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MULHERES
07/02/2019 23:37 -02 | Atualizado 08/02/2019 08:01 -02

Conheça a repórter que desmascarou Larry Nassar, algoz de 145 ginastas nos EUA

Ela decidiu investigar uma dica que recebeu sobre a federação. Aí seu telefone começou a tocar.

Maria Kwiatowski, 34, tinha acabado de se matricular num mestrado de administração de empresas quando recebeu a dica que acabaria por revelar o escândalo Larry Nassar, um dos maiores casos de negligência institucional da história americana moderna.

Hoje, um ano depois do pronunciamento da sentença do criminoso que ela ajudou a desmascarar, ela não pensa muito sobre a pesada carga de aulas que acompanhou meses de uma difícil investigação jornalística – dezenas de entrevistas com sobreviventes de ataques sexuais. Em vez disso, Kwiatowski se lembra das conexões estabelecidas entre as sobreviventes e da gratidão pela confiança que recebeu delas.

A repórter investigativa do The Indianapolis Star foi a primeira a publicar reportagens sobre a negligência da USA Gymnastics (Federação Americana de Ginástica Olímpica) em lidar com as denúncias de abuso sexual de atletas e, depois, a revelar o envolvimento de Larry Nassar, médico da Universidade de Michigan. Kwiatowski entrou para a equipe de repórteres investigativos do Star em 2013 e, entre suas matérias, está a revelação dos abusos sofridos por americanos vulneráveis pelas mãos dos serviços de assistência social do governo. Ela estava decidida a fazer um MBA quando, durante uma investigação sobre casos de relações sexuais entre diretores de escolas e estudantes menores de idade, uma fonte sugeriu que ela olhasse como a USA Gymnastics lidava com denúncias de abuso sexual.

Com os colegas Tim Evans e Mark Alesia, ela descobriu que a federação tinha uma política que basicamente escondia as acusações de abuso sexual – e que as jovens atletas sofriam em silêncio. Semanas depois da publicação da primeira reportagem, intitulada “Out of Balance” (sem equilíbrio), uma mulher chamada Rachael Denhollander procurou o Star com acusações contra Nassar, ex-médico da federação.

Luke Cooley
Maria Kwiatowski estava investigando casos de abuso sexual em escolas públicas de Indiana quando recebeu uma dica sobre o tratamento das denúncias de abuso na Federação Americana de Ginástica Olímpica.

Kwiatowski e os colegas trabalharam com Denhollander para publicar o relato, que levaria à revelação de que Nassar abusou de centenas de jovens atletas quando era funcionário da USA Gymnastics. Duas semanas depois da publicação das acusações de Denhollander, 16 mulheres fizeram acusações contra o médico.

Numa conversa recente por telefone, Kwiatowski descreveu como se comportou nas entrevistas e quais foram os momentos mais marcantes da investigação. A entrevista foi editada.

Depois de publicar as duas primeiras investigações – uma sobre as políticas da USA Gymnastics que permitiam que as acusações não fossem levadas adiante, e outra que implicava diretamente Larry Nassar – você tinha uma ideia da abrangência dos abusos que estavam acontecendo? Quando foi que isso ficou aparente?

Antes da publicação, sabíamos que três sobreviventes tinham nos contado suas histórias. Uma semana depois de sair a primeira matéria, mais de uma dezena de outras nos procuraram. Acho que percebemos bem rapidamente que as acusações tinham um escopo significativo. Em termos do papel da USA Gymnastics e o que a entidade sabia sobre ele, eles admitiram na primeira reportagem que tinham recebido denúncias e que elas haviam sido repassadas para as autoridades. Mas foi somente meses depois que descobrimos que a USA Gymnastics, na realidade, tinha esperado cinco semanas antes de avisar a polícia e, neste intervalo, eles tinham feito uma investigação própria.

Como você abordou as entrevistas com as sobreviventes?

A abordagem inicial depende das circunstâncias. Mas, em geral, eu começava as entrevistas explicando o que eu estava fazendo e por que eu queria conversar com elas. Explicava para as sobreviventes que faria perguntas detalhadas, para entender o que tinha acontecido. Deixei claro que essas perguntas não significavam que eu não acreditava no que elas estavam dizendo. Isso é importante, porque muitas das entrevistadas tinham tentado contar suas histórias antes, mas ou não receberam crédito ou foram aconselhadas a não levar o assunto adiante. 

Muitas das entrevistadas tinham tentado contar suas histórias antes, mas ou não receberam crédito ou foram aconselhadas a não levar o assunto adiante.Marisa Kwiatkowski

Também disse que elas poderiam pausar a entrevista ou se recusar a responder perguntas que as deixassem pouco à vontade. E expliquei que há uma diferença entre o que eu acredito e o que eu poderia escrever. Aí perguntava se ela estava preocupada com algo em específico ou se tinha alguma dúvida. Depois dessa conversa inicial, começava a entrevista.

