MULHERES
02/11/2019 19:51 -03 | Atualizado 05/11/2019 14:29 -03

'Se não incluirmos as mulheres, não vamos crescer enquanto sociedade', diz diretora da ONU Mulheres

Maria-Noel Vaeza, diretora da ONU para as Américas e Caribe, aponta falta de vontade política no combate à violência doméstica e na inclusão de mulheres na política.

Gustavo Dantas/ONU Mulheres
A diretora regional da ONU Mulheres conversou com o HuffPost Brasil durante intervalo do Fórum WEPs 2019.

Mulheres são 52% do eleitorado brasileiro, mas quando se mede a presença nos cargos de poder, os números são bem menores. Elas são 15% dos deputados federais e dos senadores e 14% dos vereadores. Já no Executivo, apenas um estado é governado por uma mulher e 12% em municípios. Esse cenário coloca o Brasil na lanterna dos rankings de presença feminina no poder.

Para Maria-Noel Vaeza, diretora regional da ONU Mulheres para as Américas e Caribe aumentar estes números e investir em uma maior participação das mulheres no mundo da política é um dever do Estado. Defensora das cotas, ela acredita que, “se não incluirmos as mulheres, não vamos crescer enquanto sociedade” e aponta que isso representa crescimento político e econômico.

A diretora regional da ONU Mulheres conversou com o HuffPost Brasil durante intervalo do Fórum WEPs 2019: um chamado à ação pela transformação social, organizado pela ONU Mulheres, em parceria com a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a União Europeia em São Paulo.

Em entrevista, ela fala sobre a importância de criar mecanismos para inserir mais mulheres na política e também no setor privado, mas também faz um diagnóstico sobre a falta de vontade política como razão para falhas no combate à violência contra a mulher no Brasil ― e no mundo.

“Se não há vontade política e verdadeira de erradicar um flagelo, um problema emergencial como a violência contra as mulheres, ele não chegará ao fim. É uma emergência que as mulheres morram por serem mulheres”, aponta. 

Abaixo, os principais trechos da entrevista:

HuffPost Brasil: Há 13 anos, a Lei Maria da Penha visa combater e prevenir a violência contra a mulher, mas boa parte de suas ações afirmativas que visam a prevenção não são implementadas em sua totalidade. E isso entra em choque com o dado de que o Brasil é o 5º país que mais mata mulheres no mundo. De que forma o Brasil deve avançar no combate à violência doméstica? São necessárias mudanças na Lei ou é uma questão de aprimorar o funcionamento da estrutura atual? 

Maria-Noel Vaeza: Eu acho o feminicídio, a violência contra a mulher é um problema latente em toda a América Latina. Veja, a Lei Maria da Penha, é uma lei maravilhosa. E que começou no Brasil e que tem, em sua concepção, a intenção de atacar o problema da violência contra as mulheres e principalmente buscar a prevenção. Eu acho que o mais importante é isso: a prevenção. É começar pela educação e também envolver os homens. Se não fizermos isso, não vamos findar o problema da violência.

E a primeira razão para a não implementação de uma lei em qualquer lugar no mundo é a falta de vontade política. Se não há vontade política e verdadeira de erradicar um flagelo, um problema emergencial como a violência contra as mulheres, ele não chegará ao fim. É uma emergência que as mulheres morram por serem mulheres. Não somos objeto. Somos sujeito de direito, temos os mesmos direitos que os homens e o Estado tem a obrigação de garanti-los. 

Não somos objeto. Somos sujeito de direito, temos os mesmos direitos que os homens e o Estado tem a obrigação de garanti-los.Maria-Noel Vaeza, diretora da ONU Mulheres para as Américas e Caribe.
 

E a segunda razão é a falta de orçamento. Se não existem linhas orçamentárias específicas direcionadas à implementação das leis, elas nunca sairão do papel. Agora, há também muitos entendimentos distintos sobre o que significa apoiar as mulheres. Há muita discussão sobre isso. Mas o mais importante é que, se não é reconhecido com dignidade que as mulheres são mães, e desempenham um trabalho não remunerado que garante o futuro de uma nação, então aí estamos frente a um problema. Estes são alguns dos problemas de sociedades que decidem ser violentas contra as mulheres. E estas são decisões sociais e, por isso, eu acredito muito que é preciso cada vez mais investir em uma mudança cultural. E isso começa nas escolas e nas igrejas, por exemplo, por serem os atores principais da relação com a família. Precisamos de uma educação que contemple formas de prevenir essa violência. 


