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25/03/2020 03:00 -03 | Atualizado 25/03/2020 07:35 -03

Hospitais de SP se mobilizam para evitar falta de máscaras e insumos contra coronavírus

"Nós estamos no limite", afirma professor José Roberto Ferraro, superintendente do HSP (Hospital São Paulo), ao HuffPost.

Em razão da sobrecarga que o surto do novo coronavírus deve provocar no sistema de saúde, profissionais dos maiores hospitais públicos da cidade de São Paulo, de forma voluntária, estão se mobilizando para sensibilizar autoridades, pedir doações e evitar a escassez de materiais básicos, como óculos, máscaras, luvas, toucas e aventais. Caso estejam em falta, tanto pacientes contaminados quanto profissionais da saúde que trabalham diretamente no combate à doença podem ser colocados em risco diante da covid-19.

“Nós estamos no limite”, afirma José Roberto Ferraro, superintendente do HSP (Hospital São Paulo), ligado à Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). “Nós estamos vivendo um momento muito diferente no mundo inteiro. E é importante termos uma campanha como essa para sensibilizar. Porque não basta termos só o nosso orçamento, nós precisamos conseguir comprar o material, mas essa está sendo a parte mais difícil”, diz ao HuffPost.

Assim como Ferraro, outros especialistas ouvidos pelo HuffPost Brasil apontam que, até o momento, não há falta de verba para a compra dos insumos - mas que, devido à alta demanda dos próprios hospitais, estoques estão chegando ao fim e fornecedores não estão preparados para atender a demanda. Outro empecilho é o fechamento de fronteiras, que impede que alguns produtos essenciais, como a máscara N95, cheguem ao Brasil. A baixa oferta eleva os preços do produto.

Comparativo realizado pelo HC (Hospital das Clínicas de São Paulo), considerado o maior hospital público da América Latina, aponta que, antes do surto de coronavírus, alguns itens básicos eram vendidos a R$ 1,35 e que, após a epidemia, os preços explodiram, chegando a R$ 27,90. O hospital estima que a demanda por máscaras e aventais aumentará 400% nos próximos meses.

“Nós queremos evitar um colapso, estamos nos adiantando. E isso não é uma coisa só do Hospital São Paulo. Vivemos uma situação anormal. Não é hora de ter anseios de lucro, de mercantilizar a crise. Produtores deveriam vender materiais a preço de custo para todos os hospitais”, critica Ferraro.

Rahel Patrasso / Reuters
Caixas vazias de máscaras de respirador N95 são vistas dentro de uma loja, em São Paulo.

Com o mote “Quem salva vidas precisa viver”, a campanha do HSP quer sensibilizar principalmente empresários e fabricantes para o momento de crise e a escassez de materiais. Por isso, pede doações, mas também contribuições em dinheiro que, segundo organizadores, será revertido na compra de equipamentos; em especial, aventais - que estão com estoques esgotados.

Ferraro chama atenção para o que a falta destes materiais pode acarretar. “Os profissionais de saúde estão adoecendo também [de covid-19]. Se um profissional se contamina, a gente perde uma mão de obra que vai demorar a voltar para a trincheira. Os casos tendem só a aumentar, e eu não sei até quando teremos essas pessoas com a gente.”

O médico afirma que, em poucos dias de campanha, o HSP já recebeu doações significativas tanto de material, quanto de dinheiro. “Do avental, que está acabando, conseguimos encomendar e uma primeira leva está para chegar. Mas a segunda leva, que também foi solicitada, está sem previsão. Temos um cenário crítico, mas há muita solidariedade também.”

Com a pandemia do coronavírus, o hospital, que tem uma alta demanda de quadros diversos de saúde em seu pronto-socorro, criou uma unidade respiratória para atender apenas casos suspeitos de covid-19. Assim, visa proteger pacientes com outros casos clínicos, como, por exemplo, infartos e acidentes.

“Nós somos um hospital universitário e o nosso pronto-socorro é aberto. Mas agora, diante da crise, quem chega com sintomas de insuficiência respiratória é atendido em um local especial”, diz o superintendente.

Na próxima sexta-feira (27), será inaugurada a primeira unidade de internação de coronavírus no HSP. ”É preciso intensificar o isolamento social. Porque, se vier muita gente ao mesmo tempo, o sistema de saúde não vai suportar”, alerta.

É preciso intensificar o isolamento social. Porque, se vier muita gente ao mesmo tempo, o sistema de saúde não vai suportar.José Roberto Ferraro, superintendente do Hospital São Paulo.

Já a intitulada #VemPraGuerra, campanha de voluntários do HC, chama atenção para a escassez e diz que “nossas armas básicas [contra o coronavírus] são máscaras cirúrgicas, máscaras N95, álcool em gel, aventais e toucas descartáveis. Além de máquinas de raio-x para que pacientes graves sejam acompanhados, sem risco de disseminação do vírus”.

