Como as máscaras viraram um poderoso símbolo de expressão em tempos sombrios

As máscaras anunciam ao mundo nossa identidade e aquilo em que acreditamos.

No início, elas eram reservadas àqueles que precisavam estar mais preparados para enfrentar o coronavírus, as pessoas que trabalham na linha de frente contra a covid-19. Eram máscaras clínicas, azuis e brancas, um lembrete visual a todos em casa da presença de um vírus invisível.

Alguns meses nauseantes mais tarde, aqui estamos todos nós, habitualmente instruindo nossas mãos a prender dois elásticos atrás das orelhas para posicionar nossas máscaras, numa rotina diária que já virou tão familiar quanto escovar os dentes.

Aos poucos, aquele retângulo começou a ser visto em toda parte: no rosto das pessoas, como deve estar (ou jogado na rua, no chão).

E a onipresença das máscaras virou um problema. Não apenas as máscaras cirúrgicas são monótonas e desinteressantes de se olhar, como, e o que é mais importante, são objetos de proteção individual importantes. Não deveríamos então reservá-las para o uso dos profissionais de saúde, em vez de comprá-las para uso próprio?

Foi esse o argumento defendido no início do lockdown no Reino Unido pelo primeiro-ministro Boris Johnson, o secretário da Saúde, Matt Hancock, e companhia limitada.

Enquanto isso, uma guerra cultural corre solta entre as pessoas contentes em usar máscaras, ou pelo menos resignadas com isso, e as que não acreditam em sua importância, ou porque questionam a eficácia das máscaras no combate à covid-19 ou porque veem a obrigatoriedade do seu uso como uma violação de seus direitos.

A mesma guerra cultural está sendo travada nos Estados Unidos, alimentada pelos caprichos dos políticos e do grande público americano. Enquanto isso, em outros países – especialmente em partes da Ásia, onde o uso de máscaras faciais é comum e corriqueiro há décadas –, as pessoas custam a compreender qual é nosso problema.

Gostemos delas ou não, à medida que as máscaras foram sendo normalizadas, também começaram a ser personalizadas.

Como não poderia deixar de acontecer, as grifes de moda, incluindo de sportswear, buscando maneiras de diversificar seus produtos em tempos econômicos difíceis, estão capitalizando em cima da demanda, passando a produzir estilos e modelos de máscaras em todas as cores do arco-íris. Enquanto isso, fabricantes independentes vêm enchendo sites alternativos com suas criações.

Mulher usa máscara enquanto reza na Catedral Metropolitana no Rio de Janeiro. 
Mulher usa máscara enquanto reza na Catedral Metropolitana no Rio de Janeiro. 
Indígenas de diferentes etnias posam para retratos usando máscaras.
Indígenas de diferentes etnias posam para retratos usando máscaras.
Um manequim usa máscaras em uma loja de produtos populares em Brasília. 
Um manequim usa máscaras em uma loja de produtos populares em Brasília. 

Nossa máscara anuncia ao mundo o que somos. As máscaras refletem nosso estilo, nossas características. Elas são declarações de intenção, solidariedade e identidade.

E, enquanto muitas pessoas ainda estão usando as versões cirúrgicas, outras se rendem ao apelo de designs mais experimentais – e todos estamos procurando o estilo e jeitão que mais combina conosco.

Que máscara você vai escolher?

Como as máscaras viraram um poderoso símbolo de expressão em tempos sombrios
Como as máscaras viraram um poderoso símbolo de expressão em tempos sombrios

“O movimento das máscaras pode ser dividido em algumas categorias”, reflete o estilista londrino Kervirn Marc, que durante a pandemia começou a trabalhar com uniformes vintage do exército para criar máscaras com eles.

“Há as pessoas que, de alguma maneira, conseguiram comprar máscaras médicas; as que usam máscaras feitas em casa; as pessoas que vêm usando máscaras fashion que refletem sua personalidade; pessoas que andam usando máscaras de gás literalmente pós-apocalípticas, e, a tendência que mais tem se destacado: as máscaras que servem de declaração de posição política, principalmente em função de todos os protestos recentes, especialmente os do movimento Black Lives Matter.”

Quer elas escondam o rosto todo e sejam pretas, para proteger o anonimato das pessoas em um protesto, ou cor-de-rosa com margaridas brancas para ser usadas num passeio no parque, as máscaras hoje são tão individualizadas quanto piercings, tatuagens ou bijuterias.

Marc diz que se interessa pela “estética de guerreiro” que uma máscara pode conferir a quem a usa.

“Criando a imagem subversiva do rebelde e combatente pela liberdade, a máscara pode ser um poderoso símbolo de contestação”, ele disse ao HuffPost UK. “E as máscaras também são telas perfeitas para artistas fazerem uma declaração.”

