MULHERES
14/03/2019 15:28 -03 | Atualizado 14/03/2019 16:24 -03

'A minha dor e a da nossa família é para sempre', diz Marinete Silva, mãe de Marielle

Em entrevista ao HuffPost, mãe da vereadora assassinada diz não acreditar que crime seja tão perfeito a ponto de não ser desvendado.

Associated Press
Marinete da Silva, de 66 anos, afirma que o último ano foi de "muita luta" e que "ainda há muito para se fazer". 

Memórias e lembranças de Marielle Franco estão presentes em cada canto do sobrado em Bonsucesso, no Rio de Janeiro. O que chama a atenção logo na entrada é a placa de madeira onde se lê “Marielle Presente” - mas a visão logo é atraída para uma espécie de memorial com fotos da vereadora, sempre sorrindo, ilustrando uma parte da diversidade de seus papéis. Além de sua defesa dos direitos humanos e de minorias sociais, Marielle também era mãe, esposa, filha, irmã, cientista social.

Em outros cantos, o espaço é tomado por fotos, desenhos, velas e esculturas dela em meio a imagens de sua filha e de sua irmã. Em cima da televisão está a placa de rua que leva seu nome e lembra sua ausência.

É neste sobrado que a família de Marielle reside, e que ela mesma viveu por muitos anos, que a advogada Marinete Silva, 66 anos, mãe da vereadora assassinada em 14 de março de 2018, recebeu a reportagem do HuffPost Brasil às vésperas de sua morte completar um ano.

“Foi um ano de muita luta e com muita coisa ainda para fazer”, afirma Marinete sobre os 365 dias desde a noite em que sua filha e o motorista Anderson Gomes foram executados ao saírem de um evento na Lapa. “Vivemos um ano muito difícil, com toda essa brutalidade que aconteceu, mas também foi um ano de muita reflexão.”

Minha filha, que defendia e acolhia mães e esposas de policiais e mães de jovens negros assassinados, acabou sendo vítima dessa violência estrutural da sociedade.
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Marinete participa ativamente da pressão para investigar o assassinato de Marielle e está ao lado de ações da Anistia Internacional. 

Católica, a advogada se apega à sua fé para lidar com a dor e leva a figura de Maria de Nazaré, mãe de Jesus Cristo, como uma referência. “Somos muito ligados a Maria, temos uma ligação muito grande com ela e isso vem sendo passado por gerações pelas mulheres da família. Como mãe, tenho como espelho o sofrimento que Maria teve com a morte de seu filho”.

Além da conhecida figura materna do cristianismo, Marinete lembra que, no País, as mães e mulheres negras estão sempre à frente da luta pela justiça de seus filhos. Hoje ela é uma delas. “As mulheres negras tomam a frente dessa luta porque são as mais afetadas. A maioria é de periferia e de favelas, e seus filhos são alvos dessa brutalidade do Estado que vivemos.”

Marinete faz parte da Rede de Mães Contra a Violência do Estado, que dialoga com outras redes de combate à violência, como a Mães de Manguinhos, e tem se aproximado de outras mães que perderam seus filhos. “Minha filha, que defendia e acolhia mães e esposas de policiais e mães de jovens negros assassinados, acabou sendo vítima dessa violência estrutural da sociedade”. 

A reinvenção da família

Atualmente, Marinete se divide entre seu trabalho como advogada, o cuidado da família e a luta por justiça e para assegurar a memória de Marielle. Ela destaca que ela, assim como sua família, ainda busca se reconstruir e se reinventar após a tragédia, mas afirma que hoje pertence a “uma família que nunca mais será mesma” e que a “dinâmica mudou para sempre”. “Só queremos mudar para melhor para continuar seu legado”, diz.  

Um dos grandes ajustes familiares feitos nesse último ano foi que Luyara, filha de Marielle, mudou-se para a casa da avó. “Fora os compromissos a mais que tenho em casa, agora tenho uma filha de 20 anos. Tenho o compromisso de ajudá-la e formá-la. É o compromisso, a dignidade e o bem-estar que tenho que dar à Luyara, que perdeu a mãe - ainda mais uma à altura da minha filha.”

Marielle é uma inspiração de força e resistência; Não temos como deixar seu legado para trás

Dar conta de tudo isso é difícil. A prova é que, durante a entrevista, Marinete cuidava de Mariah, sua neta mais nova, de 3 anos, que é filha de Anielle Franco, irmã de Marielle que viajara para os Estados Unidos para uma homenagem à ex-vereadora. Seu telefone não parava de tocar com mensagens de amigas, jornalistas solicitando entrevistas e com convites para as homenagens em memória de sua filha. Por mais de três vezes, tivemos que interromper a entrevista para que ela respondesse a essas solicitações.

