COMIDA
01/12/2019 01:00 -03

Como a masculinidade impede os homens de experimentar dietas baseadas em plantas

Alguns homens ainda encaram o consumo de carne como um dos grandes prazeres da vida, a despeito de seus custos para o meio ambiente.

É 2006, e um homem está revoltado. Ele está com fome. Está num restaurante com uma mulher bonita, e o garçom acaba de colocar diante dele um prato que não tem nada, ou quase nada. O prato parece um pequeno altar ao minimalismo no Instagram. Francamente, não vai resolver a fome dele. O homem está indignado. Está com fome.

O homem até nos explica isso. “Sou homem, ouça-me rugir, é demais para eu ignorar”, ele canta, emulando Helen Reddy, deixando sua companheira atônita e, como se isso não bastasse, insultando-a: “Estou com muita fome demais para me contentar com comida de garota”. (Ênfase dele.)

Na realidade, o que o homem realmente quer é o que todos os homens (supostamente) querem: carne. Então ele atravessa a rua e vai para uma hamburgueria comer carne, engrossando as fileiras de uma flash mob de homens numa marcha caleidoscópica de testosterona: hambúrgueres, bacon, fogo e músculo. E carros.

E já que tudo isso é um anúncio da Burger King, não poderia deixar de terminar com um pouco de poesia: “Coma como um homem, cara”, fala um cara – não, um homem – de voz profunda. Pronto, masculinidade restaurada. Fim de história. Vai um hambúrguer aí?

Tudo bem se você quer um hambúrguer. Não é de hoje que homens, carne e masculinidade estão enredados nesse tango cultural constante. A superforça de Popeye vem do espinafre, mas o refrão que mais se ouve ainda é que homem que é homem de verdade come carne. Logo, muitas pessoas ainda associam comer carne com hegemonia, poder e virilidade. (Sim, alguns homens acham que comer carne beneficia sua potência sexual. Leitor revela: não é verdade.)

Pergunte aos pesquisadores. “A sociedade norte-americana contemporânea encara a carne como o alimento arquetípico do homem, tanto que muitos homens não veem uma refeição sem carne como sendo uma ‘refeição de verdade’”, escreveram os psicólogos sociais Dr. Matthew Ruby e Dr. Steven Heine em um estudo de 2011 sobre carne, moralidade e masculinidade. Outra coisa interessante foi sua conclusão de que os vegetarianos são vistos como sendo “mais virtuosos” (algo aparentemente não na moda) e “menos masculinos” (idem) que os comedores onívoros.

Com produtos substitutos de carne da Beyond Meat e Impossible Foods hoje presentes em quase todas as redes de fast food, desde a A&W e a Tim Hortons até o Burger King (a mesma do anúncio em questão), não surpreende que os homens pareçam estar se agarrando desesperadamente à sua carne querida: parece que sua comida favorita e sua virilidade estão no limbo.

Mas o que é exatamente que torna a carne tão “masculina”?

Pense no que está em jogo: “Se você é vegetariano, as pessoas te encaram como alguém sensível; você deve ser emotivo e sentir empatia com animais, razão por que não os consome”, disse o psicólogo e pesquisador social Dr. Hank Rothgerber, da Bellarmine University, ao HuffPost Canadá. “Mas ser masculino é ser estóico, durão, não ceder às emoções e não se identificar com outras pessoas, o que dirá com animais.”

Assim, o homem vegetariano sensível, assim como o homem sensível, constitui uma afronta à ordem social, ou pelo menos ao modo que os homens imaginam que devam ser. E estudos de fato confirmam essa ansiedade: muitos já constataram que veganismo e vegetarianismo são vistos por muitos como práticas “femininas”. Parece que as pessoas têm a tendência a associar uma alimentação sem carne a qualificativos como “menos amável”, “fisicamente mais fraco”, ou, previsivelmente, “menos masculino”.

“Muitos comerciais de TV e revistas masculinas promovem essa ideia”, diz Rothgerber. “Eles jogam com a virilidade e apelam para o senso coletivo dos homens sobre o que significa ser um homem de verdade.”