Esse item criado pela mais prática das razões – para proteger as pessoas próximas de você das micropartículas de sua respiração e, idealmente, proteger você também – possui o poder de ser tanto expressivo quanto altamente simbólico.

“Leve uma máscara” foi a orientação principal transmitida aos participantes das marchas na esteira do assassinato brutal de George Floyd. Muitas das máscaras usadas traziam estampadas a mensagem “Black Lives Matter’’, comunicando-a e também colocando-a em prática, ao proteger o usuário.

Uma máscara usada como declaração de posição criativa ou política torna-se catártica, símbolo de resistência contra as marés opressoras do coronavírus e também do racismo.

As máscaras viraram uma maneira de transmitir mensagens de solidariedade e individualismo, também foram convertidas em commodities por grifes diversas.

As imagens acima mostram máscaras vistas nos protestos do movimento Black Lives Matter em Londres.   
As imagens acima mostram máscaras vistas nos protestos do movimento Black Lives Matter em Londres.   

Na esfera comercial, uma grife que procura se destacar no mercado repleto de nomes é a francesa Le Colonel, com sua linha de máscaras reversíveis.

“Agora que será compulsório usar máscara em certas circunstâncias, as pessoas não vão necessariamente querer cobrir o rosto com aquele quadrado médico azul”, explica o estilista chefe da grife, Rémi, cuja coleção inclui máscaras militares, algumas de estampas animais e outras que remetem à década de 1990.

“As pessoas podem escolher qual ‘rosto’ querem mostrar ao mundo em qualquer dia, ou em ocasiões diversas – por exemplo, dependendo de estarem indo trabalhar ou de ser o fim de semana”, explica Rémi. Mas não se esqueça de lavar sua máscara antes de virá-la do avesso e usar com o outro lado para fora.

“Aquilo que optamos por usar no dia a dia reflete como queremos nos mostrar a nós mesmos e às pessoas em volta”, concorda Angela Morris Winmill. “As roupas são um reflexo de quem somos e de nossa personalidade, do que fazemos e de como nos sentimos.”

A artista australiana, residente no Reino Unido, é responsável pela exposição virtual de arte que está na M1 Art Gallery, em Londres, durante o lockdown, injetando um diálogo crítico nas discussões sobre a humilde máscara.

“A máscara virou minha nova tela, e foi instigante criar ideias usando os materiais e recursos de meu ateliê em casa”, explica Morris Winmill.

As máscaras expostas foram criadas com cédulas de dólar amassadas, flores ou arame farpado. Uma delas, feita de peças de computador, é oferecida pelo preço de £1.000,oo (R$7.ooo).

A galeria diz que isso faz dela a máscara mais cara do mundo. Mas, diante da ascensão das máscaras feitas por grifes de luxo, será que alguma pode realmente reivindicar esse título?

Morris Winmill reflete: “A máscara é uma nova ferramenta de expressão, através de cores, estampas, design e enfeites. É importante individualizá-la, especialmente se o uso delas virar o novo normal.”

“Temos centenas de expressões faciais que o cérebro humano interpreta”, ela prosseguiu. “Nossas novas expressões agora incluem uma máscara que nos cobre do nariz ao queixo, ocultando parte do normalmente veríamos no rosto de alguém.”

Essa ideia da representação intencional é reafirmada pela estilista Maria Williams, de Dallas, que combina suas máscaras feitas à mão, em tons que vão do dourado ao azul cintilante, com suas roupas e acessórios. Mas ela enxerga aspectos positivos no uso delas.

“A maioria das pessoas, quando usa máscara, provavelmente sente que está ficando escondida. Já eu, quando uso minha máscara de criação própria, me sinto vista”, ela disse ao HuffPost.

“Sinto que estou representando uma expressão criativa de mim.”

Em suas criações cintilantes, Williams ampliou o conceito da máscara para mais além do que simplesmente cobrir a boca e o nariz da pessoa que a usa. Suas máscaras combinam com vestidos, capas e toucas de cabelo, complementando-as.

Ela também gosta da ideia de estampar mensagens em suas máscaras, para jogar com a ideia de que as máscaras de alguma maneira nos silenciam.

“Para mim, a máscara é um símbolo que nos pede para falar menos e ouvir mais”, ela disse, explicando que a máscara nos permite “ouvir e compreender” grupos e narrativas culturais diferentes, fora de nossa própria experiência de vida.

Mas, além de nos ajudar a entender uns aos outros como indivíduos, o uso de máscaras indica que estamos passando por uma experiência compartilhada.

Para Williams, “As máscaras e a pandemia de Covid realmente permitiram às pessoas se retirar para seu próprio interior, literal e figurativamente falando, para podermos ouvir e observar o que está acontecendo no mundo e promover transformações positivas”.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost UK e traduzido do inglês.