MULHERES
16/02/2020 04:00 -03 | Atualizado 17/02/2020 14:26 -03

Martha Robles: 'Não temos sequer o direito de estarmos vivas. Ao menos não no México'

Em entrevista ao HuffPost, escritora mexicana, autora de 'Mulheres, Mitos e Deusas', fala sobre cultura, feminismo e a crescente violência contra as mulheres em seu país.

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Manifestante dispara fogo na entrada do Palácio Nacional, na Cidade do México, após outros manifestantes pixarem "Estado feminicida".

“No México e na América Latina, nesse momento atual, temos que lutar pela vida. Por quê? Porque estamos sendo mortas. Porque estamos sendo estupradas. Porque somos atingidas por diversos tipos de violência. Qual é a prioridade? A prioridade é a vida.”

A afirmação acima é da socióloga, escritora e professora mexicana Martha Robles, de 72 anos, em referência aos recentes casos de feminicídio no seu país natal. Em entrevista ao HuffPost Brasil, ela enfatizou: “Temos que lutar pelas nossas mortas”. “Isso me preocupa bastante. Como mulher, como pessoa, como mexicana, como latino-americana. Temos que nos manter vivas. Não temos nem sequer o direito de estarmos vivas. Ao menos não no México”, pontua. 

Feminicídio no México

Desde o final de 2019 o país foi tomado por protestos que pediam “nenhuma morte a mais”, em alusão ao movimento argentino Ni Una Menos. Mas desde o último fim de semana, protestos na Cidade do México se intensificaram devido à notícia do assassinato de Ingrid Escamilla, de 25 anos. A jovem, vítima de feminicídio, teve seu corpo brutalmente mutilado. Francisco Robledo, parceiro de Escamilla, confessou o crime à polícia e foi preso. 

 

Protestos nas ruas e reações nas redes sociais se intensificaram quando tabloides da capital mexicana replicaram fotos do corpo da vítima. O crime aconteceu em 9 de fevereiro e reflete situação alarmante no país. Segundo dados oficiais, assassinatos de mulheres cresceram 137% nos últimos cinco anos no México. Só em 2019, o país registrou 1.006 vítimas de feminicídio, mas as autoridades apontam que, devido à subnotificação, podem ser maiores. 

Robles é autora do livro Mulheres, Mitos e Deusas (Editora Aleph) ― escrito em 1996, e relançado no Brasil em 2020 ―. Em sete capítulos, a socióloga faz uma análise inteligente de arquétipos, de mitos e de lendas construídos em torno da representação feminina, demonstrando como eles reafirmaram o machismo na cultura ocidental. Ao reescrevê-los sob a perspectiva de uma mulher, o livro busca ressignificar qual é o papel do “feminino” no mundo.

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Um manifestante segura estêncil que diz "méxico femicida" na Cidade do México, em 14 de fevereiro de 2020 durante manifestação contra a violência após o assassinato de Ingrid Escamilla.

Em 445 páginas, a escritora conta a história de 53 mulheres, entre elas, as que estão representadas na mitologia grega, passando por figuras bíblicas como Dalila e Virgem Maria até chegar à rainhas como Catarina de Medici e, em seguida, a perspectiva de mulheres do tempo histórico atual como Sóror Juana Inês de La Cruz, Virginia Woolf, María Izquierdo e Simone de Beauvoir.

“E por que eu escrevi sobre isso? Porque eu queria saber como outras mulheres viveram. Quais eram os obstáculos que elas enfrentaram, contra o que elas deveriam lutar”, diz. “A opressão sempre esteve em nosso mundo. Não tenho esperanças. Sou muito pessimista porque o que a mitologia te ensina é que o homem é o centro. E o que precisamos entender é a nossa relação com o poder”, completa.

Além da perspectiva vivida pelas mulheres representadas na mitologia ou tomadas pela violência, como Ingrid, ela aponta uma possível de solução ― mesmo que entendida como individual.

