MULHERES
30/08/2020 01:00 -03 | Atualizado 30/08/2020 01:00 -03

O legado contraditório de Margaret Sanger, que fundou entidade pró-aborto nos EUA

Margaret Sanger fundou uma das maiores organizações norte-americanas de defesa dos direito reprodutivos, mas também apoiou a esterilização de mulheres consideradas “inadequadas”.

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O legado de Margaret Sanger como ativista dos direitos reprodutivos é complicado por suas ideias eugenistas.

Margaret Sanger era uma contradição ambulante.

A fundadora do movimento do controle da natalidade passou a vida afirmando que a liberação das mulheres dependia da sua capacidade de controlar sua reprodução. “Nenhuma mulher pode dizer que é livre até que possa escolher conscientemente se vai ou não ser mãe”, escreveu ela em 1919. Ao mesmo tempo, ela apoiava a ideia da eugenia – segundo a qual a genética da humanidade pode ser melhorada por meio da procriação seletiva. Por isso, apoiava a esterilização das mulheres consideradas “inadequadas” para dar à luz.

Em outras palavras, ela acreditava que a escolha em relação à reprodução deveria ser reservada apenas para as mulheres consideradas “próprias” pela sociedade, um pensamento moldado pelo racismo e pelos preconceitos da sociedade da época contra as pessoas com deficiência.

O legado complicado de Sanger paira sobre a organização que ela fundou, a Planned Parenthood, uma das principais entidades de controle reprodutivo dos Estados Unidos. A Planned Parenthood está sob o microscópio.

No final de julho, a filial de Nova York da organização (PPGNY) anunciou que sua sede, que levava o nome de Sanger, será rebatizada. A retirada do nome da fundadora “é uma necessidade e uma medida tardia para acertar as contas com nosso legado e reconhecer as contribuições danosas da Planned Parenthood nas comunidades não-brancas”, disse a presidente da PPGNY em um comunicado. “As preocupações e a defesa de Margaret Sanger da saúde reprodutiva são claramente documentadas, mas também o é seu legado racista.”

A organização nacional apoiou a decisão da filial nova-iorquina e disse que também está fazendo uma reavaliação histórica, examinando o papel de Sanger em suas origens como parte de uma avaliação do racismo institucional em suas clínicas e centros de atendimento.

A rejeição a Sanger acontece num momento de elevadas tensões raciais nos Estados Unidos. Muitas figuras históricas, monumentos e instituições estão sendo reexaminados. Estátuas foram derrubadas, um time de futebol americano mudou seu nome racista, as corridas da série Nascar proibiram as bandeiras confederadas em seus eventos. Heróis progressistas de passado complicado, como Sanger, não foram poupados. Seu trabalho pioneiro resultou em saúde reprodutiva para milhões de mulheres, mas sua associação com o movimento eugenista também moldou o serviço oferecido para as mulheres negras hoje.

O HuffPost conversou com acadêmicos que estudaram a história e atuação de Sanger para entender como ela passou de defensora da liberdade reprodutiva das mulheres para uma ideologia diretamente associada ao racismo.

Como Sanger passou do feminismo à eugenia

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Sanger participa de audiência no Senado americano, 1934.

Sanger, que estudou enfermagem, fundou em 1916 a primeira clínica de controle de natalidade dos Estados Unidos, numa época em que tanto os métodos contraceptivos quanto o aborto eram proibidos. Ela foi presa quase imediatamente. Mesmo assim, ela seguiu adiante e fundou a American Birth Control League (liga americana do controle de natalidade), entidade predecessora da Planned Parenthood. Seu trabalho se apoiava na crença de que as mulheres tinham o direito fundamental de controlar sua reprodução – uma ideia radical na época. “A maternidade forçada é a negação mais plena dos direitos da mulher à vida e à liberdade”, escreveu ela em um ensaio. 

Mas, nos anos 1920 e 1930, Sanger começou a se alinhar com o movimento eugenista, que na época contava com amplo apoio. Os eugenistas afirmam que a raça humana pode ser melhorada incentivando a reprodução das pessoas com traços “positivos”, como inteligência e disposição para o trabalho. Sanger acreditava que o controle de natalidade, além de libertar as mulheres de gestações indesejadas, também poderia beneficiar a sociedade.

Ellen Chesler, autora de Woman of Valor: Margaret Sanger and the Birth Control Movement in America (Mulher de coragem: Margaret Sanger e o nascimento no movimento do controle de natalidade nos Estados Unidos, em tradução livre), argumenta que ela adotou a linguagem do movimento eugenista para dar mais legitimidade às suas ideias. 

“Por mais difícil que seja aceitar isso hoje em dia, a eugenia gozava de mais respeitabilidade na época que o controle reprodutivo”, escreveu Chesler num posfácio para seu livro publicado em 2010. Ninguém queria falar da liberdade sexual das mulheres; era mais fácil vender políticas de incentivo à “melhoria” da sociedade.

Em entrevista ao HuffPost, Chesler negou que Sanger fosse racista ou que privilegiasse a reprodução de certas etnias ou raças. Sanger acreditava que as mulheres deveriam ter menos filhos, diz Chesler. Mas ela acrescenta que Sanger não apoiava a “eugenia negativa”, ou seja, uma tentativa de reduzir traços indesejáveis da raça humana. Ela promoveu a esterilização de pessoas com deficiências hereditárias, consideradas por Sanger ameaças à base genética.

“As visões delas simplesmente não podem ser apoiadas na era moderna, mas eram tão comuns nos anos 1920 e 1930 que é difícil condená-la completamente por isso”, afirma Chesler.

