POLÍTICA
08/05/2019 08:08 -03 | Atualizado 08/05/2019 08:12 -03

‘Não tem mais olavista na Apex. Está dominada por militares’, diz ex-diretor da agência

Para Márcio Coimbra, ligado a liberais, disputa de poder tornou clima na agência insustentável. Ele não pensa em voltar para o governo: “A experiência foi suficiente”.

Reprodução/Twitter/EduardoBolsonaro
Márcio Coimbra (à dir.) foi responsável pela agenda de Eduardo Bolsonaro em Washington após a vitória de Jair Bolsonaro nas eleições.

Márcio Coimbra, diretor de Gestão Corporativa da Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) teve sua saída confirmada na última segunda-feira (6), assim que o contra-almirante Sergio Segovia assumiu como terceiro presidente da agência em 4 meses.

A decisão de deixar o posto, em meio a uma crise na qual se viu envolvido, já tinha sido, inclusive, anunciada aos colegas. “Vi que não tinha mais clima para ficar”, disse Coimbra ao HuffPost Brasil.

Só que, junto com o diretor, que deixou o posto por decisão própria, foi destituída também a diretora de Negócios Letícia Catelani, pivô da exoneração do último presidente, o embaixador Mario Vilalva, e que teria se oposto, dentro da Apex, à indicação de Segovia. 

Apesar de ter sido colocado do lado da ala ideológica que disputa o poder com os militares em vários órgãos do governo Bolsonaro, Coimbra nega ser olavista. “A Apex tinha uma olavista, que era a Letícia, e não tem mais nenhum. Está dominada pelos militares.”

Coimbra avalia que agora será adotado um novo perfil no setor. “Acho que Apex vai passar por uma transformação e estará muito ligada ao novo presidente. É uma pessoa da Marinha, pelo visto os dois diretores que ele vai indicar também são da Marinha”, diz. 

Ele, no entanto, não descarta conflito. Coimbra ressalta a rixa entre Olavo e o ministro da Secretaria de Governo, general Santos Cruz, que acabou envolvendo os filhos de Bolsonaro e o próprio presidente no fim de semana. “Essa situação está se acirrando. Não sei aonde vai parar.” Segovia é próximo a Santos Cruz. 

Integrantes da corporação reagiram e o presidente Jair Bolsonaro admitiu que há uma guerra no governo

Essa situação está se acirrando. Não sei aonde vai pararMárcio Coimbra, ex-diretor de Gestão Corporativa da Apex

A nomeação de Segovia de fato parece varrer da instituição a interferência olavista, mas não significa fim no impasse entre militares e seguidores do guru ideológico do governo Olavo de Carvalho.

Isto porque a instituição é ligada ao Ministério das Relações Exteriores, comandado por Ernesto Araújo, indicado pelo ideólogo, e será presidida por um integrante da ala militar, criticada por Olavo

 

Acirramento do clima na Apex

Segundo Coimbra, a rivalidade estava entre Catelani e Vilalva, que comandavam as maiores partes do orçamento. A diretora, com 81% e o então presidente, com 16%. “Eu tinha 3%. A grande disputa de poder não estava onde eu estava, sempre atuei mais como uma ponte conciliadora entre os dois.”

Porém, em meados de abril, Vilalva concedeu uma entrevista na qual desqualificou os diretores e acusou o chanceler de falta de lealdade.

“Quando ele saiu, vi que não tinha mais clima para ficar. Aí fui amadurecendo a ideia, falei com a minha família… Vi que comecei a ser taxado de olavete, quando, na verdade, não tenho nada de olavete. Sou um dos poucos liberais do Brasil com assento na Sociedade Mont Pèletin [organização internacional para promoção do liberalismo]”, disse ao HuffPost.

“Não tinha mais porque eu ficar. Não entrei no governo para ver meu nome exposto e participar de disputa de poder. Entrei para contribuir. Saí no momento que vi que não podia contribuir mais.”

Não tinha mais porque eu ficar. Não entrei no governo para ver meu nome exposto e participar de disputa de poderMárcio Coimbra

A situação faz com que Coimbra não pense em voltar ao governo: “a experiência foi suficiente”.

O contato do estrategista político, que havia trabalhado no Partido Republicano nos Estados Unidos, com os Bolsonaro teve início quando ele montou a agenda do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) em sua primeira visita à Washington após a vitória de Jair Bolsonaro na eleição presidencial em outubro do ano passado.

“Levei ele na Casa Branca, no Congresso. De volta ao Brasil, o ministro Ernesto me ligou e convidou para ir para a Apex. Acabei indo para ter uma experiência de governo, que nunca tinha tido.”

 

Contratos espúrios

Nesta terça-feira (7), Letícia Catelani afirmou no Twitter que sua demissão se deve ao preço que está pagando por ter combatido a corrupção na Apex. “Sofri pressão de dentro do governo pela manutenção de contratos espúrios, além de ameaças e difamações. Não me intimidei!”

O movimento #somostodosletícia em defesa da ex-diretora foi um dos assuntos mais comentados do dia na rede social.

Catelani também está envolvida na polêmica que levou à queda de Alecxandro Carreiro, antecessor de Vilalva. Ele teria sido demitido após se desentender com a ex-diretora. 

Ela também teria atuado para impedir a nomeação de Segovia. Nos bastidores, circulava a informação de que Catelani teria afirmado que ele era despreparado e não era fluente em inglês, requisito fundamental para o posto.

Ao anunciar o novo presidente da Apex, a assessoria de comunicação da entidade destacou que o contra-almirante “tem pós-graduação em Política e Estratégia, pela Escola Superior de Guerra” e ”é fluente nos idiomas inglês e espanhol”.

De acordo com O Antagonista, além de destituir os indicados do chanceler, o novo presidente da Apex anulou o estatuto que havia sido alterado por Araújo. Deixa de ter validade o documento que impedia o presidente da entidade de demitir diretores como Catelani e Coimbra.