13/01/2019 01:00 -02 | Atualizado 14/01/2019 11:16 -02

Mariana Regis, a advogada feminista que desafia o machismo no judiciário

"Naturalmente, não há um olhar acolhedor para as mulheres no judiciário brasileiro."

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Mariana Regis é a 312ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Aos 38 anos, a advogada e ativista Mariana Regis faz o que popularmente chamam de “trabalho de formiga”. Especialista em Direito da Família pela UBA (Universidade de Buenos Aires), ela se dedica a representar mulheres principalmente em casos envolvendo reconhecimento de paternidade, direito de visitas e pensão alimentícia ― e, aos poucos, trazer as questões de gênero para o dia a dia do universo jurídico.

Mariana, que nasceu na Fazenda Grande do Retiro, em Salvador (BA), em uma família de advogados, conhece bem as razões que a conduziram ao que hoje considera uma missão: “sempre tive muita inquietude com injustiças”. E sempre soube que não seria fácil: em um País de judiciário majoritariamente branco e masculino, ser mulher e defender outras mulheres é um desafio.

O judiciário é frustrante. Nem sempre é possível alcançar a justiça.
Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Mariana tomou como missão nunca mais defender homens em casos contra mulheres, como se especializou na defesa delas.

Ela segue, entretanto, tentando. Para a atividade da advocacia, garante, da mulher exige-se uma postura mais dura, e, em certo ponto, até masculinizada: “É difícil ter credibilidade em um ambiente tão masculino”, desabafa. Depois de 2006, Mariana tomou uma importante decisão em sua carreira: a de não representar homens em casos contra mulheres que para ela é uma “questão de ética, respeito e empatia.”

Em 2006, defendeu um cliente que ocultava seus vencimentos remuneratórios para não ser obrigado a pagar a pensão alimentícia do filho. “Como advogada, eu sei instruir um cliente a fazer isso, mas a questão é: em favor de quem eu vou usar esse saber?”, questiona, ao mencionar o conflito ético que lhe ocorreu ao aceitar defender judicialmente um pai que se negava a assumir suas responsabilidades de pai. “Me senti muito mal”, sentencia.

Não basta ter técnica: é preciso ter um olhar sensível às questões de gênero.
Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Com esse olhar sensível, Mariana acolhe e protege suas clientes, dentro e fora dos tribunais.

 

Desde então, Mariana tomou como missão não apenas nunca mais defender homens em casos contra mulheres, como se especializar na defesa dessas mulheres que postulam seus direitos e os direitos de seus filhos. A “graça da coisa”, ela garante, ”é poder fazer a diferença na vida de outras mulheres por meio de seu trabalho”.

Com esse olhar sensível, Mariana acolhe e protege suas clientes, dentro e fora dos tribunais. Segundo ela, como questões de família costumam ser complexas, uma advogada que quer cuidar especificamente desses temas precisa ser um pouco de tudo: de psicóloga a conciliadora. E adiciona que o tratamento às questões de gênero ainda deixa muito a desejar no País. “É uma luta constante, porque, naturalmente, não há um olhar acolhedor para as mulheres no judiciário brasileiro. Eu só tive alguma noção de advocacia feminista durante a especialização na Argentina”, lembra.

 

Como advogada, posso acessar pontes de transformação na vida das mulheres.
Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
“A advocacia pode ser revolucionária.”

 

Além de advogada ativista, Mariana oferece cursos de capacitação em advocacia feminista no Direito das famílias, para homens e mulheres que desejem se especializar em, assim como ela, defender mulheres em litígios de família. “Trabalhamos a escuta atenta e a habilidade em combater a violência que muitas vezes é institucional, se dá no próprio tribunal”, explica.

Agora, os planos de Mariana incluem continuar com a advocacia feminista e ministrando os cursos de capacitação, além de mergulhar na docência e continuar fazendo sua parte para tornar o mundo um pouco menos injusto para as mulheres. “A advocacia pode ser revolucionária”, finaliza.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Nathali Macedo

Imagem: Juh Almeida

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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