LGBT
10/10/2019 04:00 -03 | Atualizado 10/10/2019 04:00 -03

'Há, sim, uma caça às bruxas', diz Marco Nanini, que estrela 'Greta'

Em entrevista exclusiva ao HuffPost, ator fala sobre "censura religiosa" do governo a temas LGBT, o apartheid social do País e sua primeira cena de nudez aos 71 anos.

Mesmo com tantos anos de trabalhos prestados nos palcos e no cinema, Marco Nanini ainda é reconhecido por um grande número de brasileiros como o certinho Lineu, da série de TV A Grande Família.

E ele ainda não largou a televisão, veículo que mais projetou sua carreira de 52 anos. Tanto que está presente na atual “novela das 8”, A Dona do Pedaço, como Eusébio, um tipo de Lineu mais malandro. Por isso mesmo, seu retorno à telona depois de quase dez anos de ausência vai surpreender muita gente.

No drama Greta, vencedor da última edição do Cine Ceará que estreia nos cinemas nesta quinta-feira (10), Nanini é Pedro, um enfermeiro homossexual, pobre e solitário que do alto de seus 70 anos ainda procura o amor, mesmo que tudo lhe mostre o contrário. Ele o encontra na forma de Jean (Demick Lopes), um homem acusado de homicídio que Pedro “salva” do hospital.

Estreia do cearense Armando Praça na direção, Greta é um drama duro, mas muito sensível. Uma releitura bem diferente da peça Greta Garbo Quem Diria Acabou no Irajá, de Fernando Melo, uma comédia que fez muito sucesso desde que foi encenada pela primeira vez, na década de 1970. As duas obras, porém, têm o mesmo tema: a solidão gay.   

Greta, no entanto, vai mais fundo nesse universo, inserindo outras questões, como a desigualdade social e o envelhecimento, por exemplo. Além de fazer uma bela reflexão sobre gênero — ao colocar uma mulher cis, Denise Weinberg interpretando a mulher trans Daniela, e a trans Gretta Star no papel da cis Meire. 

Foi sobre esses e outros assuntos que Nanini falou com exclusividade ao HuffPost Brasil. 

HuffPost: Quando o projeto foi apresentado para você pela primeira vez, o que mais te atraiu no papel do Pedro? Durante as filmagens e depois de finalizado, mudou alguma coisa na sua relação com ele?

Marco Nanini: Não. Não mudou nada. O Armando [Praça] me mandou o roteiro antes e eu gostei bastante. Mas aí ele veio aqui na casa e nós conversamos por horas. Acabei gostando muito dos dois, do roteiro e do Armando. A partir daí foi tudo muito simples. Fui para Fortaleza filmar e tudo correu muito bem. Ele é um ótimo diretor de atores. Foi um trabalho muito gostoso de fazer.

O Pedro repete muitas vezes a famosa frase atribuída a Greta Garbo (que na verdade é dita por um personagem que ela interpretou): “I want to be alone” [quero ficar sozinha]. Mas o que ele menos quer é estar sozinho. Como você vê essa contradição do personagem?

O Pedro é muito sozinho. É um homem pobre, um excluído. Essa sensação de solidão está sempre presente em sua vida e ele acaba repetindo essa frase como um mantra, como uma forma de se reafirmar.

As suas cenas com a Denise [Weinberg, que interpreta Daniela] são incríveis. Vocês passam uma intimidade muito grande. Como construíram essa relação? 

Ela é uma atriz espetacular. Conheço a Denise há muito tempo, mas nunca tínhamos trabalhado juntos, e isso foi ótimo. Essa intimidade em cena veio de muitos ensaios, mas também porque já somos atores experientes [risos]. Mas acho que isso aconteceu também com o Demick [Lopes, que interpreta Jean] e a Gretta Star [que interpreta Meire]. São personagens que convivem muito próximos e nós todos nos demos muitos bem desde o começo.

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Denise Weinberg é Daniela, uma mulher trans que não se curva nem para a morte.

