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21/09/2019 15:25 -03 | Atualizado 21/09/2019 15:25 -03

Jardim Marielle Franco é inaugurado em Paris: “Minha mãe sempre falava que tínhamos que ser as flores da resistência”

Primeiro espaço permanente com o nome da vereadora foi aberto ao público neste sábado (21), na França.

Paris, França - “É o sol de Marielle”, diz dona Marinete da Silva, sorridente, ao lado de seu Antônio Francisco enquanto os dois mudam de posição e posam para mais uma foto, agora tentando desviar um pouco do forte sol deste sábado (21), em Paris, na França. Calor de quase 30 graus, céu azul, sem nenhuma nuvem no céu. Assim estava o dia em que o jardim que leva o nome da filha deles foi inaugurado. Os dois foram muito abordados, abraçados e receberam muitos pedidos de foto. Assim como Luyara Franco, filha da vereadora. Atenderam a todos os pedidos. Agradeciam o tempo todo a homenagem.

“É bem significativo ser um jardim, porque minha mãe sempre falava que tínhamos que ser as flores da resistência. É a primeira vez que estou na Europa, não era bem o motivo que eu gostaria, queria estar aqui com ela conhecendo o mundo, mas ver [homenagens como] essa, dá um acalento no coração, ver a imensidão que ela se tornou, é muito gratificante estar representando ela é o legado dela”, diz Luyara pouco antes do início da cerimônia de inauguração.

Ana Ignacio
Luyara Franco, filha de Marielle, posa ao lado de foto de sua mãe. 

O jardim Marielle Franco, primeiro espaço permanente com o nome da defensora dos direitos humanos, foi inaugurado e oficialmente aberto ao público neste sábado. Construído no 10º distrito da cidade, sobre as plataformas da Gare de L’Est, uma das principais estações de trem da capital francesa, o espaço estava repleto de flores - muitas trazidas pelos presentes no local. Além disso, faixas, cartazes, camisetas e as simbólicas placas de rua com o nome da vereadora também integraram a paisagem. 

A cerimônia começou um pouco antes das 16h. As cadeiras colocadas para o evento estavam todas ocupadas e uma extensa fila crescia do lado de fora. Muitos brasileiros que moram na França e também franceses apoiadores das causa de Marielle marcaram presença no evento. Fizeram parte da solenidade também representantes da prefeitura da cidade, do 10º distrito, assim como diversos políticos da cidade.

Renata Souza, Deputada estadual do Rio de Janeiro e chefe de gabinete de Marielle na época do crime, também estava presente no evento e destacou a força do projeto da vereadora. “[Essa homenagem] significa que o brilhantismo da Marielle chegou no mundo e nada mais simbólico que a cidade luz homenagear Marielle e todo o trabalho feito contra as desigualdades sociais, principalmente de gênero, raça e classe. É uma simbologia importante e bonita e, a gente não esquece de Marielle Franco e também continuamos com a pergunta: quem mandou matar Marielle Franco?”

Ana Ignacio
O jardim Marielle Franco foi construído no 10º distrito de Paris, sobre as plataformas da Gare de L’Est,

Marinete também falou sobre o sentimento de ver que as ideias e ideais da filha ultrapassaram os limites do Brasil. “[Essa homenagem] representa todo o simbolismo da Marielle de resistência. É um orgulho saber que o nome da minha filha está cada vez mais longe”. Orgulho que também é compartilhado por Antônio, que destaca a todos que se aproximam o tamanho da honra que está sentindo. “Acredito ser a maior homenagem que já recebemos. Somos muito gratos”. 