 

Essa abordagem foi mudando conforme você foi fazendo as entrevistas?

No geral ela continuou a mesma. Cada sobrevivente tinha sua história, e era importante ouvir cada uma delas. Como jornalistas, também tinha de examinar cada acusação individualmente. 

É verdade que você tinha se matriculado num MBA bem antes de receber a primeira dica?

Acabo de terminar o curso. 

Parabéns!

Obrigada, estou muito feliz.

Como foi? Você considerou adiar o curso por causa da investigação?

Foi uma péssima ideia. Já tinha me comprometido a começar, então segui em frente. Virei especialista em administração de tempo. Tinha de planejar minha agenda com muito cuidado para dar conta de tudo.

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Rachael Denhollander foi a primeira mulher a acusar Larry Nassar publicamente. Ela procurou o The Indianapolis Star para contar sua história.

Fazer essa matéria exigiu lidar com muitas informações difíceis. Obviamente o peso maior é carregado pelas vítimas. Mas como foi sua experiência como mulher, tentando revelar essa injustiça?

Minhas investigações se concentram em pessoas que passaram por traumas. Obviamente, o foco é sobre elas. Tento apresentar informações da maneira mais precisa e abrangente possível. Mas também somos humanos. Eu e meus colegas tínhamos várias estratégias e hobbies para parar de pensar naquele assunto. Para mim, o mestrado foi uma maneira de dar um tempo. Fazer exercícios também. Todo mundo precisa de uma válvula de escape.

Você trabalhou neste assunto durante mais de um ano. O que mais te marcou? Algum detalhe ou momento em especial?

O que vem à mente é a apreciação por todas as pessoas que nos contaram suas histórias, que depositaram suas confianças em nós para que as apresentássemos ao mundo. Quando penso num momento marcante, lembro de Rachael Denhollander, uma das sobreviventes de Nassar, encontrando Becca [Seaborn], outra ginasta que sobreviveu ao abuso por parte de outro agressor. Elas nunca teriam se encontrado se não fosse por nossa investigação. Ver essa conexão entre as duas foi um momento significativo para mim, porque estávamos criando inadvertidamente uma rede de apoio para as vítimas. Fiquei emocionada ao ver as duas se conectando, porque ambas são mulheres fortes, independentes e bem sucedidas que querem fazer diferença.

Abuso sexual e a negligência em lidar com ele não é um problema da ginástica olímpica. Não é um problema do esporte juvenil – é um problema generalizado.Marisa Kwiatkowski

Há um ano, Larry Nassar declarou-se culpado de sete acusações de conduta sexual criminosa e foi sentenciado a 40-175 anos de prisão. Era esse o resultado que você esperava como repórter investigativa?

Ainda acho que temos muito a fazer. Ainda vemos muitos casos como este em outras organizações. Abuso sexual e a negligência em lidar com ele não é um problema da ginástica olímpica. Não é um problema do esporte juvenil – é um problema generalizado. É difícil responder uma pergunta como essa, porque ainda temos muito trabalho pela frente. Como mudar comportamentos quando se trata de um problema tão generalizado?

Você publicou as primeiras reportagens sobre o caso antes de o movimento Me Too começar a fazer barulho. Que impacto teve a conscientização sobre abusos sexuais e suas consequências no seu trabalho? Você acha que as pessoas estão mais dispostas a contar suas histórias?

Cada um tem sua história. Em minha carreira escrevendo sobre tópicos desse tipo, vi gente à vontade para contar suas experiências e gente que precisa de um tempo para pensar. Outros não estão prontos para falar. Não existe um jeito certo. Tentamos encontrar as pessoas quando elas estão prontas para falar, e entrevistá-las de modo a deixá-las à vontade. A última coisa que queremos é piorar a situação.

Em termos gerais, diria que mais pessoas – ou pelo menos as pessoas com quem tenho contato – estão contando suas histórias. Quanto mais gente falar, menor será o estigma.

“Um Ano Depois: Larry Nassar e as Mulheres que Nos Fizeram Ouvir” é uma série de reportagens que lembra os sete dias em que mulheres encararam seu agressor, o ex-médico da seleção de ginástica olímpica da seleção americana e da Universidade de Michigan, em um tribunal em janeiro de 2018. Elas leram depoimentos sobre os abusos sofridos pelas mãos de Nassar e fizeram história. A série destaca as pessoas que ajudaram a derrubar Nassar, bem como as pessoas que ele machucou durante tanto tempo.

*Este texto foi publicado originalmente no HuffPost US e traduzido do inglês.

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