Quão longe estamos de uma situação ideal? E quais seriam as possíveis soluções?

Eu acredito que está faltando investir exatamente no sistema de serviços essenciais que o governo tem que colocar à disposição para proteger as mulheres [atendimento nas delegacias, canais de denúncia, etc], mas também os serviços educativos. E é importante lembrar também que nesse contexto a falta de oportunidades econômicas também é uma questão. A mulher que continua em uma relação conflitiva, ainda hoje, o faz porque não tem renda, não tem possibilidade de trabalhar e, por isso, não pode sair deste ciclo. Um feminicídio não acontece de um dia para o outro. Há uma graduação, da violência psicológica, a violência física, e vai aumentando até que um dia…

A agenda da ONU

Em sua visita ao Brasil, Noel Vaeza destacou os 25 anos da Plataforma de Ação de Pequim, que possui 12 áreas de preocupação e metas para o alcance da igualdade de gênero em todo o mundo, e concentra o trabalho da ONU Mulheres até o final de 2020 ― ano em que a organização completa 10 anos. 

 

Assim como o movimento Geração Igualdade, para acelerar os compromissos dos países com os empoderamento de mulheres e meninas, sendo pontos altos duas rodadas do Fórum Geração da Igualdade, realizado em maio de 2020, no México, e em julho de 2020, na França.

 

E também os 5 anos da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável e da Década Internacional de Afrodescendentes, com destaque aos esforços do Brasil para avanço dos direitos humanos das mulheres nesses compromissos internacionais.

Eu acho muito importante os alertas anteriores, pensar em linguagem, pensar em comportamento. É muito importante identificar os alertas, e especialmente informar as mulheres mais jovens. O Estado tem a obrigação e o poder de efetivamente parar esta violência, mas individualmente temos uma responsabilidade enquanto sociedade civil. E isso passa por nos informarmos, nos educarmos para combater esta violência. Sem mencionar que a violência contra a mulher oferece malefícios para o desenvolvimento econômico de um país, não é mesmo? O impacto que a violência doméstica tem na economia é enorme. Há muitos estudos de comparação do custo econômico da violência.

Gustavo Dantas/ONU Mulheres
Maria-Noel Vaeza em entrevista para o HuffPost Brasil, em São Paulo

Você acredita que a religião tem que tipo de papel no combate à violência?

Prevenir e estimular diálogo. A ONU foi criada para isso, não é? Para parar a guerra, estabelecer diálogos, para ter uma mesa em que as partes poderiam se encontrar e conversar. E a religião tem um poder importantíssimo que é exatamente desse jeito. Entender que é preciso respeito. Porque todas as religiões estão pedindo isso: respeito.

Esse é um tema que nos preocupa há muito tempo e nós pensamos muito sobre o papel das igrejas, da fé no combate à violência. Porque acreditamos que é um pouco problemática a ideia de preservar a família, esse âmbito privado, imaculado. Muitas vezes, aconselhadas e influenciadas pela sua fé, as mulheres procuram ajuda, mas para preservar a família são encorajadas a voltar para um ambiente violento, com o argumento de que “ah, não se preocupe, você tem que obedecer o seu marido”. 

Não somos iguais aos homens e não pretendemos ser. Mas queremos que nossos direitos sejam respeitados.Maria-Noel Vaeza, em entrevista ao HuffPost Brasil

Neste caso existe uma confusão, não? Esta mulher não deveria precisar suportar esta violência em nome da família. Esta questão é da mulher, mas também é do homem. Nós temos que trabalhar em conjunto com a igrejas, e pensar que o papel da mulher na bíblia é muito poderoso. É um papel de importância, de protagonismo. E é algo que não está sendo respeitado na prática. 

E, por isso, a religião é tão importante. E acho que ela pode mudar regras sociais para o bem ou para o mal. Acredito que existe uma dinâmica de mudar as coisas para o melhor no momento. E que temos que trabalhar em conjunto com as religiões em distintas partes do mundo. Porque, em definitivo, queremos o mesmo.

Eu acredito que o mais importante de tudo é que não haja fundamentalismos. E o que nós, das Nações Unidas, estimulamos, é o diálogo. O mais importante é o diálogo, a empatia, e escutar o outro. E isso é educação.

Gustavo Dantas/ONU Mulheres
Maria-Noel Vaeza durante evento da ONU, em São Paulo.

E de que forma a educação entra neste contexto? É o único caminho?

