COMPORTAMENTO
20/03/2019 01:00 -03

Quem é Marcelo Gleiser, físico que venceu 'Nobel' do diálogo e da espiritualidade

Gleiser rejeita a noção de que apenas a ciência pode trazer as verdades sobre a realidade.

O físico e astrônomo brasileiro MarceloGleiser, foi anunciado como o grande vencedor do Prêmio Templeton 2019 na terça-feira (19). O prêmio é uma espécie de “Nobel da espiritualidade” e já foi concedido a nomes como Madre Teresa de Calcutá (em 1973) e Dalai Lama (em 2012).

De acordo coma fundação Templeton, a honraria é entregue a profissionais que tenham feito “uma contribuição excepcional para afirmar a dimensão espiritual da vida, seja por insights, descoberta ou trabalhos práticos.”

Mas você conhece Marcelo Gleiser? Ou sabe do que trata a sua pesquisa?

Divulgação

O que é o Prêmio Templeton? 

Nós habitamos qual porcentagem do universo? Nós temos livre arbítrio? A evolução é unidirecional? Somos imortais? O universo foi criado? O que é o amor?

Essas são algumas das perguntas que guiam a fundação Templeton. De acordo com a descrição no site da instituição, ela existe para que as pessoas compreendam mais profundamente o universo e tenham noção do seu lugar no mundo. 

Para isso, eles encorajam pesquisas e produções em assuntos que incluem a complexidade da vida, da evolução, do perdão e até do livre arbítrio, em áreas que vão da ciência à religião.

O prêmio, que existe desde 1972, doa um valor de 1,1 milhão de libras (cerca de R$ 5,5 milhões) para quem “fez uma contribuição excepcional para afirmar a dimensão espiritual da vida, seja através de insights, descoberta ou trabalhos práticos.”

 

Qual a importância de Marcelo Gleiser ser nomeado?

Gleiser, 60 anos, é professor de física e astronomia no Dartmouth College, nos Estados Unidos. Ele ganhou reconhecimento internacional por meio de seus  livros, artigos, blogs, documentários e conferências em que apresenta a ciência como uma ferramenta que ajuda a entender as origens do universo e da vida. Ele é o primeiro brasileiro a receber a honraria.

 

O que dizem as suas pesquisas?

Por mais de 35 anos, o físico brasileiro examinou uma série de tópicos, que vão desde o comportamento de campos quânticos até a cosmologia do universo. Suas teorias já contam com mais de 100 artigos revisados e publicados.

De acordo com a fundação Templeton, Gleiser é uma voz importante entre os cientistas que rejeitam a noção de que apenas a ciência pode trazer as verdades fundamentais sobre a natureza da realidade.

“Em vez disso, em sua carreira paralela como intelectual, ele revela os vínculos históricos, filosóficos e culturais entre ciência, humanidades e espiritualidade, e defende uma abordagem complementar ao conhecimento, especialmente em questões em que a ciência não pode fornecer uma resposta”, explica a instituição.

O seu primeiro livro foi A Dança do Universo. A obra foi pensada como um livro didático para cursos não científicos na Universidade de Dartmouth. O texto explora as origens filosóficas e religiosas do pensamento científico e sua influência dos tempos antigos até os modernos.

Outros quatro livros em inglês e mais nove em português foram publicados ao longo dos anos. Neles, é possível notar o crescente ceticismo do físico em relação a uma suposta perfeição matemática da natureza.

Ao contrário, Gleiser busca celebrar as imperfeições, assimetrias e desequilíbrios presentes na realidade. 

Em 1994, o físico foi um dos responsáveis pela descoberta dos “oscillons” - pequenos e persistentes “aglomerados” de energia feitos de muitas partículas. Isso continua sendo parte de suas investigações.

Atualmente, ele também se dedica a explorar como a estabilidade de sistemas físicos - desde escalas subatômicas até astrofísicas - está codificada na complexidade de suas formas.

Gleiser é uma das vozes mais influentes no que se chama de astrobiologia. Ele estuda a origem da vida na Terra, em particular o papel das assimetrias bioquímicas na formação inicial de polímeros, precursores de biomoléculas complexas. 

“Meu trabalho como cientista, como físico teórico, é diferente do meu trabalho como intelectual público que está escrevendo livros, ensaios e fazendo documentários. Nisso, eu tento mostrar para as pessoas o fascínio que é nossa relação com a natureza. Nesse lugar eu resgato o que eu chamaria de espiritualidade no processo da busca científica”, explicou o cientista em entrevista ao O Globo

 

Como Marcelo Gleiser enxerga a ciência?

Para Marcelo Gleiser, a ciência é o “engajamento com o mistério” e é primordial para entender a condição da humanidade.

Seus trabalhos defendem que a ciência moderna trouxe a humanidade de volta ao “centro” da criação - o que ele chama de “humanocentrismo”.

Ou seja, quanto mais nós conhecemos o universo, mais podemos entender a raridade que é ser humano.

Como Marcelo Gleiser enxerga a espiritualidade?

O físico nasceu no Rio de Janeiro em uma família influente na comunidade judaica e recebeu uma educação conservadora em escolas hebraicas. Hoje, ele se descreve como agnóstico, mas também se declara como não ateu.

“Eu vejo o ateísmo como sendo inconsistente com o método científico, pois é, essencialmente, a crença na descrença”, afirmou durante uma entrevista para a revista Scientific American. “Você pode não acreditar em Deus, mas afirmar com certeza sua inexistência não é cientificamente consistente.”

Para ele, a espiritualidade é algo muito mais amplo do que a religião como instituição. 

“Tem a ver com a nossa relação com o mistério da existência e que transcende questões como: ‘Em que Deus você acredita?’ ou ‘Que igreja você frequenta?’”, explicou ao O Globo

Em seus livros mais recentes, como A Ilha do Conhecimento e A Simples Beleza do Inesperado, Gleiser passou a discutir a ideia de que existem limites para o que a ciência e a razão humanas possam descobrir sobre o universo.

“A gente nunca vai poder ter um conhecimento final sobre o Universo, mas eu enxergo isso como uma coisa positiva. A ciência é um flerte com o mistério. Einstein definia isso como o sentimento religioso cósmico, que seria a fonte de toda a arte e de toda a ciência”, afirmou à Folha