ENTRETENIMENTO
04/11/2019 03:00 -03

Quem é Mark Ronson, o cara do momento

Em documentário sobre sua carreira, produtor fala dos “arrepios” que sentiu ao criar os hits “Shallow” e “Uptown Funk”.

Mark Ronson está pronto para contar sua história em How to Be: Mark Ronson, documentário do YouTube Originals.

O produtor, que já ganhou Grammy e Oscar e está por trás de hits como Shallow, de Lady Gaga, e Uptown Funk, com Bruno Mars, mostra para os fãs de forma íntima como aconteceu sua ascensão na indústria musical. Ele se abre sobre sua vida e sua carreira e, ao longo do filme – produzido em parceria com a BBC Music – há entrevistas inéditas como colaboradores, amigos e parentes de Ronson, incluindo Lady Gaga, Bradley Cooper, Boy George, Sean Lennon e Rashida Jones.

“Como é produzido pela BBC, sabia que não seria nada louco ou obsceno. Pensei: ‘OK, sinceramente, se eles fizerem como sempre fazem, acho que vai ficar legal’”, disse Ronson ao HuffPost.

Conversamos com ele sobre tudo, do estado atual da música à história da composição de Shallow.

HuffPost: Você teve um ano e tanto. Como resumiria este último ano?

Mark Ronson: São algumas coisas diferentes, e emocionalmente também aconteceram várias coisas... Se eu pensar na época em que lançamos Nothing Breaks Like a Heart... e quando tocamos no Saturday Night Live. Já tínhamos tocado lá, mas toda vez é assim, é mais que o Super Bowl. É esse marco cultural – a coisa mais importante da minha vida, de criança que cresceu em Nova York. E então foi meio loucura tocar com Miley [Cyrus].

Com relação a Shallow, foi incrível... Já tive outras sensações parecidas no passado, quando nem tudo da sua vida está no lugar e tudo fica meio borrado, ou então avassalador. Mas acho que dessa vez, pelo momento que estou vivendo, mais centrado e talvez por causa da terapia, o que for, estou mais presente. Isso é legal.

NBC via Getty Images
Ronson e Cyrus se apresentam no “Saturday Night Live”, em 15 de dezembro de 2018.

Como foi ter sua vida e sua música contadas dessa maneira? No que você pensou quando estava assistindo ao documentário?

Acho que o disco abriu as comportas em termos de fazer algo emocionalmente sincero e vulnerável. Tinha dado algumas entrevistas [na época do lançamento do disco Late Night Feelings] e fiquei meio surpreso com a minha sinceridade. Tem alguma coisa muito libertadora em ser sincero. Quando você pode falar e ser direto e não ter de editar e ficar pensando nas coisas com antecedência, às vezes pode dar confusão. Mas, no geral, acho que é mais sincero, e as pessoas sentem e gostam disso.

No documentário, Lady Gaga diz que você é um dos melhores produtores dos nossos tempos. Me conte como foi compor Shallow, de Nasce uma Estrela.

Quando ela cantou pela primeira vez Tell me something boy, ou Tell me something girl, não lembro o que veio primeiro, fiquei arrepiado. Lembro da combinação de acordes que [o músico] Andrew [Wyatt] estava dedilhando e a melodia que ela cantou. Sabia que era algo especial, porque toda vez que você tem momentos como esse, de ficar de arrepiado, se conseguir colocar a música inteira nessa zona, tudo certo. E isso não acontece sempre. Não dá para ter uma música inteira assim. Você precisa ter idas e vindas – não dá para ter uma música inteira que te deixe arrepiado. Você precisa de tensão e relaxamento.

Kevin Mazur/VF19 via Getty Images
Ronson e Gaga posam com o Oscar que ganharam por Melhor Canção Original, 24 de fevereiro de 2019.

A gente já tinha trabalhado juntos antes, mas você sabe quando está compondo algo que é bom, que pega, e também sabe quando está compondo algo que te pega fundo. Mas só depois de o filme colocar esse peso emocional extra que a música virou o que virou. Foi o filme, a paixão dos personagens. Foi ela [Gaga] e foi aquele trailer. Houve tanta contribuição cultural de Bradley [Cooper], e o filme dele também foi uma parte importantíssima. Mas, sim, sem os arrepios, provavelmente não estaríamos falando de nada disso. É como Uptown Funk, é difícil separar do clipe e depois do impacto cultural. Tem de ter todo esses outros elementos em volta para chegar a esse outro patamar.

Uptown Funk ganhou vida própria.