Na sua análise, uma das formas de compreender e superar o cenário degradante e violento ao qual as mulheres estão submetidas seja fazer uma visita ao passado ”porque quanto mais você sabe sobre a condição feminina, mais capaz você se torna para fazer algo para você mesma [dentro deste cenário]”.

Autora de outros livros sobre a condição das mulheres, Robles é mestre em Letras Hispânicas e foi professora e pesquisadora da UNAM (Faculdade de Ciências Políticas e Sociais da Universidade Nacional Autônoma do México). Por 21 anos, também escreveu diariamente sobre cultura e política para o jornal Excélsior, um dos mais antigos periódicos do país.

Leia a entrevista completa:

HuffPost Brasil: Como você enxerga o movimento feminista na América Latina? No México, as ruas foram tomadas por protestos logo no início de 2020 após altos índices de assassinatos de mulheres no país...

Martha Robles: Nós estamos vivendo um movimento muito intenso. Por que? Porque, sim, eu entendo que estamos cansadas de assédio sexual, da violência. Mas não é a mesma coisa viver em Chiapas - onde mulheres estão no século 18 - e viver na Cidade do México, estudando na Universidade Nacional do México - onde os estudantes têm sido muito agressivos atualmente. As pessoas estão chateadas, as pessoas estão fartas do que está acontecendo porque elas não conseguem se colocar em movimento. Não conseguem crescer economicamente, não conseguem crescer em oportunidades. Nós [mexicanos] não temos garantias básicas - e é por isso que estamos tão chateados. Mas não podemos dizer que isso é feminismo; isso não é feminismo, isso é um “basta”! É outra situação.

Mas não importa que se misture com o feminismo, não importa. Porque não estamos lutando para sermos felizes, por nossa dignidade, não estamos lutando por melhores condições de vida dentro da nossa cultura. A cultura, nesse momento, não está em movimento. Está paralisada, e isso é frustrante. As feministas mexicanas são vítimas desta situação, mas não entendem dessa maneira. Então porque elas estão tão agressivas? Porque nesse instante o México é uma sociedade marcada pelo narcotráfico. A cada quatro minutos uma mulher é assassinada no país. Então como você está falando de feminismo enquanto temos essa violência? Isso não é só sobre feminismo e a situação das mulheres, é uma situação onde medo, desimportância e a inabilidade de fazer algo para combater esses problemas se misturam. Não temos condições de construir uma sociedade digna - e isso é um problema.

De que forma os mitos e representações do feminino construídas ao longo da história influenciam, de alguma forma, o movimento feminista? 

O feminismo, ao redor do mundo, depende da cultura. Quando uma cultura se transforma, as mulheres também se transformam. Também temos que descobrir que tipo de mulheres queremos ser, como queremos nos expressar. E quanto mais conhecermos as mulheres do passado - chegando até os nossos tempos - mais teremos conhecimento. Não só para lutar, mas para compreender em que tipo de cultura queremos viver. Temos que lembrar que as mulheres não são iguais ao redor do mundo. Todos se transformam, dependendo da tecnologia, da educação, do nível de democracia, da situação política. Não é o mesmo viver em Londres ou na Africa. Não é o mesmo viver em Oaxaca, no México, e no Paquistão.

E quanto mais conhecermos as mulheres do passado - chegando até os nossos tempos - mais teremos conhecimento.Martha Robles
Divulgação
Capa da reedição de "Mulheres, Mitos e Deusas", de Martha Robles, publicado pela editora Aleph no Brasil.

Então não podemos falar de “um” único feminismo. Temos que falar sobre níveis distintos de compreensão. E níveis distintos de democracia: na América Latina, não temos democracia. Estamos vivendo no passado em comparação com a Europa, com os Estados Unidos. É muito bom ler, nesse momento, sobre os feminismos de várias partes do mundo porque assim podemos entender - e precisamos entender [como nos articular]. Mas não podemos [as mulheres latino-americanas] nos moldar como norte-americanas, canadenses ou espanholas. Temos de viver de acordo com nossa realidade. E nossa realidade está muito atrás, segundo outras culturas. Então, quanto mais estudamos, analisamos e entendemos nossas circunstâncias mais capazes nos tornamos de lutar por igualdade, democracia, educação.