Educação é construir juntos uma sociedade de paz e de diálogo. E isso é o que homens e mulheres querem. Há muitos homens que acreditam que nós, mulheres, só somos importantes para dar um filho ou sexo a eles. Quando se pensa nisso, se pensa a mulher como objeto. Eles não enxergam que o principal órgão sexual das mulheres é o cérebro. Porque? Porque pensamos. E ao pensar temos um pensamento diverso. Não somos iguais aos homens e não pretendemos ser. Mas queremos que nossos direitos sejam respeitados. E para isso, é importante entender que a educação para questões de gênero e é preciso falar sobre isso desde cedo com as crianças. Para que desde cedo os homens entendam que as mulheres têm as mesmas possibilidades que eles. 

Possibilidades para que? Para estudar ciência e tecnologia, para ser astronauta, engenheira, piloto. É igual. Mas o que estamos vendo? Que o que impera são os estereótipos que dizem “ah, você tem que se casar, você tem que formar sua família, não tem que seguir essa carreira, é muito difícil”, etc. Nós desejamos que a família se engaje na educação, em especial os pais. Porque buscamos também uma paternidade responsável e que haja reconhecimento desse trabalho doméstico que é a criação dos filhos e de que ele não é só das mulheres. Eu acredito muito que a educação é o caminho para uma sociedade mais pacífica e menos violenta.

E como promover, de forma efetiva, a participação feminina na política?

Eu acredito firmemente que a participação política das mulheres precisa ter elementos de proteção a elas. Porque há muita violência contra mulher na política e precisamos falar sobre isso. Elas estão ocupando um espaço que antes era ocupado por um homem, historicamente falando. Normalmente, esse espaço só é ocupado por elas porque esse homem foi corrupto. E há muita raiva, muita frustração [da parte dos homens]. As mulheres dizem “vou participar porque também tenho direito como cidadã de dizer ‘basta’”. Não é uma regra, mas normalmente os mandatos femininos são espetaculares. Existe um dado também de que, em geral, elas rompem com ciclos de corrupção.

A violência contra a mulher no Brasil, em números:

Treze anos após a sanção da Lei Maria da Penha, é crescente o número de mulheres assassinadas no País. Segundo o Atlas da Violência de 2019, 4.963 brasileiras foram mortas em 2017, considerado o maior registro em dez anos.

 

A taxa de assassinato de mulheres negras cresceu quase 30%, enquanto a de mulheres não negras subiu 4,5%. Entre 2012 e 2017, aumentou 28,7% o número de assassinatos de mulheres na própria residência por arma de fogo.

 

Em 2018, 1.206 mulheres foram vítima de feminicídio, de acordo com dados do  Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2019. O número representa uma alta de 4% em relação ao ano anterior. De cada dez mulheres mortas, seis eram negras.

 

Os números de estupro também são alarmantes. Foram mais de 66 mil casos de violência sexual em 2018, o que corresponde a mais de 180 estupros por dia, de acordo com o  13º Anuário de Segurança Pública, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Entre as vítimas, 54% tinham até 13 anos.

 

Mas apesar da violência, o maior entrave para esta participação é a falta de financiamento e, por último, a assertividade das mulheres para reivindicar sua posição. Temos que nos permitir liderar. Mas também somos mães. Precisamos estar em lugares específicos ― e é nessas horas que os homens tomam esse lugar e fazem política. Porque eles não tem a obrigação de estar com os filhos, ou de fazer a comida, por exemplo. Outra vez: é a redistribuição do trabalho doméstico, o trabalho que não é remunerado, que é injusto. Muitas mulheres não conseguem participar de reuniões políticas porque são à noite e elas precisam estar em casa, com os filhos. 

Se não incluirmos as mulheres, não vamos crescer enquanto sociedade.Maria-Noel Vaeza, representante da ONU Mulheres

Por isso é tão importante que os governos estimulem a participação política das mulheres. Eu acredito firmemente nas cotas, porque há muito tempo estamos esperando por isso. No mundo todo, existem apenas 25% de mulheres parlamentares. Isso é muito pouco. As cotas são saudáveis porque dão oportunidades que não tivemos até agora. O Estado tem que dar essas oportunidades. A mesma coisa o setor privado. Apenas 8% dos investimentos financeiros são destinados ao empreendedorismo feminino. É um crescimento lento, temos que acelerar isso. Se não incluirmos as mulheres, não vamos crescer enquanto sociedade.