MULHERES
25/03/2019 08:24 -03 | Atualizado 26/03/2019 21:07 -03

Massacres e tiroteios dizem mais sobre a 'crise da masculinidade' do que você imagina

Especialistas destacam que expressão da violência reforça padrão tido como 'masculino' e ultrapassa fronteiras.

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O que se observa em casos de massacres e tiroteios é que, geralmente, o atirador acumula frustrações ligadas à crise da masculinidade, apontam especialistas.

O massacre na escola estadual Professor Raul Brasil, em Suzano, o atentado que deixou ao menos 49 mortos em mesquitas da Nova Zelândia e o ataque que matou três pessoas e deixou cinco feridos na Holanda, têm mais do que as armas de fogo como denominador comum. Os três atentados recentes foram protagonizados por homens.

Na busca por respostas à motivação dos massacres, a relação entre o conceito propagado de masculinidade e a violência não é descartada por especialistas.

Eric Madfis, professor do departamento de Trabalho Social e Justiça Criminal da Universidade de Washington Tacoma, nos Estados Unidos, é um dos pesquisadores que tanta lançar luz sobre esta questão.

Em seu trabalho, ele busca traçar o perfil dos autores dessa modalidade de assassinato e compreender o que os motiva. Para ele, a relação entre masculinidade, saúde mental e, no caso norte-americano, o fácil acesso a armas de fogo, resulta em episódios de homicídio em massa.

“Eles às vezes passam dias, semanas planejando o ataque. (...) Eles costumam se fantasiar a respeito do dia [em que o ataque ocorrerá] e nesse processo se sentem fortes e masculinos”, afirmou em palestra realizada em 2014.

Para especialistas ouvidos pelo HuffPost Brasil, embora seja importante destacar que atentados e massacres são fenômenos complexos e com múltiplas causas, existe um padrão perceptível que ultrapassa fronteiras e perpetua aprendizado cultural e violento ligado ao que é “ser homem” hoje.

“Via de regra esses ataques são todos cometidos por homens e estão vinculados a um discurso de supremacia masculina que é racista e misógino e, atualmente, está em crise”, aponta Gabriel Ferreira Zacarias, professor do departamento de história da Unicamp e autor do livro No Espelho do Terror - Jihad e Espetáculo, em que expõe a espetacularização dessa violência.

O que se observa nesses casos é que, geralmente, o atirador acumula frustrações, como uma crise de masculinidade em grande parte dos casos, e, motivado também por ela, traça planos para validar socialmente aquilo que é esperado dele.

É uma vontade de produzir uma autoimagem que corresponde a um ideal de ‘eu’ que eles não conseguem atingir e talvez nunca o consigam.Gabriel Ferreira Zacarias, professor do departamento de história da Unicamp e autor do livro No Espelho do Terror - Jihad e Espetáculo

Para isso, busca armas, faz autorretratos e constrói uma autoimagem viril e bélica que se consolida, em alguns casos, com a exposição do ataque nas redes sociais. O suicídio, não raro nesse tipo de ação, também pode ser entendido como a solidificação dessa “identidade heróica”.

″É uma vontade de produzir uma autoimagem que corresponde a um ideal de ‘eu’ que eles não conseguem atingir - e talvez nunca o consigam”, diz Zacarias. “A questão do narcisismo em todos esses eventos é presente, porque o que o sujeito busca é isso: essa ilusão primária de que ele pode ter controle total do mundo através da expressão da violência e do poder, aniquilando todos à sua volta como validação de quem ele é ou deveria ser”, explica.

Segundo o pesquisador, essa lógica é tão perversa que o indivíduo chega a realizar uma espécie de “sacrifício em prol de sua autoimagem” como o que pode ser visto no caso de Suzano, em que os assassinos de 17 e 25 anos, antes de atacar a escola Raul Brasil, tiraram fotos com armas e publicaram nas redes sociais. Depois do atentado, um deles matou o outro e se suicidou.

“Ele [atirador] aceita a aniquilação de sua própria vida e o que resta são as imagens. Por isso eles ficam tão agarrados na necessidade de produzir registros destes crimes. Existe a crença de que essa imagem vai dar uma validade ― que é mais importante do que a própria vida, concreta.” 

Violência é aceita como positiva e como sinal de virilidade, e impor-se por meio dela costuma ser visto como algo heróico.Gabriel Ferreira Zacarias

No caso da Nova Zelândia, o assassino transmitiu ao vivo cenas do ataque com armas a duas mesquitas. Antes, ele tinha publicado um manifesto de mais de 70 páginas em uma rede social, no qual se descreveu como “etnonacionalista e fascista”. No caso da Holanda, as motivações do ataque ainda são desconhecidas mas autoridades não descartam ação terrorista.