Temos que ser pessoas melhores - primeiro, temos que estar vivas. Não temos esse direito - ao menos não hoje em dia no México.Martha Robles
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Grupos feministas organizam homenagem à artista Isabel Cabanillas, morta a tiros enquanto viaja de bicicleta para sua cidade natal, Juarez Chihuahua, México, em 19 de janeiro de 2020.

Você escreveu Mulheres, Mitos e Deusas em 1996, uma década em que a luta pelos direitos das mulheres no mundo estava, de certa forma, adormecida. O que te inspirou a escrever um livro como este e a investigar representações do feminino à época?

Como escritora, tenho sido muito curiosa sobre a condição feminina. Tenho três ou quatro livros sobre mulheres. Tenho um sobre nossa situação no século XX, no capitalismo. Porque é minha realidade. Porque é difícil viver, ser um humano, pensar. É difícil escrever. É muito difícil ser uma escritora, e especialmente uma ensaísta - eu amo ensaios. No México, sou possivelmente uma das únicas ensaístas, e isso é um problema. Isso mostra o nível de subdesenvolvimento que temos. Quando olhamos para a literatura, ela indica o quão subdesenvolvido somos. E por que eu escrevi sobre isso? Porque eu queria saber como outras mulheres viveram. Quais eram os obstáculos que elas enfrentaram, contra o que elas deveriam lutar? Entendo que para qualquer um existem situações delicadas, mas existem situações piores do que outras. Em nossas culturas é muito difícil viver como mulher - e na minha geração era pior. Era realmente terrível. Mesmo como está agora não se iguala.

E também porque quanto mais você sabe sobre a condição feminina, mais capaz você se torna para fazer algo para você mesma. Por exemplo, se você ler Virginia Woolf agora, se estiver lendo Marguerite Yourcenar neste momento, se estiver lendo Susan Sontag, mais capaz você se torna para entender sua situação e transformá-la. Temos que lutar pela educação. Por uma cultura melhor. O conceito de igualdade é o conceito de dignidade. Eu não entendo porque as mulheres não estão lutando para serem mais felizes, para serem mais dignas, para serem pessoas melhores. A situação do casamento, as relações com o corpo, a questão do sexo, são situações secundárias. Você tem que lutar para ser uma pessoa melhor em uma sociedade que é dominada pela violência e criminalidade. Então é importante entender o que é prioridade. 

Temos que lutar pelas nossas mortas. É importante ler um livro sobre mulheres? Sim. Mas também é importante ler sobre a história de nossa cultura.Martha Robles
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No México, manifestantes protestam contra os feminicídios em Ciudad Juarez. "Somos mulheres que lutam e resistem por uma vida digna e livre de violência machista", diz faixa.

Se vivermos em circunstâncias diferentes, temos que entender o que deve estar em primeiro lugar. Quer dizer, no México e na América Latina, nesse momento, temos que lutar pela vida. Por quê? Porque estamos sendo mortas. Porque estamos sendo estupradas. Porque somos atingidas por diversos tipos de violência. Qual é a prioridade? A prioridade é a vida. Por quê? Porque não temos o direito de viver. Se eu sair na rua agora, eu irei tremendo pois no México posso ser assassinada. O que vem antes? Igualdade no ambiente de trabalho ou estar viva? Eu preciso estar viva. A prioridade é viver. Temos que lutar pelas nossas mortas. É importante ler um livro sobre mulheres? Sim. Mas também é importante ler sobre a história de nossa cultura. Compreender sobre as revoluções do conhecimento que aconteceram em todos os lugares. Por que os países latino-americanos não foram capazes de se desenvolver? Porque estamos tão atrás de outros países? Isso me preocupa bastante. Como uma mulher, como pessoa, como mexicana, como latino-americana. Temos que estar vivas. Não temos nem sequer o direito de estarmos vivas. Ao menos não no México.