Estudos revelam que as pessoas veem veganos e vegetarianos como menos amáveis, fisicamente mais fracos, e, previsivelmente, menos masculinos.

Não é preciso procurar longe para encontrar outras provas, além do anúncio da Burger King. Você já deve ter visto anúncios desse tipo. Um livro de receitas da revista Esquire intitulado Eat Like a Man (Coma como Homem). Um artigo publicado na Men’s Health argumentando que “verduras são para garotas”. Literalmente qualquer anúncio que promove a carne e o sexo heterossexual como parte do mesmo pacote. (No início do mês a Carl’s J., rede de fast-food que ganhou má fama por promover hambúrgueres com uma porção de sexo, anunciou que vai rever sua estratégia promocional.)

Mesmo o sociólogo francês Pierre Bourdieu, em sua grande obra de 1984 A Distinção – Crítica Social do Julgamento, descreveu os homens como “os comedores de carne naturais”.

“A carne, o alimento nutritivo por excelência, forte e criador de força, que confere vigor, sangue e saúde, é para os homens, que repetem o prato, enquanto as mulheres se satisfazem com uma porção pequena”, escreveu Bourdieu, prevendo de modo quase assustador o modo como os norte-americanos de hoje encarariam os alimentos “mais leves” como sendo “femininos” e os “pesados” como “masculinos”.

Não existe uma versão com que todos concordem quanto à origem dessa ideia, e provavelmente não é possível identificar uma origem com certeza. Algumas especulações remetem aos tempos pré-históricos, argumentando que a associação arraigada entre carne e masculinidade vem do período dos caçadores e coletores, quando os homens seriam os encarregados de ir atrás do alimento com suas lanças afiadas e sangrentas (uma atividade que ostensivamente exigiria agressão e força; poderíamos argumentar que ela seria a origem do mito da virilidade).

Para outros, seria uma questão sobretudo social, reforçada pelo marketing de produtos e campanhas políticas como aquela famosa da Primeira Guerra Mundial, na qual a carne era literalmente desviada das mulheres civis para os combatentes homens que precisavam de “carne suficiente” para conseguirem “dirigir um tanque, localizar um submarino ou pilotar um avião”.

Você já se perguntou de onde vem a #SegundaSemCarne? Durante a #1ªGuerra Mundial, pediam aos americanos que reduzissem seu consumo de carne, trigo e açúcar. Dê uma olhada nesse anúncio do governo da época: “Ajude o seu garoto do front. Use menos trigo e carne. Envie mais para ele.”

Como o consumo de carne contribui para a mudança climática

Mas o problema é que o mundo está em crise.

O gado precisa de muito espaço para pastar, e florestas são derrubadas para dar espaço aos bois (isso sem tocar no fato de que a derrubada de florestas é a segunda maior causa do aquecimento global). A produção de produtos animais é responsável por quase um quinto das emissões mundiais de gases estufa. Para produzir 454 gramas de carne bovina comercial gastam-se 8.180 litros de água. Essencialmente, o consumo viril de carne está prejudicando o mundo de maneira irreversível.

Um estudo conduzido no ano passado pela Dalhousie University descobriu que mais de metade dos canadenses está interessada em comer menos carne, mas que os homens têm tendência menor a abrir mão dela completamente. Apesar dos efeitos nocivos, muitos ainda encaram o consumo de carne como “um grande prazer da vida”.

O consumo de carne vermelha vem caindo pouco a pouco no Canadá desde 2004. Mas a queda não está sendo suficientemente rápida, nem tampouco compensa pelos hábitos alimentares do resto do mundo.

Um relatório de alto nível encomendado pelas Nações Unidas e publicado este ano descreveu as dietas à base de plantas como uma grande oportunidade para mitigar a mudança climática.