“Esse sujeito [homem] não tem mais o lugar que ele tinha antes. Nesse sentido, esses eventos podem ser entendidos como fruto também desse sujeito masculino em crise. Não só da imagem da masculinidade, mas de uma forma de vivência dessa realidade subjetiva que não funciona mais na sociedade contemporânea”, afirma Zacarias.

O que “não funciona mais”, segundo Zacarias, é esta representação do que é “ser homem” na sociedade - que, antes, era entendido como ser o “provedor do lar”. 

“Eu acho que isso não tem a ver somente com a ‘crise de masculinidade’, mas com uma crise do que é ser sujeito. Hoje, esse sujeito ‘homem’, não tem mais o lugar de dominação que ele tinha antes”, afirma.

A violência como reforço positivo do que é “ser homem” 

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"A masculinidade é construída numa base de tensão. Tem raiz nas ideias de família patriarcal", afirma pesquisador.

Renan Theodoro, mestre em sociologia e pesquisador do NEV (Núcleo de Estudos da Violência) da USP destaca que não é possível associar a masculinidade diretamente como causa desses atentados e massacres ― já que existem outras motivações que podem ser analisadas, como religião e o contexto político de cada momento social. 

Mas o pesquisador aponta que a definição do que se entende por masculinidade hoje é “uma expectativa de como as pessoas devem ou não agir” e que ela é necessariamente atravessada pelo “questão bélica”. 

“A masculinidade, a definição dela, é atravessada pela ‘questão bélica’, que esse homem é guerreiro, que é preciso defender, estar sempre atento às ameaças, que podem chegar a qualquer instante”, diz.

“A masculinidade é construída numa base de tensão. Tem raiz nas ideias de família patriarcal. Nesse ‘ethos guerreiro’. A violência dá um salto de qualidade à masculinidade, como se a violência tivesse uma função social exclusivamente positiva.”

Segundo a psicanalista e doutora em psicologia pela USP Vera Iaconelli, essa “crise do sujeito” masculino passa, necessariamente, pela reprodução do que é entendido como “ser homem de verdade”, que inclui se relacionar de uma forma agressiva, não demonstrar medo e assumir postura violenta.

A violência dá um salto de qualidade à masculinidade, como se a violência tivesse uma função social exclusivamente positiva.Renan Theodoro, mestre em sociologia e pesquisador do NEV/USP

“Esse sujeito não consegue mais se reconhecer na lógica de dominação imposta. Atualmente, ele não sabe quem ele é, nem por si, nem pelos pares”, afirma Iaconelli.

“Então, quando existe um ato brutal desse, a fantasia, diante das formas de reconhecimento que ele não conseguiu construir, é marcar sua presença ‘pós-mortem’ por meio de um rosto que aparece nos jornais.” 

Outras formas de pensar a masculinidade

Segundo a psicanalista, há “outras formas de pensar o masculino” mas, “hegemonicamente, essa masculinidade vai ser associada à violência que é um modelo quase nazista, de supremacia, desse homem que tem posses, é branco e violento”.

“Isso é um modelo para eles que, quando não é alcançado, causa frustração. Os homens estão precisando pensar uma masculinidade altruísta, solidária, dialógica e até viril, que não seja associada à violência.”

Segundo Theodoro, do NEV, uma das respostas à “crise da masculinidade” é o aumento da própria violência.

“Pessoas violentas na sua forma de comunicação acabam jogando cada vez mais elementos que estimulam o aumento da violência no mundo. A gente chega a ver o que pode ser chamado de ‘banalidade da violência’”.

Segundo o Mapa da Violência de 2015, 94,2% das vítimas de homicídio por armas de fogo no país, em 2012, eram homens, sendo que 59% possuíam entre 15 a 29 anos.

Esses dados revelam que o número de mortes em locais públicos, em decorrência da violência urbana nas grandes cidades, ocorre principalmente entre jovens do sexo masculino, sendo a maioria negros.

Para Zacarias, da Unicamp, entender a complexidade do problema é começar a conceber essa outra forma de “ser homem”.

“E isso passa por começar a identificar de maneira clara, pressupostos nocivos que essa identidade carrega, que passa pela ideia de dominação da natureza do outro”, aponta.

Iaconelli pontua que não existe um caminho fácil para superar esta questão mas que, um caminho positivo é colocar esta discussão dentro de casa, nas escolas e produtos culturais.

″É preciso ver essa ‘crise’ como oportunidade não como fatalidade e colocar o debate na sociedade”, afirma.

“Do mesmo jeito que o feminismo teve efeito ― e tem cada vez que uma mulher conquista algo ―, esse ‘novo modelo masculino’ que propõe um novo jeito e não precisa passar pela violência também pode revolucionar.”