MULHERES
07/11/2019 10:43 -03 | Atualizado 07/11/2019 10:44 -03

Manuela, Joice e a expressão do machismo na política

Joice se declarou vítima do "mais sujo machismo", e Manuela pediu para que ela não se silencie.

Montagem/AP/Divulgação
Manuela D'Ávila e Joice Hasselmann. 

À primeira vista, Manuela D’Ávila e Joice Hasselmann não parecem ter muita coisa em comum. A primeira é filiada a um partido de esquerda, o PCdoB. A segunda, até meados de outubro, era a líder do governo no Congresso e foi a deputada federal eleita com o maior número de votos pela sigla do presidente Jair Bolsonaro, o PSL.

Manuela defende abertamente o aborto. Joice diz que as feministas têm “comportamento vexaminoso”. No entanto, o fato de as duas serem mulheres e ocuparem espaço na política as tornaram alvo comum do machismo.

Em uma carta publicada nas redes sociais na última quarta-feira (6), Manuela D’Ávila escreve para sua opositora ideológica se solidarizando pelos ataques e ameaças que Joice Hasselmann e sua família têm sofrido nas redes sociais desde que a deputada passou a criticar o governo Bolsonaro.

“Não é mesmo nada fácil ser mulher e cair nas mãos da milícia virtual que governa o Brasil. Não é fácil ver como eles envolvem aos nossos filhos para buscar nos destruir emocionalmente. Eles buscam nos liquidar, Joice, nos levar as lágrimas. Como te levaram na tribuna ontem, como me levam quase todos os dias há longos quatro anos”, escreveu D’Ávila.

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Cara Joice, Como vai? Espero que sinta um pouco melhor e mais forte no dia de hoje. Nunca estivemos juntas mas recentemente participamos, através do telefone, da gravação do podcast do “agora que são elas”. Rimos um bocado em nosso debate. Naquela ocasião você ainda era líder do governo e divergia de mim com relação a existência do machismo no congresso nacional. Bastava “se impor no grito que tudo estaria resolvido”. Fico sinceramente triste por você ter percebido, na prática, que aquilo que eu dizia era real de uma maneira tão brutal e cruel. O machismo existe ali porque existe no mundo. Eu lhe escrevo para ser solidária com tudo o que você tem passado. Não é fácil. Não é mesmo nada fácil ser mulher e cair nas mãos da milícia virtual que governa o Brasil. Não é fácil ver como eles envolvem aos nossos filhos para buscar nos destruir emocionalmente. Eles buscam nos liquidar, Joice, nos levar as lágrimas. Como te levaram na tribuna ontem, como me levam quase todos os dias há longos quatro anos. Eles fazem isso, Joice, pra depois nos chamarem de fracas. Eles querem provar que não somos capazes de desempenhar aquilo que nos propomos. Eu entendo bem o que você está sentindo. No ano de 2015, Joice, enquanto você estava nos caminhões de som da Avenida Paulista, ao lado daqueles meninos que divulgavam imagens terríveis da Presidente Dilma, eu estava grávida e vivia o momento mais feliz da minha vida. Aí eles, aqueles meninos, inventaram que eu fiz uma viagem - com dinheiro público - para Miami para comprar um enxoval para Laura. Eu não conheço Miami, Joice. Nem sequer fiz enxoval. Jamais viajaria com dinheiro público. Para espalhar a mentira, eles utilizaram uma foto minha, com meu marido e meu enteado. O Gui tinha onze anos. Por isso, Joice, sei bem como é horrível ver o filho de onze anos receber mentiras pela internet a respeito da mãe. E digo mais: sei como é quando ele recebe mentiras sobre si próprio. Pouco tempo depois, Joice, em outubro, Laura tinha 45 dias e tomou um tapa durante um show de meu marido. Ela tinha 45 dias e uma mulher bateu nela!!!! Sabe por que? porque acreditou que o pano que a enrolava havia sido comprado em Miami. (Segue abaixo)

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De acordo com Manuela, essas ameaças são parte de uma estratégia de “milícias virtuais” para que depois as mulheres possam ser chamadas de “fracas”.

No texto, ela também descreve como foi alvo de mentiras em 2015, quando disseram que ela havia usado dinheiro público para fazer uma viagem pessoal.

“Por isso, Joice, sei bem como é horrível ver o filho de onze anos receber mentiras pela internet a respeito da mãe. E digo mais: sei como é quando ele recebe mentiras sobre si próprio”, diz o texto.

Em outro parágrafo, D’Ávila descreve como sua filha Laura, com apenas 45 dias de idade, foi alvo de violência em um evento público. No fim da carta, ela pede que Joice Hasselmann não silencie as agressões que tem sido alvo. 

“Precisamos que você faça isso para que nenhuma outra pessoa passe pelo estamos passando, para que mais nenhuma filha ou filho seja sofra em meio a esse jogo sujo.”

Na terça-feira (5), Joice Hasselmann fez um discurso emocionado na Câmara dos deputados relatando que passou a ser xingada de “porca” e outros termos ofensivos na internet.

De acordo com ela, o País hoje é comandado pela “república do Twitter” e pela “república da filhocracia”.

A divergência entre Hasselmann e o governo Bolsoanro atingiu seu ápice quando a deputada apoiou a manutenção do deputado Delegado Waldir (PSL-GO) na liderança do PSL na Câmara. Em retaliação à sua decisão, Hasselmann foi desvinculada da liderança do governo pelo presidente Jair Bolsonaro. Ele defendia que seu filho, Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), ocupasse o cargo de Waldir.

Em seu discurso, a deputada do PSL afirmou que foi a primeira vez que se sentiu vítima do “mais sujo machismo” e chorou quando disse que as ofensas também atingiam os seus filhos. 

“Não quero uma direita estúpida que odeie as pessoas”, declarou.