“Não queremos dizer às pessoas o que devem comer”, disse ao periódico científico Nature o ecologista Hand-Otto Pörtner, co-presidente do grupo de trabalho do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) sobre impactos, adaptação e vulnerabilidade. “Mas seria de fato benéfico, tanto para o clima quanto para a saúde humana, se as pessoas em muitos países consumissem menos carne e se a política criasse incentivos suficientes nesse sentido.”

Apesar dos dados científicos, o consumo de carne não está caindo. O Departamento de Agricultura dos EUA estimou que em 2018 seria consumida mais carne per capita que em qualquer ano anterior. “Por um lado temos os dados científicos sobre o clima, temos estudos e mais livros saindo que documentam tudo isso, mas por outro lado parece que tudo isso não apenas não está reduzindo o consumo de carne como está levando a um aumento”, diz Rothgerber. “É um grande enigma.”

Apesar da importância do que está em jogo, o consumo de carne não está diminuindo em nível mundial 

É um grande enigma que Rothgerber está tentando elucidar. Ele acredita que nos últimos anos vem ocorrendo uma pressão social crescente para as pessoas aderirem à dieta vegana ou vegetariana. Os protestos em defesa dos direitos animais estão mais frequentes. Em setembro, ninguém menos que Joaquin Phoenix apareceu numa estação de metrô de Toronto, onde estava para participar do Festival Internacional de Cinema da cidade, para participar de uma manifestação vegana.

Assim, não surpreende que alguns homens sintam como se sua carne – e por extensão sua virilidade – esteja sendo atacada. (Não chega a surpreender, tampouco, que os lançamentos frequentes de produtos da Beyond Meat em restaurantes tenham sido recebidos com hostilidade por homens.)

A resposta deles a essa pressão atmosférica vem sendo uma espécie de defesa ofensiva. “Basicamente”, diz Rothberger, “os homens estão se entrincheirando em sua posição e apresentando racionalizações de todo tipo para justificar por que comem carne.”

Um estudo recente que Rothberg conduziu descobriu que os comedores de carne hoje sofrem de uma dissonância cognitiva. A maioria das pessoas, diz Rothberger, gosta de animais, ou pelo menos não quer feri-los. Se uma pessoa atropela um animal na estrada, ela se entristece. As pessoas têm consciência de que sua alimentação não condiz com alguma coisa – quer seja a preocupação delas com o meio ambiente ou a preocupação da sociedade com os animais ―, e isso as deixa incomodadas. Para resolver esse desconforto elas ou modificam sua alimentação ou mudam estrategicamente o modo como a encaram.

“Elas se dizem que os animais não sentem dor, ou que temos o direito de comê-los, que a carne é deliciosa demais para que se possa abrir mão dela ou que a carne é necessária para nossa saúde”, diz Rothgerber. “Assim, os homens apresentam essas justificativas porque sentem que estão sob ataque, e essas justificativas reforçam seu comportamento ainda mais.”

Estudos constatam que mesmo homens que querem reduzir seu consumo de carne sentem vergonha de consumir comida vegetariana ou vegana em público. A ironia disso é que a atitude masculina a se adotar quando se está sendo pressionado por outros homens a optar por carne seria, presume-se, permanecer estoico e durão, recusar-se a se identificar com quem está fazendo pressão. Em vez disso, porém, a opção mais comum é a decisão de ceder às pressões.

“Descobrimos que há muitíssimos homens interessados em comer menos carne. Eles só precisam da permissão social para isso”, disse no ano passado uma das líderes do estudo, a Dra. Emma Roe, na Conferência Internacional Anual da Real Sociedade Geográfica, em Londres. Logo, há motivo para termos esperança: um estudo recente constatou que os homens acham as dietas à base de plantas muito mais satisfatórias que carne. “À medida que mais homens fazem opções vegetarianas ou veganas, essa permissão está aparecendo.”

É engraçado, então, que a solução, a resposta proposta pelos cientistas ao problema de tantas bocas esfomeadas neste nosso planeta devastado por desastres ambientais, parece ser .... “Comida de garota”. Isso mesmo.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost Canadá e traduzido do inglês.