Aliás, você está em uma novela que tem uma personagem trans interpretada por uma mulher trans, mas o jeito que ela é retratada (vista muito mais pela visão do homem) foi alvo de algumas críticas. Você acha que a televisão ainda tem muito a aprender com o cinema? E como você vê a questão da Denise, uma mulher cis, interpretando uma mulher trans, e a Greta Star interpretar uma mulher cis?

O cinema também tem poucos atores e atrizes trans, mas, assim como a TV,  está caminhando para que se chegue a um ponto em que não discutiremos se a pessoa é trans, cis ou o que for. Nós vamos chegar lá e o espectador vai entender isso.

O cinema e a TV estão caminhando para que se chegue a um ponto em que não discutiremos se a pessoa é trans, cis ou o que for.

Falando em televisão, o grande público associa muito você ao Lineu [da série A Grande Família], um personagem que você interpretou por muitos anos. Como você acha que essa parcela do público vai receber o Pedro? 

Não sei se eles vão assistir Greta. Não dá pra comparar o público da TV aberta com o que assiste cinema nacional. Mas o público entende o papel do ator. Uns vão ficar chateados? Tudo bem. Outros vão gostar. A função do ator é representar personagens diferentes, mostrar todas as possibilidades.

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Pedro (Marco Nanini) só quer ficar sozinho, mas não desiste do sonho de encontrar alguém especial, mesmo que isso seja apenas uma ilusão como Jean (Demick Lopes).

Filmes com temática LGBT acabaram entrando no centro de uma discussão sobre o financiamento por parte do governo. Você acha que se demorasse mais um pouco, Greta não conseguiria ser feito? Existe uma espécie de “caça às bruxas” em relação a produções LGBT para o cinema, TV e teatro atualmente? 

Eu acho que sim. Acho que Greta não teria sido feito. E há sim uma caça às bruxas. Com certeza. É uma censura religiosa que sufoca uma parte da população que é impedida de ser representada. Esse negócio de Estado laico, esquece isso. É assustador.

É uma censura religiosa que sufoca uma parte da população que é impedida de ser representada. Esse negócio de Estado laico, esquece isso.

Mas agora, já finalizado, você acha que o filme até se beneficia dessa discussão, atraindo um público “curioso”?  

Isso acontece às vezes mesmo. O tema de alguma maneira chama atenção, mas isso não define o sucesso de um filme, mais sim o todo, o roteiro, a direção, os atores, a trama...

Claro que o filme trata de assuntos relacionados a personagens LGBT, mas tanto o seu personagem quanto o da Denise são pessoas já nos seus, 60, 70 anos, uma faixa etária que quase nunca é protagonista. Como você vê esse retrato da solidão não apenas de pessoas LGBT, mas também com idade mais avançada? 

É sempre interessante interpretar o papel de alguém com 70, 80 anos. Quando eu era bem mais novo, não acreditava que chegaria aos 71 anos. Eu estava errado, felizmente [risos]. Com o avanço da ciência, ficou mais confortável envelhecer. Mas há um outro assunto muito importante que o filme trata, que é o apartheid social. Independentemente de gênero ou idade. Pedro é um homossexual pobre que trabalha em um hospital público. É um personagem que vive essa desigualdade que o País não quer resolver.

É bom o público acompanhar o envelhecimento de um ator.

Por conta de sua extensa trajetória na teatro, imagino que cenas de nu nunca foram um problema para você. Mas e agora? Como foi encarar uma cena em que você aparece nu aos 71 anos?

Engraçado... Mesmo assim, nunca fiz cena de nu no teatro. Nunca foi necessário aos personagens que eu interpretei. Nunca tive um roteiro em que um personagem fazia uma cena com nudez. Isso foi algo que me encantou no papel do Pedro. Mesmo sendo um homem de 70 anos, o papel pedia que ele tivesse cenas com nudez, e todas muito bem encaixadas. E isso ficou muito fácil, nada difícil. E é bom o publico acompanhar o envelhecimento de um ator. As pessoas já me acompanharam bem jovem, na meia-idade e agora mais velho. Acho legal fazer um personagem com a minha idade. É bonito ver esse processo.