Linda Gordon, que escreveu sobre Sanger em seu livro Woman’s Body, Woman’s Right: the History of Birth Control Politics in America (Corpo da mulher, direito da mulher: a história da política de controle de natalidade nos Estados Unidos, em tradução livre), diz que a pioneira tinha foco exclusivo no controle de natalidade. “Na época dela, a eugenia era aceita como ciência, até mesmo por líderes negros”, escreveu Gordon no Facebook. “Dar a ela o mesmo tratamento dos defensores da escravidão e da segregação racial não nos ajuda a compreender a história do racismo neste país.”

Se a relação de Sanger com o movimento eugenista era baseada em necessidade ou em sua concordância com as ideias, a parceria mudou dramaticamente a conversa sobre controle reprodutivo, diz Dorothy Roberts, professora de direito da Universidade da Pensilvânia que escreveu sobre Sanger em Killing the Black Body (Matando o corpo negro, em tradução livre). Da crença de que as mulheres deveriam exercer controle sobre a reprodução, Sanger passou a acreditar que a sociedade teria o direito de tomar essa decisão para si, por meio de esterilizações forçadas.

“Conforme o movimento se desviou de sua origem feminista e radical, tendendo à eugenia, o controle de natalidade tornou-se uma ferramenta para regular pobres, imigrantes e negros”, escreve Roberts.

O racismo não era a motivação de Sanger, diz a autora, mas seus textos revelam uma atitude paternalista em relação aos negros. Ainda assim, Sanger acreditava que os problemas da sociedade eram causados pela reprodução daqueles que viviam em condições desfavoráveis – o controle da reprodução dessa parcela da população, portanto, serviria ao bem da raça humana. “Em uma sociedade marcada por hierarquia racial, esses princípios inevitavelmente resultaram em políticas cujo objetivo era reduzir a fertilidade das mulheres negras”, escreve Roberts em seu livro. “A decisão de quem é ou não apto, de quem deve ou não se reproduzir, incorporava as ideologias racistas da época.”

Em uma entrevista por telefone ao HuffPost, Roberts afirma que o legado mais prejudicial do trabalho de Sanger foi a associação do controle de natalidade – uma forma de libertação – com um plano coercitivo de controle populacional. Ainda hoje, há quem defenda o controle de natalidade como maneira de erradicar a pobreza, colocando a questão como um remédio para problemas da sociedade, não um direito humano.

“Esse é o problema que devemos atacar”, afirma ela, “não só o fato de Margaret Sanger dar nome a um edifício”.

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Passeata anual contra o aborto, em 1995.

No passado, a Planned Parenthood resistia a se afastar de Sanger, em parte porque grupos antiaborto negros e brancos usavam o nome da pioneira como arma em suas campanhas. Durante anos, esses grupos distorceram as ideias de Sanger, afirmando que ela queria exterminar a raça negra. Várias frases atribuídas a ela na literatura antiaborto estão fora do contexto ou simplesmente inventadas.

Ainda assim, persevera entre esses militantes a teoria da conspiração segundo a qual o objetivo de Sanger era reduzir as taxas de natalidades dos negros. Em julho, Kanye West disse à revista Forbes que as unidades da Planned Parenthood são “colocadas nas cidades por supremacistas brancos para fazer o trabalho do demônio”. Figuras públicas conhecidas, como o ministro da Habitação e Desenvolvimento Urbano Ben Carson e o juiz da Suprema Corte Clarence Thomas teorizaram incorretamente que o aborto foi idealizado para controlar a população negra.

A Planned Parenthood afirma que, na realidade, racistas são essas acusações por parte de grupos antiaborto, pois elas sugerem que as mulheres negras não deveriam ter ação para controlar seus próprios corpos.

A história de Sanger foi explorada de forma cínica pelo movimento antiaborto, diz Yoruba Richen, cineasta que abordou o tema em um documentário sobre ativistas antiaborto negros. “Há facções que usam o legado dela para semear suspeitas entre a população negra em relação à Planned Parenthood”, afirma.

Ainda assim, os grupos que defendem os direitos reprodutivos da mulher ainda não acertaram as contas com a história de Sanger, diz Richen, e isso significa mais munição para seus adversários. A Planned Parenthood agora tem a chance de lidar com o fato de que sua história está diretamente ligada a uma defensora da eugenia. Não se trata de capitulação perante os grupos antiaborto, mas sim de uma maneira de examinar sua história através de lentes raciais.

Melanie Newman, vice-presidente sênior de comunicação da Planned Parenthood Federation of America, afirma que a entidade já denunciou os comentários racistas e discriminatórios contra pessoas com deficiência – e vai continuar a fazê-lo.

Em 2016, a entidade publicou um documento tentando separar mitos e verdades a respeito de sua fundadora. Embora a Planned Parenthood a tenha defendido de acusações de racismo, reconhecem-se “grandes problemas nas visões de Sanger”.

O objetivo de Sanger nunca foi promover o genocídio dos negros, afirmou Newman num comunicado enviado ao HuffPost. “Ativistas antiaborto perpetuam falsidades sobre o legado dela há anos, infantilizando e prejudicando as mulheres negras e dificultando o acesso delas a cuidados médicos. Na Planned Parenthood, estamos ao lado das mulheres negras e confiamos que elas sejam capazes de tomar suas decisões. Mais importante: estamos comprometidos com as mudanças estruturais e institucionais que nos permitirão de fato atingir a liberdade reprodutiva para todas as mulheres.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e trauduzido do inglês.