MULHERES
13/06/2019 14:47 -03 | Atualizado 14/06/2019 21:43 -03

O que a chuteira que Marta usou na Copa diz sobre igualdade de gênero no futebol

Atacante entrou em campo pela 1ª vez na Copa feminina contra a Austrália usando chuteira uma preta e sem nenhum patrocínio.

Divulgação
Marta usa chuteira pedindo por igualdade de gênero em sua primeira participação na Copa feminina.

Se as mulheres jogam futebol da mesma forma que os homens, por que elas não recebem o devido reconhecimento, apoio e remuneração? Este é o questionamento que Marta Silva trouxe para a Copa nesta quinta-feira (13).

A melhor do mundo chamou a atenção por usar uma chuteira preta e sem qualquer patrocínio durante sua participação no jogo entre Brasil e Austrália, na Copa feminina. Esta foi a primeira vez que Marta entrou em campo no mundial.

Chamando atenção para a igualdade de gênero no futebol, a chuteira leva apenas o símbolo azul e rosa da campanha #GoEqual, da qual a atacante faz parte e que que visa jogar luz sob esta questão mundialmente.

″#BRAxAUS não é a única rivalidade que as mulheres têm que enfrentar no esporte hoje”, destacou a campanha em suas redes sociais. “Equidade é algo pelo qual devemos todas e todos lutar. Afinal, somos iguais”, destaca o texto.

Eleita seis vezes a melhor jogadora do mundo, a atacante está sem patrocínio atualmente porque diversas marcas ofereceram a ela um quantia muito abaixo do que oferecem para o time masculino.

No jogo de hoje, Austrália ganhou do Brasil por 3 a 1. Em um jogo disputado, o time brasileiro enfrentou dificuldade após um gol contra. Mas a presença de Marta em campo foi decisiva. Em sua estreia na Copa, a camisa 10 marcou o primeiro gol e se tornou a 1ª jogadora mulher a gols em 5 Copas do Mundo.

Com o gol de Marta, ela se iguala ao jogador Miroslav Klose, que tem um total de 16 gols em Copas ― ela marcou em 2003, 2007, 2011, 2015 e agora, em 2019. Qualquer outro gol marcado por ela pode quebrar este recorde e Marta pode se tornar a maior artilheira das Copas. O jogador Ronaldo fica logo atrás com 15 gols marcados pela seleção brasileira.

Futebol feminino é visto no Brasil e no mundo

Criado em 1991, o torneio mundial feminino que ocorre neste mês na França, foi ignorado durante muitos anos não só por emissoras de televisão abertas e fechadas no Brasil, mas pelo público em geral.

Até 1979, a prática do esporte era proibido para mulheres no País, o que traz resquícios até hoje em investimentos nesta modalidade, o que inclui falta de patrocínios das empresas e baixa remuneração das atletas.

Neste ano, pela 1ª vez, quatro canais nacionais possuem o direito de transmissão ao vivo da competição. Na TV a cabo, todos os jogos serão transmitidos pelos canais SporTV e Band Sports. Na TV aberta, a TV Globo exibirá apenas jogos do Brasil. Já a Bandeirantes, tem programação especial.

Naomi Baker - FIFA via Getty Images
Marta com as chuteiras pedindo igualdade de gênero no jogo entre Brasil e Austrália.

A transmissão reflete na visibilidade do campeonato em si, mas também escancara as diferenças entre os times masculinos e femininos de futebol ― mote da campanha apoiada por Marta no jogo de hoje.

Ainda hoje, a Fifa (Federação Internacional da Associação de Futebol) destina apenas cerca de 1% de seus investimentos para o futebol feminino.

A jogadora mais bem paga do mundo, a norueguesa Ada Hegerberg, ganhadora do prêmio Bola de Ouro deste ano, recebe cerca de US$ 450 mil (cerca de R$ 1,7 milhão) por ano. O valor é cerca de 325 vezes menor que o que o atacante da seleção argentina e do Barcelona, Lionel Messi, ganha.

Elsa via Getty Images
Jogadoras da seleção brasileira comemoram gol em partida contra Austrália.

 

Segundo artigo da The Atlantic, no caso do Brasil, o imaginário sobre o “país do futebol” leva a acreditar em um “cenário de magia” que nem sempre existe dentro de campo. A revista aponta que o time brasileiro da modalidade feminina operava, em 2015, com orçamento de R$ 1,5 milhão por ano, enquanto só o salário de Neymar, atacante da seleção masculina, era de R$ 1 milhão por mês.

Neste ano, a Copa feminina terá um recorde de US$ 30 milhões (R$ 116 milhões) em prêmios e o valor do vencedor será de US$ 4 milhões (US$ 15 milhões) ― o que é equivalente a apenas 50% do que cada uma das 16 equipes eliminadas na última copa masculina levou para casa.