MULHERES
30/05/2020 13:00 -03 | Atualizado 08/06/2020 14:06 -03

Atendimento a distância se torna opção para gestantes e doulas frente à covid-19

"Quando você acompanha uma gestante, você faz parte daquele que será um momento único para aquela mulher. Nesse contexto, estou entendendo formas de estar presente", diz a doula Lívia Braga.

No início de maio, Lívia Braga, de 35 anos, que trabalha como doula há 3, precisou agir rápido. A distância, ela ajudou uma mulher em estágio avançado da gestação a conter uma crise de ansiedade acompanhada de falta de ar. Respirar fundo. Sentir o corpo. Ficar no presente. A sensação de medo se tornou realidade diante da possibilidade de, no momento do parto, tanto ela quanto o bebê contraírem covid-19.

As duas respiraram juntas e buscaram a calma no momento. Só que, desta vez, as ferramentas comuns de trabalho foram utilizadas sem os tradicionais olho no olho, abraço ou calor humano – e sim por meio de um celular. O caso de Lívia é um exemplo de como a pandemia limitou e mudou o trabalho das doulas.

“Ser doula é também ter uma capacidade grande de criar vínculo. E neste momento, em que a distância é algo mais do que necessário para conter a disseminação do vírus, ele [vínculo] precisa ser construído de outro jeito”, diz Lívia, que trabalha no interior de São Paulo. “Quando você acompanha uma gestante, você faz parte daquela história, daquele que será um momento único para aquela mulher. E nesse contexto, estou fazendo adaptações e entendendo formas de estar presente.” 

Em tempos de covid-19, gestar um bebê e planejar o momento do parto, para muitas mulheres, trouxe ainda mais incertezas. O rápido aumento de casos de coronavírus no Brasil e a inclusão das gestantes e puérperas no grupo de risco para a doença têm mudado a forma como mulheres experimentam não só a gestação mas, principalmente, o nascimento do bebê. 

Apesar de não serem médicas ou enfermeiras, as doulas estão autorizadas pela lei federal 11.108/05 a estar por perto desde o momento em que a mulher entra no hospital até os primeiros dias do bebê – mas ainda são lidas como visitantes ou acompanhantes no sistema de saúde. Com o avanço da doença no País, elas enfrentam dificuldade para exercer a sua atividade. Neste contexto, muitos hospitais estão limitando acompanhantes no momento do parto, o que significa que as doulas são forçadas a dar suporte virtualmente.

Bia Takata
Janaina Santina, doula (à esq.), auxilia uma mãe durante amamentação após o parto. O nascimento foi registrado antes do início da pandemia.

"É sempre um susto quando as coisas mudam de repente”, afirma a doula Janie de Paula, sobre o isolamento social imposto pela quarentena. Ela trabalha há 6 anos como doula, terapeuta e educadora, também em São Paulo. “No geral, coisas que ‘mudam de repente’ são até conhecidas para doulas. O parto é um susto. Ele começa sem a gente saber exatamente quando começa, de fato, ou vai terminar. Tudo muda de repente, e você tem que se adaptar ao que acontece e trabalhar da melhor forma. São questões que a experiência de acompanhar um parto ensina para a gente.”

Por enquanto, Janie está tentando transferir seu trabalho, que é íntimo e pessoal, para plataformas virtuais, e preparando gestantes para dar à luz sem seu apoio presencial caso não seja autorizada a participar. “Eu acho, e isso é uma percepção que não é de todo mundo, que o estado de presença acontece com a presença física ou não”, explica. “Eu posso estar com ela [a gestante] por telefone, por mensagem, por vídeo, através do parceiro. São outras formas de presença que vão existir e funcionam no momento do parto.”

Leon Rodrigues/Governo do Estado de São Paulo
A presença de acompanhante durante todo o período de internação da gestante é garantida por lei desde 2005.

No início de maio, a Fenadoulasbr (Federação Nacional de Doulas do Brasil), assim como outras entidades que atuam em prol do atendimento humanizado, afirmaram em nota conjunta que receberam relatos de que hospitais, maternidades e outras unidades de saúde em todo o País estavam impedindo a presença de doulas durante o parto. 

A presença de acompanhante durante todo o período de internação é garantida por lei e outros estados, como São Paulo e Rio de Janeiro, também têm legislações específicas que garantem a presença de doulas no parto e pós-parto. Comunicado da entidade afirma que a pandemia não pode abrir espaço para ferir direitos. “Com ou sem coronavírus, com ou sem sintomas de covid-19, gestantes, parturientes e puérperas precisam de cuidado empático, baseado em evidências e com respeito aos seus direitos humanos”, diz a nota. 

Para a organização, a regra ”é que o direito ao acompanhante seja mantido, e, apenas em casos excepcionais e quando não há outra alternativa, ele deve ser restringido”. Ainda segundo a entidade, deixar uma gestante “em trabalho de parto sem qualquer pessoa ao seu lado que possa lhe dar suporte emocional e segurança é uma violação de direitos humanos e garantias fundamentais.”

Desde o início da pandemia, maternidades e hospitais públicos e privados pelo País têm se adequado a protocolos referentes a gravidez, parto e covid-19, seguindo orientações da OMS (Organização Mundial da Saúde). Mulheres que deram à luz durante a pandemia em ambientes hospitalares relataram ao HuffPost que o medo e a tensão eram constantes, mas que se sentiram seguras por estarem com acompanhantes, por existir a utilização de equipamentos de proteção individual e a circulação de pessoas ser restrita no local.

