NOTÍCIAS
19/01/2019 13:59 -02 | Atualizado 19/01/2019 14:00 -02

Marcelo Yuka: De fundador de O Rappa a vice de Marcelo Freixo

Internado desde o início do mês, compositor morreu na noite desta sexta-feira (18).

Reprodução/Facebook/Dani Darcoso
"Era só mais uma dura, resquício da ditadura, mostrando a mentalidade de quem se sente autoridade neste tribunal de rua"

Principal compositor da banda O Rappa, Marcelo Yuka construiu uma trajetória marcada pela inclusão social. Ele morreu no fim da noite desta sexta-feira (18), no Hospital Quinta D’or, no Rio de Janeiro. O artista estava internado desde o início de janeiro, após sofrer um acidente vascular cerebral isquêmico.

Nascido em 1965, Marcelo Fontes do Nascimento Viana de Santa Ana ficou conhecido pelas letras carregadas de intenso teor social e crítico. As canções como “A feira”, “Minha alma (A paz que eu não quero)” e “O que sobrou do céu”, lançadas nos anos 1990, falavam de questões brasileiras como desigualdade social e racismo.

Era só mais uma dura, resquício da ditadura, mostrando a mentalidade de quem se sente autoridade neste tribunal de rua.“Tribunal de rua” (1999)

O baterista foi um dos fundadores da banda O Rappa, em 1993, e permaneceu no grupo até 2001.

No ano anterior, levou 9 tiros ao tentar impedir um assalto na Tijuca, o que o deixou paraplégico.

Sem poder mais tocar bateria, em 2004 o músico fundou a banda F.UR.T.O. (Frente Urbana de Trabalhos Organizados), faz parte de um projeto social homônimo.

A partir desse momento, Yuka intensificou sua atuação como ativista. Participou de entidades como a FASE (Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional do Rio de Janeiro), em parceria com o AfroReggae, e a B.O.C.A. (Brigada Organizada de Cultura Ativista), voltada para atividades culturais para a população carcerária.

Em 2012, concorreu como candidato a vice-prefeito na chapa do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) à prefeitura do Rio de Janeiro.

A história do compositor é contado no livro “Não se preocupe comigo”, lançado em 2014 com Bruno Levinson. A autobiografica conta lembranças dos bailes de subúrbio, incluindo encontro casual e marcante com o traficante Marcinho VP no alto do Morro Santa Marta em um evento de hip-hop.

O documentário “No caminho das setas”, lançado em 2011, por sua vez, tem como foco o ativismo e a bala que o fez ficar tetraplégico. O filme da diretora Daniela Broitman ganhou a categoria de melhor montagem no Festival do Rio daquele ano.

Quem segurava com força a chibata agora usa farda. Engatilha a macaca. Escolhe sempre o primeiro negro pra passar na revista."Todo Camburão tem um Pouco de Navio Negreiro" (1994)

Yuka sofreu com problemas de saúde ao longo da vida. Seu último disco, “Canções para depois do ódio”, foi lançado em janeiro de 2017 , quando o músico estava internado. Ele voltou aos hospitais em agosto do ano passado, quando sofreu outro acidente vascular cerebral.

O músico entrou em coma induzido em 9 de janeiro.O velório será de 13h às 19h, aberto ao público, na Sala Cecília Meireles, na Lapa.

Artistas lamentam morte de Marcelo Yuka

Artistas e amigos lamentaram a perda do compositor Marcelo Yuka. A cantora Marisa Monte lembrou da participação em um álbum da banda F.U.R.T.O., com a canção  “Desterro”, sobre refugiados e armas, e chamou Yuka de visionário.

O rapper Emicida enalteceu a luta social do músico.

Já o rapper Marcelo D2 lembrou de quando conheceu o colega.

O deputado federal eleito Marcelo Freixo (PSOL-RJ), que dividiu a chapa eleitoral com o ativista em 2012, também se despediu. “Amigo, sempre comentei com meus filhos que você era a pessoa com maior capacidade de me surpreender. Nunca vi tanto amor caber dentro de uma pessoa.

Ele também lembrou da participação da vereadora Marielle Franco, executada em 2018, na campanha, “Lembro perfeitamente da sua cara quando te convidei pra ser candidato a vice prefeito em 2012. Sua surpresa seguida de uma disposição inacreditável. Marielle estava naquele dia. Fizemos uma campanha linda. Vimos os olhos de tantos jovens brilharem. Vi seus olhos encharcados inúmeras vezes. Sim, política pode ser feita com amor e sonho”, escreveu.

Outros integrantes do PSol, como a deputada federal eleita Talíria Petrone (PSol-RJ), próxima à Marielle, que se tornou símbolo da luta pela igualdade social, racial e de gênero, reforçou as lembranças da trajetória do ativista.

Também foi compartilhada nas redes sociais a charge feita por Carlos Latuff em homenagem a Yuka.