Para garantir que não haja falta de material, foi criado um financiamento coletivo na internet. A meta é chegar a R$ 10 milhões em doações. “Fizemos uma estimativa do que precisaríamos para cerca de dois meses e chegamos nesse valor”, aponta Tatiane Menezes, coordenadora da campanha. Em menos de 24h no ar, a arrecadação tinha chegado a cerca de R$ 1 milhão. 

Segundo os organizadores, as doações serão revertidas para a compra de 40 mil máscaras N95, 670 mil máscaras cirúrgicas, 6.700 litros de álcool gel, 45.000 aventais, 211.000 toucas e 3 máquinas portáteis de raio-x, suficientes para 2 meses de atendimento, segundo as projeções de aumento dos atendimentos.

“É uma contagem regressiva ficarmos sem material. Infelizmente, com o avanço da pandemia, a demanda desses insumos esgotou os estoques e acarretou o aumento exponencial dos preços, o que amplifica a crise”, aponta Menezes.

Desde esta terça-feira (24), o complexo do HC, localizado em São Paulo, foi transformado em centro de tratamento de coronavírus, em uma operação considerada a maior já realizada na história do hospital. Serão destinados 900 leitos exclusivamente ao tratamento da doença, sendo 200 deles de UTI. 

Adriano Machado / Reuters
"É uma contagem regressiva ficarmos sem material", diz Tatiane Menezes, coordenadora da campanha.

“Estamos fazendo tudo para oferecer a maior quantidade de leitos possível à nossa população, ao mesmo tempo que buscamos preservar ao máximo a saúde de pacientes e colaboradores”, afirma Tarcisio Eloy de Pessoa Barros Filho, diretor da Faculdade de Medicina da USP e presidente do Conselho Deliberativo do HC, em nota enviada à imprensa. 

Ainda em nota, o HC afirma que “vem recebendo todos os recursos necessários por parte da Secretaria de Estado da Saúde para se preparar para esse momento” e que “adquiriu insumos como máscaras e luvas em grande quantidade com os recursos do governo do Estado de São Paulo e preparou leitos de UTI especificamente para receber pacientes com o coronavírus”.

O hospital ainda reitera que “não há falta de material” e que “todos os protocolos de segurança para pacientes e profissionais de saúde são seguidos rigorosamente”. 

“O Ministério da Saúde não faz mágica”

SERGIO LIMA via Getty Images
Luiz Henrique Mandetta, ministro da Saúde, em coletiva de imprensa sobre o novo coronavírus.

João Gabbardo dos Reis, secretário-executivo do Ministério da Saúde, em coletiva de imprensa realizada nesta terça, afirmou que o governo federal está ciente da escassez de materiais, mas disse que “o Ministério da Saúde não faz mágica”.

Segundo ele, nesta semana, ainda serão feitas 71 apreensões para evitar a venda de produtos que não podem ser exportados, como os de proteção individual e respiradores, por exemplo.

Gabbardo também orientou que pessoas sintomáticas, que precisem usar máscaras, optem por alternativas e deixem o uso das máscaras produzidas pela indústria para os profissionais de saúde. 

“A máscara, para a população, para as pessoas que querem, porque estão sintomáticas, impedir contaminar outras pessoas, é uma barreira física. Faz com pano. Quem não tem outra alternativa, faz com pano. Pega um tecido, coloca um elástico”, disse. 

O uso da máscara não é necessário para pessoas que estão sem sintomas da covid-19. “Vamos deixar as máscaras que têm registro, que são aprovadas pela Anvisa para serem utilizadas pelos hospitais, pelos profissionais da área da saúde”, recomendou o secretário.

Vamos deixar as máscaras que têm registro, que são aprovadas pela Anvisa, para serem utilizadas pelos hospitais, pelos profissionais da área da saúde.João Gabbardo dos Reis, secretário-executivo do Ministério da Saúde

Diante desse cenário, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) recomendou que máscaras N95 ou equivalentes possam ser reutilizadas pelo mesmo profissional de saúde por até 12 horas.

Em nota técnica, a agência afirma que excepcionalmente, “em situações de carência de insumos e para atender a demanda da epidemia da covid-19, a máscara N-95 ou equivalente poderá ser reutilizada pelo mesmo profissional”, desde que ela tenha sido retirada de forma a minimizar a contaminação.

Essas máscaras, fabricadas com material importado, filtram partículas no ar e garantem um proteção contra a contaminação que máscaras cirúrgicas convencionais não dão.

