Posso estar no metrô, e as pessoas perguntam se eu adotei ou “De onde ele veio?”, “eles são parentes?”.

Então você se vê tendo de falar da sua sexualidade com estranhos no metrô, na frente das crianças, e a ideia é não evitar esse tipo de conversa. Não queremos que elas achem que há algo errado com a nossa família. Muitas pessoas acham que as crianças não entendem. Elas podem ser pequenas, mas são inteligentes e juntam os pontos.

Isso afetou dramaticamente a maneira como Megan e eu nos forçamos a viver no mundo. Pode ser desconfortável. Você quer que eles sintam esse desconforto e saibam que não há problema em corrigir as pessoas, mesmo que isso incomode a outra pessoa, porque não há nada errado com a nossa família. Mas você fica o tempo todo avaliando: será que essa situação é segura? Tenho aliados ao meu redor que me protegeriam se algo acontecesse?

Provided by Megan and Katie Pearson
Os três filhos de Megan e Katie Pearson.

Megan: Também estamos falando sobre interseccionalidade ― como a raça se encaixa nela. E nossa orientação sexual está sempre em primeiro plano em nossas experiências. 

Katie: Nossas vidas são incrivelmente normais, mas nossos filhos são expostos a muitas identidades diferentes. Eles vivem nessa pequena bolha. Mas um dia eles vão para o mundo e temos medo de que alguém, em algum momento, dirá algo ofensivo sobre a família ou a cor da pele deles. A esperança é que, como eles terão vivido num mundo em que as coisas simplesmente são assim, eles sejam bastante resilientes.

Por mais que falemos em segurança, também vemos muitas interações realmente bonitas, em que basta fazer um simples esclarecimento e fica tudo bem.

Tipo, Megan e eu levamos as crianças para uma plantação de morangos semana passada. Estávamos andando, e essa adolescente veio até mim e perguntou: “Vocês dois são um casal? Esses são seus filhos?” E eu disse: “Sim, ela é minha mulher. Somos casadas há cerca de sete anos. Esses são nossos filhos”. E ela disse: “Espero um dia ter o mesmo que vocês”. Essa adolescente, vendo nossa família fazendo essa coisa super normal, viu como pode ser seu futuro.

 

* Este texto foi originalmente publicado no HuffPost Canadá e traduzido do inglês.