Um traço importante do livro é que ele joga luz sobre histórias de figuras latino-americanas e da própria cultura Mexicana, como Malinche, Zapopan e María Izquierdo. Por que essa escolha? 

Porque eu posso expressar claramente a cultura mexicana e suas circunstâncias. Você é suas circunstâncias - e você não pode expressar o que você não é. Você deve mostrar o que é. María Izquierdo é um México que não está morto, é um México vivo, uma cultura viva que não podemos negar. Temos muitos indígenas, temos uma importante população indígena que vive como se no século 18 ou 19. E aquela psicologia da fiesta, a psicologia que Octavio Paz analisa claramente em O Labirinto da Solidão, está muito bem expressa nas obras de María Izquierdo, especialmente com ela. Você pode ver na Virgem de Guadalupe, você pode ver na religião, você pode ver nessa sociedade que não é capaz de construir uma democracia, uma igualdade. Essas mulheres estão expressando esse mundo.

O quanto das histórias mitológicas que foram contadas sobre as mulheres afetaram a forma como hoje, no ocidente, nós entendemos sobre o que é ser uma mulher e qual é seu papel em uma sociedade?

O mito é o inconsciente. Quando você estuda os mitos e a mitologia - especialmente a grega -, você a percebe como um mapa. Como se você abrisse algo para o entendimento. Por exemplo, Pandora, da caixa de Pandora. Qual a concepção da curiosidade? A concepção da inteligência? E por que a mulher é vista como um problema em uma sociedade patriarcal? Quando você estuda o mito, a mitologia, você compreende como Freud, por exemplo, entendeu o inconsciente. Ali está a resposta. A primeira resposta de nossa realidade.

Estudo a Grécia desde que eu era uma estudante e sempre, todo o meu trabalho como escritora, leva a marca da Grécia. Não consigo escrever sem a Grécia em meus pensamentos. Não apenas a mitologia, mas a filosofia e tudo mais que aprendi desta civilização. Eu não conseguia entender minha própria realidade sem entender quem foi Atena. Atena era o desejo do pai. Atena é nascida da cabeça do pai - assim como o que fizeram de nós.

A opressão sempre esteve em nosso mundo. Não tenho esperanças [risos]. Sou muito pessimista porque o que a mitologia te ensina que o homem é o centro.Martha Robles
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Detalhe de uma cruz de madeira durante um protesto em reação ao feminicídio da ativista Isabel Cabanillas de la Torre em Ciudad Juarez, Chihuahua, em 21 de janeiro de 2020.

Você, mulher, é a resposta do anseio masculino. Você é uma resposta, e os gregos te explicam perfeitamente. Ele te controla, visto que é a cabeça. Atena te explica perfeitamente - e eu explico isso no prólogo de meu livro. Atena é precisamente um símbolo do que temos sido por séculos e séculos. O que é a mãe? A mãe é a sabedoria, e ela está no estômago de Zeus. A sabedoria está dentro de Zeus, pois ele pegou a sabedoria e a comeu [na mitologia grega, Zeus come sua esposa, Métis, transmutada em inseto]. Atena é seu desejo, está na sua cabeça. Se você não compreende essa problemática de estar no estômago do Deus, do homem, e que fala de dentro da perspectiva dele, você não consegue entender as dificuldades dessa mentalidade.

O importante agora é essa última questão: entender quais são nossos novos papéis neste mundo contraditório, controlado por robôs e máquinas, por um lado, e superpovoado, por outro. No meio disso, o que temos? Temos uma miséria terrível de milhões e milhões de pessoas e no centro dessa miséria está a mulher. A mulher com as crianças. Estamos sendo afetadas por isso e estamos no centro, no eixo deste mundo. A opressão sempre esteve em nosso mundo. Não tenho esperanças [risos]. Sou muito pessimista porque o que a mitologia te ensina é que o homem é o centro. E o que precisamos entender é a nossa relação com o poder. Essa é a questão - e este não é um problema que cabe ao feminismo resolver, é um problema da a humanidade.