Foi a mesma coisa. Era uma jam, uma brincadeira. Shallow veio de um lugar genuíno, mas mais complicado. E Uptown Funk veio de um lugar genuíno e alegre. Ninguém estava pensando: “Beleza, vamos compor um mega hit”. Teve alguns momentos de arrepio quando a gente estava brincando. Se a gente conseguisse fazer uma música inteira, ou pelo menos boa parte dela, com aquele nível, então foda-se. Vamos nessa.

Qual é a importância de ter tido hits?

Bom, com certeza é bom, mas não penso nisso quando entro no estúdio. A primeira coisa que penso quando entro no estúdio, seja com um compositor ou um artista, ou ambos, é que estamos procurando alguma coisa que vai fazer as duas ou três pessoas que estão ali se mexer. Depois, a esteira começa a acelerar... e você vai acompanhando. Aí você diz: “Todo mundo gostou. É especial”. Aí vem uma batida ou talvez uma linha de teclados, coisas que te ajudem a se sobressair a todas as merdas que você ouve no rádio. Nunca entro pensando “Vamos fazer um hit”. Porque, sinceramente, a maioria das coisas com que me envolvi vieram de momentos de inspiração, sem pensar em nada disso. Shallow, Back to Black [de Amy Winehouse] e Uptown Funk – todas tiveram um início muito puro.

Collier Schorr
Mark Ronson é o sujeito de um novo documentário do YouTube Originals.

Você se cercou de mulheres incríveis. Que momento você acha que as mulheres estão atravessando agora?

Não consigo pensar em nenhum homem de quem a gente pudesse estar falando, então acho que isso responde sua pergunta.

Você tem medo de ficar sem ideias, de acabar sua criatividade? Ou você se alimenta de todas as pessoas novas com quem trabalha?

O incrível de ser produtor, ao contrário de ser artista, é que você continua a... você tem essa fonte da juventude, a inspiração desses artistas que é constantemente injetada em você. É ótimo trabalhar com superstars. Fico feliz de entrar no estúdio com quem tem talento, mas agora estou trabalhando com uma pessoa que está começando. Estou trabalhando no disco de Yebba. Isso também é empolgante, porque [os jovens] são empolgados e têm possibilidades ilimitadas.

Outra coisa que eu falo mais pro fim do documentário é perguntar se isso é perigoso, porque é meio como um substituto da família. Você está o tempo todo perto dessa energia, criando esses relacionamentos lindos com gente jovem e cheia de energia, que meio que poderiam ser seus filhos. Não tenho uma teoria. Não sei se é uma coisa ou outra. Mas, ainda solteiro a essa altura da vida, me pergunto: “Será que tenho de ser assim ou preciso me preocupar?”

Se você tivesse de pensar na próxima fase da música, qual seria sua previsão? O hip-hop ainda é grande. Temos Billie Eilish fazendo umas coisas meio novas, mas qual vai ser a próxima grande tendência, se é que teremos alguma?

A escala musical tem só 12 notas. Todo tipo de melodia e estrutura de progressão de acordes meio que já foi feita a esta altura. A única maneira de fazer algo novo é por meio de interpretações. Billie Eilish pegou coisas – essa combinação de coisas da música eletrônica, gótica, emo, música pop boa e hip-hop e fez algo seu, que é muito novo. Acho que o que faz a música dela super nova e original é ela mesma, o ponto de vista dela. Acho que o fator mais importante é a experiência de vida de cada um. Essa é a diferença de como eu pegaria várias influências e faria um som para outra pessoa. Faz um tempo, desde o surgimento do hip-hop ou talvez do techno, que não temos um gênero musical verdadeiramente novo.

Mas acho que agora temos essas dissidências e recombinações. O legal é que as pessoas não pensam mais em gêneros na nossa cultura moderna ... Pergunto para os moleques 13 ou 14 anos: “O que você está ouvindo?” E eles nunca têm resposta. Eles ouvem tudo.

Sei que você está trabalhando com Yebba. O que mais vem pela frente?

Estou super empolgado com meu selo. Temos o disco de King Princess sendo lançado agora, e o disco de Yebba. E tenho músicas para essa animação chamada Spies in Disguise. Para variar um pouco, estou tentando terminar umas coisas antes de me comprometer com coisas novas. Mas está tudo ótimo. Tipo hoje eu vou pro estúdio com Yebba para trabalhar numa música que adoro. Não consigo pensar em nada mais empolgante.

How to Be: Mark Ronson já está disponível no YouTube Originals.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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