Porém, defensorias públicas do Estado em São Paulo e Goiás chegaram a notificar hospitais após receberem denúncias de uma suposta proibição da presença de acompanhante em salas de parto ou centro cirúrgico. A justificativa era de que o aumento do número de pessoas circulando no ambiente poderia elevar os riscos de contaminação.

Em São Paulo, o órgão notificou secretarias de saúde e instituições, acusando violação da legislação federal. Foram citados o Hospital Estadual Dr. Odilo Antunes de Siqueira, em Presidente Prudente, no interior do estado, e o Hospital do Servidor Público Estadual, na capital. O HuffPost Brasil entrou em contato com os hospitais mas não obteve resposta até o fechamento desta matéria. 

Já em Goiânia (GO), a defensoria recebeu denúncias de que a Maternidade Nascer Cidadão não permitiu a presença de acompanhante durante parto, alegando situação de emergência sanitária ocasionada pela pandemia do coronavírus. Em resposta enviada ainda em abril à Defensoria, a Secretaria de Saúde do Estado informou que vai garantir o direito ao acompanhamento durante o parto e a permanência na unidade de saúde.

Médicos infectologistas ouvidos pelo HuffPost recomendam que, no momento do parto, esteja presente no máximo um acompanhante por paciente, que deve estar assintomático e não pode ter entrado em contato com pessoas contaminadas nos últimos 14 dias que antecedem a internação da gestante.  Máscara cirúrgica e protocolos de higienização também deve ser seguidos.

Neste contexto, para orientar tanto hospitais quanto profissionais de saúde, a Federação Nacional de Doulas divulgou no início de maio uma cartilha com orientações de prevenção e atuação durante a pandemia e recomenda a realização de consultas virtuais, por meio de aplicativos de videoconferência.

Exercitar a presença, mesmo a distância

Arquivo Pessoal
Nathalia Duarte, durante atendimento virtual (à esq.) e em parto realizado em maternidade particular em março, no início da pandemia. Ela precisou usar máscaras e seguir protocolos de segurança do hospital.

O atendimento remoto também foi a forma que a doula Nathalia Duarte, de 31 anos, encontrou para continuar trabalhando diante da covid-19. Ela, que costuma fazer encontros presenciais mesmo antes de ser contratada, precisou transferi-los para o virtual. ”Isso era uma coisa que eu nunca tinha feito, então foi bem diferente tentar manter bem perto essa mulher apesar da distância física”, diz a doula que, até o meio de março conseguiu fazer, em São Paulo, algumas consultas presenciais antes de partos. 

Eu sempre gosto de me apresentar. Geralmente eu marco um café, ou até uma visita para explicar o meu trabalho. Agora isso está sendo feito por videochamada. É um pouco diferente, mas já fui contratada depois da pandemia por mulheres que nunca me viram pessoalmente, o que é um pouco surreal”, conta. “Eu pensei que ia dar uma parada nos partos. Achei que ninguém ia querer contratar uma doula sem ter visto uma na vida.”

Diante dos relatos de muitas mulheres aflitas com uma possível solidão durante o parto, ela afirma que viu, neste momento, a possibilidade de resgatar a origem de sua função. “A doula existe para que a mulher possa dar conta do parto sozinha. A gente tem isso na nossa formação inicial. O parto é da mulher. A doula é um suporte, mas o nosso papel é fazer com que a mulher encontre a confiança nela mesma. E eu acho que a pandemia nos obrigou a resgatar a tutela de lembrar a mulher de que a potência é ela.”

A doula é um suporte, mas o nosso papel mesmo é fazer com que a mulher encontre a confiança nela mesma. E eu acho que a pandemia nos obrigou a resgatar a tutela de lembrar a mulher de que a potência é ela.Nathalia Duarte, doula em São Paulo

Janaina Santina, doula que atende nas periferias de São Paulo e também no ABC paulista, afirma que, neste contexto, optou por oferecer seus serviços de forma voluntária e online para algumas mulheres que já estavam em atendimento presencial com ela. “Para mulheres que estão na classe C, a pandemia impacta diretamente. Muitas ficaram sem renda ou estão se colocando em risco porque não podem deixar de trabalhar. Neste momento, muitas vezes, ou é ter o que comer ou pagar pelo serviço de doulagem, mesmo que por um valor menor.”

Janaina ressalta que os atendimentos a distância são importantes, mas que a presença da doula é significativa no momento do parto – em especial, em hospitais públicos. ”A gente tem números muito altos de violência obstétrica. E as mulheres que buscam uma doula, buscam justamente esse atendimento mais humano e ter uma experiência melhor”, aponta. “Estamos com um sistema de saúde sobrecarregado. É preciso olhar no olho, acolher, perguntar o nome, seguir o plano de parto. É o mínimo que qualquer profissional de assistência precisa fazer – seja doula ou não”, diz. 

Assim como as outras doulas entrevistadas pelo HuffPost, Janaina ressalta que “o parto é um momento único” e que as escolhas feitas pelas mulheres precisam ser respeitadas independente do momento. “A gente tem tentado atender neste momento mesmo remotamente, informando e acolhendo essas mulheres. O vírus é muito novo e tudo muda o tempo todo. É essencial que, quando chegar o momento do parto, elas tenham uma experiência positiva, que é para sempre.”

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