Em fevereiro, antes mesmo da OMS (Organização Mundial da Saúde) declarar a pandemia, o ministro da Saúde no Brasil, Luiz Henrique Mandetta, manifestou preocupação com o fornecimento de insumos do setor de saúde.

Grande parte dos materiais utilizados é produzida na China, que é ao mesmo tempo epicentro da doença e fornecedor dos produtos para o resto do mundo.  ”[A situação] preocupa porque o mundo passou a ter a China como supplier (fornecedor, em inglês). Estamos trabalhando como nossa indústria para que se possa abastecer”, disse o ministro.

Já no início de março, em comissão geral na Câmara dos Deputados, Mandetta, afirmou que os preços das máscaras chegaram a subir 1.800%. 

“A OMS tinha de estar preocupada em como arbitrar estoques. O Hemisfério Norte comprou todo o estoque, e nós estamos entrando no nosso inverno com os estoques baixos. Aquela história de que “se a farinha é pouco, meu pirão primeiro”, afirmou. 

Já o governador de São Paulo, João Doria, anunciou nesta terça (24) que cerca de 200 presos de várias regiões do estado vão confeccionar máscaras de proteção descartáveis para uso em procedimento simples (não-cirúrgicos). As máscaras serão vendidas a preço de custo.

Segundo a SAP (Secretaria de Administração Penitenciária), insumos para a produção de 320 mil máscaras descartáveis de proteção já foram adquiridos e a confecção dos materiais teve início já nesta terça. 

A previsão é que sejam produzidas 26 mil peças por dia em fábricas adaptadas especialmente para a produção das máscaras. Oficinas foram higienizadas e um protocolo de entrada e saída foi criado para garantir a higiene das peças.

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Reprodução
Cartaz da campanha "Quem salva vidas precisa viver", do Hospital São Paulo.

HSP (Hospital São Paulo), ligado à Unifesp:

Os materiais podem ser enviados diretamente para Rua Borges Lagoa, 570 (das 7 às 18h). Porém, todos aqueles que desejarem realizar doações de materiais devem entrar em contato pelo número de WhatsApp: (11) 9-9100-6224.

Contribuições à campanha do hospital feitas em dinheiro podem ser realizadas pela conta corrente no Banco Santander – Ag: 0212 ; Conta-corrente: 13004068-1. CNPJ: 61.047.007/0001-52. O hospital garante a prestação de contas da verba doada.

HC (Hospital das Clínicas), da Faculdade de Medicina da USP 

Divulgação
Imagem da campanha #VemPraGuerra, de profissionais voluntários do HC.

“A guerra pela saúde da população já começou. Nossa meta é 10 milhões de reais e cada doação fará diferença”, diz texto da campanha, mobilizada por profissionais de saúde de forma voluntária e alinhada com a direção do HC.

Para receber doações, um financiamento coletivo foi criado: www.charidy.com/vempraguerra 

Para quem quiser fazer doações diretamente ao hospital, basta enviar um e-mail para: hcdoacao.corona@hc.fm.usp.br

Em nota, o HC orienta que é fundamental checar a idoneidade das pessoas ou instituições antes de realizar qualquer doação e afirma que “os casos citados aqui são de parcerias oficiais do Hospital das Clínicas e os recursos arrecadados vão direto para a Fundação Faculdade de Medicina.”

Victor Moriyama via Getty Images
Com mais oito mortes confirmadas na última segunda-feira (23), subiu para 30 o número de mortes pelo novo coronavírus no estado de São Paulo.

Mais de 2 mil casos no Brasil

Subiu para 2.201 o número de casos confirmados no Brasil, de acordo com balanço divulgado pelo Ministério da Saúde nesta terça-feira (24). Já o número de mortes é de 46, sendo 40 no estado de São Paulo e 6 no Rio de Janeiro. No fim da noite, foram confirmadas mais duas mortes – a primeira no Amazonas e a primeira no Rio Grande do Sul.

O ritmo de crescimento de casos entre segunda e terça é de 16%. A evolução diária da doença está dentro da expectativa do ministéri, de acordo com o secretário-executivo, João Gabbardo. A previsão é de que os casos vão dobrar a cada 3 dias com as medidas que estão sendo tomadas no momento.

Apesar da alta capacidade de disseminação do novo coronavírus, em cerca de 80% dos casos de contaminação, os sintomas aparecem de forma leve. Menos de 5% dos casos evoluem para um quadro grave. A principal preocupação é com idosos e pessoas com doenças crônicas. Em infectados com menos de 50 anos, a taxa de mortalidade é de menos de 1%.

A doença pode ser transmitida pelo contato com secreções contaminadas. Entre elas, gotículas de saliva, espirro, tosse, catarro, contato pessoal próximo (toque ou aperto de mão e contato com objetos ou superfícies contaminadas), seguido de contato com a boca, nariz ou olhos.