E essas palavras de gratidão também foram repetidas no discurso que leu representando a família de Marielle nesta tarde. Ele destacou a origem da filha e as lutas que ela travou desde cedo. “Desde pequena se revelou uma jovem revolucionária. Sonhava em escrever uma nova história”, disse sobre a vontade da filha de mudar a realidade de pessoas como ela, nascidas nas favelas e comunidades mais pobres do país. De improviso, dona Marinete também disse algumas palavras sobre o espírito da filha. “Marielle era isso. Ela unia as pessoas. Marielle brotava e agregava pessoas”. A viúva de Marielle, Mônica Benício, não compareceu à cerimônia, mas enviou um discurso que foi lido por uma porta voz na homenagem. Ela também falou sobre as lutas de Marielle e sobre tudo que ela propagou ao longo dos anos. “Marielle é presente, Marielle é semente, Marielle vive”.

Ana Ignacio
Os pais de Marielle, Antonio da Silva Neto e Marinete Francisco, e a filha da vereadora carioca assassinada em 2018, Luyara.

Luyara não fez discurso ao público. Ela se diz a mais reservada da família, por escolha. “[Tem sido] um ano e meio difícil, não tem como viver o luto. Sou a mais reservada da família, não vou para tantas homenagens. Meus avós gostam, para eles acalenta, para mim também, quando eu vou, mas tem dias que é meio difícil de suportar. Mas é um ano e meio de luta, um ano e meio resistindo, um ano e meio se fazendo várias perguntas: por quê? Quem foi? Por que daquele jeito covarde ceifando a vida da minha mãe de uma hora para a outra? Mas resistindo e vendo o símbolo que ela virou, esse mártir. Que a gente consiga dar continuidade para essa luta”, disse ao HuffPost. 

E este sábado foi mais um dia dessa luta, sem dúvida. A placa inaugural, coberta com uma bandeira azul e vermelha, as cores da França, é enfim exposta ao público. Ali diz: “Marielle Franco: defensora dos direitos humanos e feminista. Vereadora municipal do Rio de Janeiro, assassinada em sua cidade em 14 de março de 2018”. Um minuto de silêncio. Depois palmas. No fundo do jardim, começa uma apresentação musical, com batuque. A tarde seguirá com uma programação cultural no local. A fila está maior lá fora. As pessoas aguardam com paciência a sua vez de entrar. O sol parece ainda mais forte. O “sol da Marielle”, como definiu Marinete. A semente virou jardim.

O projeto

Aprovado pela prefeitura de Paris em abril deste ano, a iniciativa do projeto foi liderada pela associação Red-Br com o apoio de coletivos como Autres Brésils, France Amérique Latine, Amnesty International France, Coletiva Marielles, Ligue des Droits de l’Homme, Inter LGBT, Amis des Sans Terre.

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O grupo, formado por pesquisadores, artistas, agentes culturais, cidadãs e cidadãos que vivem na Europa e propõem ações para preservar, construir e ampliar a democracia no Brasil,  fez o pedido para que um local público da cidade recebesse o nome de Marielle Franco. Silvia Capanema Schmidt, presidente da Red-Br, também estava presente no evento deste sábado e explica o projeto: “A ideia vem do movimento que começou no Brasil para criar a rua Marielle Franco. O projeto foi recebido com muito entusiasmo [pela prefeitura de Paris]. Rua não era possível, e tinha esse jardim e nos consultaram e achamos a ideia muito bonita por ser uma das metáforas de Marielle que é semear mesmo, ser uma semente de luta social, de mulher na política, de luta por causa de direitos humanos então essa semente está aqui também”, explicou.

O caso Marielle Franco

A vereadora foi assassinada junto com seu motorista, Anderson Gomes, em 14 de março de 2018, no Rio de Janeiro. A investigação está sob sigilo e as principais linhas de apuração apontam para a participação de milícias ou, ainda, para um crime político.

Mulher negra, nascida na Favela da Maré, lésbica e defensora dos direitos humanos, Marielle foi a 5ª vereadora mais votada do Rio em 2016. Ela denunciava abusos da Polícia Militar, atendia vítimas da milícia e dava apoio a policiais vitimados pela violência no Rio e às suas famílias.