ENTRETENIMENTO
20/02/2019 13:59 -03 | Atualizado 20/02/2019 14:02 -03

O contra-ataque da direita a 'Marighella', filme de Wagner Moura

Moura é xingado na Câmara dos Deputados e seu filme, ainda sem data de estreia definida, sofre enxurrada de críticas negativas nas redes.

Divulgação
Até a cor do ator Seu Jorge, que interpreta Carlos Marighella no filme, é questionada. 

Mesmo antes de sua estreia mundial, no Festival de Berlim na última sexta-feira (15), o filme Marighella já causava furor por ser a cinebiografia de um personagem dos mais controversos da história brasileira.

No entanto, depois que ator/diretor Wagner Moura passou pelo tapete vermelho do festival carregando uma placa em homenagem à Marielle Franco, vereadora do PSol assassinada em 2018, e disse em coletiva à a imprensa que seu filme ”é maior que Bolsonaro”, o clima esquentou significativamente.

Nesta terça (19), três deputados federais -  Alexandre Frota (PSL), Carlos Jordy (PSL) e Bia Kicis (PRP) - criticaram o filme no plenário da Câmara dos Deputados.

“Esse ator canalha, chamado Wagner Moura, recebeu 10 milhões para filmar a vida nojenta, promíscua e marginal do terrorista Marighella. E depois ainda cospe na cara do povo brasileiro”, esbravejou Frota, que ainda entrou no mérito de uma questão racial, pois no filme, o músico e ator Seu Jorge interpreta Carlos Marighella. “Esse filme trata de um terrorista e o exibe como um herói brasileiro e, ainda, num ato de lacração cinematográfica, coloca um ator negro. Eu não estou sendo racista, mas imaginem se fôssemos filmar uma nova versão de Orfeu [referência ao filme Orfeu Negro] e colocássemos um ator branco?”

Reprodução/Instagram
O deputado federal Alexandre Frota fez críticas duras a Wagner Moura e o filme Marighella no plenário da Câmara dos Deputados.


Jordy reclamou sobre o fato da esquerda exaltar Marighella e criticar Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-chefe do DOI-CODI, um dos órgãos mais atuantes na repressão política durante o período da ditadura militar.

“Ouvir as pessoas falarem que Marighella é um herói, para mim, é inadmissível! Um terrorista, assassino, que, no seu livro Manual do Guerrilheiro Urbano, ensinava como assassinar policiais. As pessoas que criticam quem fala de Ustra aqui são as mesmas que falam desse canalha terrorista”, declarou.

Já Kicis aproveitou para atacar o ex-deputado federal Jean Wyllys, do PSol do Rio de Janeiro, que desistiu de seu 3º mandato seguido alegando ter sofrido ameaças contra a sua integridade física. Wyllys deixou o País e foi ao Festival de Berlim para prestigiar a estreia de Moura como diretor. Os dois foram filmados dando selinho e um forte abraço após a exibição do filme.

“Eu fico muito triste, quando vejo espetáculos fora do Brasil que afrontam contra o verdadeiro sentido da democracia. A exibição do filme de Marighella é um espetáculo de horror, um espetáculo da mentira, um espetáculo da falácia”, afirmou o deputado.

“O nosso ex-colega, aquele que renunciou o mandato de forma inexplicável, incompreensível, o Jean fujão Wyllys, esteve presente à exibição do filme, onde trocou ‘selinhos’. Nós sabemos que Jean Wyllys também afirmou lá fora que o Brasil é uma ditadura. Por quê? Porque não ganhou o candidato que ele queria. O Jean Wyllys é aquele tipo de pessoa que pensa que ditadura é quando os outros mandam nele e democracia é quando ele manda nos outros”, completou.

O que esperar do filme Marighella?


Baseado na biografia Marighella - O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo, escrita pelo jornalista Mário Magalhães e lançada em 2012, o filme foca apenas no período entre o golpe militar de 1964 até a morte de Marighella, em 1969 - exatamente o período mais conturbado e radical da vida do político, guerrilheiro e escritor baiano.

“A minha escolha por esse recorte também atende a vontade de que o filme seja popular, que muita gente veja, sobretudo as pessoas pelas quais Marighella lutava, o que é uma questão quando você pensa que o cinema é um divertimento elitizado no Brasil”, explicou Moura na coletiva de imprensa em Berlim.

Em participação no podcast Café da Manhã nesta segunda (18), o repórter da Folha de S. Paulo Guilherme Genestreti, enviado do jornal ao festival, contou que o filme não esconde os crimes cometidos por Marighella, mas que ele “endeusa” o personagem e que é extremamente didático exatamente para falar às massas. “A dúvida que fica é que massas são essas que ele quer atingir em um País tão dividido”, ressaltou o jornalista.


Marighella ainda não tem data de estreia no Brasil. Em comunicado enviado ao HuffPost, a distribuidora Paris Filmes alega que ainda está decidindo qual o melhor momento de lançar a produção em circuito nacional.

“Tal qual diversos outros filmes ainda sem data de estreia definida, decidiremos o melhor momento para Marighella em função do cenário previsto no calendário de estreias, que, por ora, está muito competitivo.  Tão logo essa decisão seja tomada, informaremos a todos. Também estamos ansiosos pelo lançamento do filme nos cinemas”, informa a distribuidora.

Ataques nas redes


A repercussão negativa ao filme também movimentou a internet nos últimos dias.

No IMDB, maior banco de dados online sobre cinema do mundo e um popular veículo para avaliação de filmes por parte da crítica e do público em geral, a página do filme - que teve apenas uma exibição pública até agora - recebeu uma enxurrada de críticas negativas de internautas brasileiros. Foram mais de 2 mil comentários.

Isso acaba rebaixando drasticamente a nota do filme em questão.

Só para se ter uma ideia desse número, o filme vencedor do Festival de Berlim em 2019, o israelense Synonyms tem, até o momento, apenas 2 reviews de usuários do site.

A movimentação incomum chamou a atenção do IMDB, que identificou os comentários como um ataque de viés ideológico e deletou todos.

Algo parecido aconteceu na conta do Facebook do festival. O post que apresenta o vídeo com trechos da coletiva de Mariguella passou a receber uma quantidade significativa de ataques de internautas brasileiros, forçando a organização a moderar a caixa de comentários.


“Devido à grande quantidade de comentários abertamente odiosos, este post agora será estritamente moderado. Por favor, esteja ciente de que as mensagens desrespeitosas serão imediatamente apagadas e os usuários serão proibidos de comentar mais. Por favor, expresse suas opiniões de maneira respeitosa”, se posicionou o festival.