18/01/2019 00:00 -02 | Atualizado 18/01/2019 10:57 -02

Marcela Lisboa, a mina que busca mudar o olhar da publicidade sobre a favela

Jornalista comanda agência de comunicação e planejamento com foco no alcance das classes C e D.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Marcela Lisboa é a 317ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Nilza é uma mulher que, nas últimas décadas, foi conhecida e reconhecida pela maioria dos moradores do Complexo da Penha, na zona norte do Rio, pela sua atuação como fotógrafa. Anos atrás, ela era uma das únicas pessoas com câmera fotográfica no lugar, e era responsável, por puro prazer, pela fotografia das crianças, adultos e cotidiano da favela. Quando sua sobrinha Marcela Lisboa, hoje com 27 anos, era uma criança que havia aprendido a escrever, Nilza lhe presenteou com um diário. Parecia estar escrito, em outros lugares que não naquelas páginas, que começava ali sua trajetória na comunicação. Nos últimos anos, ela despontou junto a um grupo de novas potentes comunicadoras do Rio de Janeiro, e em 2018 lançou a Naya, agência de planejamento estratégico com foco nas classes C e D.

A gente emana vida: não tem como conter, não tem como matar.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"Eu vi que tinha um mundo de possibilidades para explorar."

Além da sua segunda mãe, Nilza, Marcela reverencia a todo tempo as mulheres de sua família. A influência da tia foi fundamental, mas a construção de Marcela como comunicadora também passou pela criação na igreja evangélica, onde sempre foi estimulada a falar. Em entrevista ao HuffPost Brasil, ela explica que sua grande chamada para a política foi em 2013, depois das jornadas de junho. Com a bagagem já acumulada desde a infância, não teve medo: participou de campanhas eleitorais, foi filiada a partido político e a organizações estudantis, mas logo percebeu que poderia direcionar sua ação para outros temas.

“Eu vi que tinha um mundo de possibilidades para explorar, e que eu não precisava dedicar isso a um candidato específico, que eu podia fazer pelo que eu acreditava. Quando entendi o meu corpo como político, eu vi o quanto era importante esse poder de influência na comunicação, e como eu podia fazer coisas que fossem relevantes para o meu povo. E quando eu atinjo meu povo, acabo atingindo todos que interessam de fato”, explica.

Ninguém vai vender geladeira para a minha mãe melhor que eu.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Além da sua segunda mãe, Nilza, Marcela reverencia a todo tempo as mulheres de sua família.

De lá para cá, construiu a equipe responsável pelo Instituto Black Bom, um local para empreendedores cariocas, trabalhou como freelancer na área de comunicação para diferentes clientes, até transformar sua trajetória em agência. A Naya surgiu em maio de 2018, com a ideia de que “o boca a boca é a maior plataforma de comunicação”. Com foco em comunicar para as classes C e D, Marcela e equipe, sempre em equipe, pensam em estratégias online e offline para atingir o público.

“Eu acredito muito no que eu faço, porque acho que muitos podem fazer mas ninguém vai vender geladeira para a minha mãe melhor que eu. A gente tem que parar de olhar para a favela como um lugar de problema e começar a olhar para ela como um lugar que pensa soluções, também”, afirma. E é por nascer e estar dentro da favela, que Marcela reconhece que está passos à frente de outros que desconhecem aquela realidade mas queiram comunicar ali.

As soluções pensadas pela Naya nascem também de uma observação constante do cotidiano, de muito estudo e pesquisa. Formada em Jornalismo, ela percebe que o poder de uma agência como a sua é tirar o vício do olhar dos moradores. “A comunicação criativa é uma solução para a favela. O funk, por exemplo, é comunicação criativa e é solução: é circulação de dinheiro, é cultura. Existe um olhar viciado que é muito medíocre e faz com que a gente se odeie dentro da favela. Penso muito em como comunicar para a minha mãe e fazer ela mudar a percepção sobre o lugar em que vive, por exemplo”, analisa.

A gente tem que parar de olhar para a favela como um lugar de problema e começar a olhar para ela como um lugar que pensa soluções.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Deixar de tratar o dinheiro como um tabu e aprender a lidar melhor com negócios também é uma preocupação de Marcela.

A Naya trabalha com tudo que for da área de comunicação, principalmente criação. Audiovisual, estratégia, planejamento e mídia são algumas das especialidades do grupo. Para 2019, o plano é colocar na rua a Mecnologia, uma série documental, com nome que derivado da gíria “mec” (algo como “está tranquilo”, em bom carioquês) que pretende mostrar as tecnologias que surgem a partir da favela.

Recentemente, Marcela e outros comunicadores fora do mainstream foram convidados a dar oficinas em um grande grupo de comunicação, falando sobre essa nova forma de trabalho que vem se aperfeiçoando longe dos olhos da zona sul carioca. Questionada sobre o momento em que a comunicação em geral vive, sobre abrir-se mais à representatividade, ela destaca que nada vem de graça. 

“A gente arrombou uma porta. Ela nunca está aberta, e existe um limite do racismo no Brasil, que é até onde eles nos deixam ir. A gente também não pode ser inocente, de achar que vão mudar tudo porque a Marcela falou. Eu pincelo, passo e pega a mensagem quem quer.”

A porta nunca está aberta, e existe um limite do racismo no Brasil, que é até onde eles nos deixam ir.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"Não precisa ter culpa por viver bem."

Deixar de tratar o dinheiro como um tabu e aprender a lidar melhor com negócios também é uma preocupação que Marcela tem em relação aos seus, que precisa cada vez ser abolida. “É a cultura do pedir ou vender de graça, por exemplo. Não é um problema fazer de graça, mas a gente também tem que pagar contas”, defende. E acrescenta que ganhar dinheiro, definitivamente, não é um problema: “Não precisa ter culpa por viver bem. Eu sou o sonho dos meus ancestrais, e estou aqui para viver o melhor mesmo. Eu quero viver bem e criar possibilidades para que todos vivam bem”, afirma, com olhos brilhando de quem tem um sonho e acredita que não é impossível realizá-lo.

Em um cenário político instável, em uma área com episódios de racismo que não cessam e com a dificuldade de furar um bloqueio estabelecido há séculos, ela não tem medo de ser fiel às suas convicções: “Eu não tenho medo do futuro. Acho que na medida que a gente avança, vão tentar conter o nosso avanço, mas a gente emana vida: não tem como conter, não tem como matar”.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto “Todo Dia Delas” ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

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