O que a alimenta, diz, é ver em Marielle uma inspiração para continuar. “É um pedaço da gente que se vai, mas o que ela deixou para nós e tudo que representou... é o que temos para levar. Marielle é uma inspiração de força e resistência. Não temos como deixar seu legado para trás.”

 

Investigações do caso Marielle

Às vésperas do assassinato da ex-vereadora completar um ano, na madrugada desta terça-feira (12), o policial militar reformado Ronnie Lessa e o ex-PM Élcio Vieira de Queiroz foram presos pela Polícia Civil do Rio de Janeiro suspeitos de executarem Marielle e Gomes. Ainda não se sabe quem foi o mandante do crime.

“Eu não acredito que alguém possa ter sido tão perfeito a ponto de uma equipe dessas [de investigação], com todo esse aparato, não conseguir resolver”, diz a mãe de Marielle. “Pode ser difícil, mas não quer dizer que a gente esteja desanimado. Muito pelo contrário. Acreditamos nessa equipe e que teremos uma resposta de quem matou e de quem mandou matar.”

Eu não acredito que alguém possa ter sido tão perfeito a ponto de uma equipe dessas [de investigação], com todo esse aparato, não conseguir resolver

Sobre o tempo que a Polícia Civil e o Ministério Público do Rio de Janeiro levam para solucionar o caso, a advogada reconhece que “não temos como dimensionar um tempo para uma investigação de um caso como o da Marielle, já que é uma coisa que ultrapassou os limites da cidade”.

Ela ainda reforça sua confiança na equipe de investigação e na abertura do inquérito da PF para apurar o trabalho da Polícia Civil do Rio. “O grupo que investiga a investigação tem somado bastante, o que não quer dizer que não estava sendo feito um bom trabalho dos investigadores, mas que, em um caso que ultrapassa barreiras, ele é necessário e chega para somar forças”.

 

Homenagens e legado 

Desde aquele fatídico dia 14, as homenagens a Marielle Franco se multiplicaram pelo Brasil e pelo mundo. Desde a Universidade Columbia, em Nova York, à escola de samba Mangueira, no Carnaval, até a menção por atrizes como Viola Davis.

“Essas homenagens fazem parte de um reconhecimento dela enquanto pessoa, como ativista e mulher negra que entrou para a história”, aponta Marinete. ”É muito gratificante saber que minha filha é lembrada em diversos segmentos e de diversas maneiras. É um reconhecimento que a família agradece e sabe que faz com que seu nome chegue mais longe e fique mais forte.”

Ela ultrapassa várias esferas e mostra que a sua memória não se limita à política ou à família

Marielle esteve presente durante o Carnaval deste ano. A ex-vereadora foi homenageada em blocos de rua por todo o país e por três Escolas de Samba: A Vai Vai, de São Paulo, e a Vila Isabel e a Mangueira no Rio de Janeiro. Sendo que a última foi a grande campeã do desfile carioca.

A Mangueira, no entanto, ao contrário das outras escolas, convidou apenas a viúva de Marielle para representá-la. A falta de convite por parte da verde-e-rosa causou desconforto ao restante da família e foi justificado pela escola pelo fato de a Vila Isabel ter feito o convite primeiro.

“Independente de qualquer polêmica, ao ser homenageada em uma festa popular, ela ultrapassa várias esferas e mostra que a sua memória não se limita à política ou à família, mas que a sociedade abraça e canta junto. Ficamos muito felizes em saber que uma escola de samba do porte da Mangueira levou o nome da minha filha, trouxe tudo isso para avenida e se tornou campeã.”

Marinete, que logo depois da entrevista seguiu para mais uma homenagem, destaca o carinho e respeito das pessoas pela figura de Marielle, que já ultrapassou o Rio de janeiro e o Brasil “É muito bom saber que ela não é só nossa, mas é do mundo.”

 

O Instituto Marielle Franco

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O Instituto, encabeçado por Anielle Franco, busca parcerias para se estruturar e pretende organizar um acervo da memória da vereadora. 

Para proteger a memória e o legado de Marielle, sua família criou o Instituto Marielle Franco, que organiza as atividades deste dia 14 no Rio de Janeiro e será desenvolvido durante o ano.

“Estamos batalhando para ter uma sede, uma referência para as pessoas, para continuar com o trabalho de Marielle, atendendo a quem precisa, realizar palestras e muito mais”, conta.

O Instituto, encabeçado por Anielle Franco, busca parcerias para se estruturar e pretende organizar um acervo da memória da ex-vereadora.

Segundo Marinete, ninguém melhor que a família para cuidar com responsabilidade da organização e preservar sua memória.

“A minha dor e da nossa família é para sempre e espero que o legado de Marielle também seja para sempre.”