OPINIÃO
21/10/2020 13:00 -03 | Atualizado 21/10/2020 15:29 -03

Uma autora branca para o Dia da Consciência Negra em pleno 2020

Como ainda é possível a Globo não contratar roteiristas e diretores negros para o primeiro escalão de seus projetos?

Artur Meninea/Gshow
Manuela Dias, autora da novela "Amor de Mãe". 

O fatídico 2020 nem sequer terminou, mas uma certeza já temos: ele ficará marcado como um ano paradigmático pela luta por igualdade racial em todo o globo. Nunca antes o mundo se debruçou tanto sobre a pauta racial e todos os seus desdobramentos como estamos presenciando agora.

O racismo estrutural, o pós-colonialismo e a luta antirracista não só foram como continuam sendo a principal agenda do ano que fez o mundo parar por conta de uma pandemia global. Debates, discussões e medidas radicais para erradicar de vez a desigualdade racial em vários setores da sociedade se tornaram o grande mote. Tudo acarretado pelo vil assassinato do cidadão afro-americano George Floyd por um policial branco em plena luz do dia na cidade de Minneapolis, em junho passado. Cena filmada e globalmente viralizada. 

O assassinato em questão deflagrou uma inacreditável e nunca antes vista onda de manifestações antirracistas do Black Lives Matter - movimento ativista internacional, com origem na comunidade afro-americana - em todo o território estadunidense, que logo se espalhou pelo mundo.

A partir de então, vestir a camisa antirracista passou a ser a via de regra dos novos tempos. Grande parte da branquitude brasileira, que outrora jamais pensou sobre seus privilégios raciais, passou a “militar” em prol da causa. Perfis no Instagram de celebridades, artistas, pensadores e influenciadores brancos brasileiros - abarrotados com milhões de seguidores - passaram a ser “ocupados” por pessoas negras, num ato de “empatia” para com a causa, com o objetivo de esclarecer seus seguidores sobre as sequelas racistas sofridas durante o longo e tortuoso processo iniciado há mais de 500 anos com a colonização europeia. Àquela altura, todos bateram no peito e vociferaram a plenos pulmões: “somos antirracistas”.

Mas, se por um lado, havia sinceridade em parte da sociedade civil e também de grandes empresas e conglomerados de mídia brasileiras e estrangeiras como Netflix, HBO, Magazine Luiza, Bayer, entre outros, por outro lado, outras corporações e artistas parecem já  ter voltado à “normalidade” da exclusão quatro meses depois do início da grande onda antirracista.

Esse é o caso da Globo, por exemplo. A emissora carioca anunciou na última segunda (19) que exibirá um especial dedicado ao Dia da Consciência Negra, no próximo dia 20 de novembro. Até aí, tudo certo. Além disso a Globo anunciou que a atração levará a assinatura de Lázaro Ramos na direção e contará com um elenco de peso de atores negros do porte de Fabrício Boliveira e Babu Santana, só para citar dois. Tudo mais certo ainda.

O escândalo da vez foi que o tal especial comemorativo ao Dia da Consciência Negra - que contará a vida de vários personagens históricos (estranhamente todos norte-americanos) como Muhammed Ali, Martin Luther King, Nina Simone e Angela Davis - tem como autora uma mulher branca.

Sim, a Globo anunciou que levará ao ar no Dia da Consciência Negra um especial escrito por uma autora branca.

“Ah, mas o Lázaro Ramos, diretor do especial, é negro”, dirá a turma do “deixa disso”.

“Ah, mas isso já é uma grande evolução, a mudança virá aos poucos”, dirão alguns outros.

Mas a resposta é NÃO, não basta apenas um diretor preto. NÃO, não basta “uma grande evolução”. NÃO, não basta esperar que a mudança venha aos poucos em se tratando de uma concessão pública num país de maioria negra. Até porque a mudança já chegou. E só a Globo ainda não viu. Ou não quer ver.

Todavia, tendo a crer na segunda opção...

 

Senão, vejamos: em 2017 a FLUP ( Festa Literária das Periferias) lançou a primeira edição do Laboratório de Narrativas Negras numa parceria com a Globo, onde jovens autores e talentos negros, após passarem por uma criteriosa seleção, foram submetidos a um processo de imersão na arte do roteiro televisivo aos moldes da escola global. De lá saíram nomes como o da jovem roteirista Cleissa Martins, cujo projeto, nascido durante o laboratório, se materializou em um especial de Natal da emissora no ano passado, trazendo no elenco nomes como Milton Gonçalves no papel de um Papai Noel negro, Fabrício Boliveira e Camila Pitanga. Foi o primeiro especial de TV composto por um elenco todo negro. Isso em 2019. Isso no país de maior população negra depois da Nigéria.

Fato é que além de Cleissa, outros nomes frequentaram o Laboratório de Narrativas Negras naquele ano e nos anos posteriores. A própria Globo criou uma Oficina de Comédia dedicada à formação de roteiristas negros em 2018 convidando nomes como o comediante e influenciador Yuri Marçal, e até mesmo esta que vos escreve.

Isso sem contar o sem número de talentos do cinema como Glenda Nicácio, Carmen Luz, Joice Prado e Renata Martins, só para citar algumas, que tem trabalhos autorais premiados em festivais de cinema importantes.

Dito isso, ficam algumas perguntas que não querem calar: como é possível, a essa altura do campeonato, que a maior emissora do Brasil continue negando o óbvio? Como é possível num ano como 2020 formalizarem o anúncio de Manuela Dias - uma mulher branca e autora da novela interrompida pela covid-19, Amor de Mãe - como autora de um especial em comemoração ao Dia da Consciência Negra? Como ainda é possível a Globo não contratar roteiristas e diretores negros para o primeiro escalão de seus projetos?

A resposta é: o racismo estrutural.

Não existem motivos que justifiquem tal escolha. Não após os diversos acontecimentos que suscitaram tantos debates, discussões e reflexões tanto na esfera pública como privada.

Mas se nos EUA e Europa todo esse debate da luta antirracista está de fato sendo colocado em prática, no Brasil, principalmente no setor audiovisual, a coisa ainda caminha lentamente.

Sendo um dos países mais racistas do mundo, o Brasil continua, por meio de atos como esse, justificando o sucesso de seu projeto colonial: o genocídio não somente físico como também intelectual da maior parcela da população. 

Afinal, somos um país pautado pela história dos “vencedores”. Um país que insistem que as narrativas sejam contadas pelo olhar de um espelho invertido, virado para a Europa, que nega seu próprio povo. Um país triste e atrasado onde o racismo é ainda mais forte do que a vontade de potência.

Este artigo é de autoria de articulista do HuffPost e não representa ideias ou opiniões do veículo. Assine nossa newsletter e acompanhe por e-mail os melhores conteúdos de nosso site.