LGBT
09/09/2019 14:00 -03 | Atualizado 09/09/2019 18:51 -03

'O brasileiro não precisa de tutor', diz manifesto de autores contra censura na Bienal

Prefeito do Rio, Marcelo Crivella, mandou recolher exemplares de HQ com beijo gay; estimativa da Bienal aponta que 4 milhões de livros foram vendidos no evento.

Reprodução
"Vingadores: A cruzada das crianças", da Marvel, foi publicada no Brasil em 2012 e apontada como "imprópria" para jovens, segundo o prefeito do Rio de Janeiro.

“Não precisamos ter quem determine o que podemos ler, pensar, escrever, falar ou como devemos nos relacionar. O brasileiro não precisa de tutor”. É com este argumento que o manifesto assinado por escritores, editores e membros da organização da Bienal do Livro do Rio se posiciona contra as “insistentes tentativas de censura” sofridas desde quinta-feira (5), quando o prefeito Marcelo Crivella mandou recolher exemplares da HQ Vingadores: A Cruzada Das Crianças, da Marvel, por conter um beijo gay entre dois personagens.

No último fim de semana, após decisão do TJ-RJ autorizar a inspeção na Bienal e fiscais da Secretaria de Ordem Pública (SEOP) circularem pelo evento em busca de obras com conteúdo “impróprio”, editoras, escritores e leitores realizaram protestaram no evento e geraram movimentação nas redes sociais.

“Se engana quem pensa que o alvo era a Bienal Internacional do Livro. O alvo somos todos nós cidadãos brasileiros, pois não precisamos ter quem determine o que podemos ler, pensar, escrever, falar ou como devemos nos relacionar. O brasileiro não precisa de tutor. Precisa de educação para que cada um possa fazer suas escolhas com consciência e liberdade”, diz texto assinado por 70 escritores, entre eles Thalita Rebouças, Laurentino Gomes, Lázaro Ramos e Pedro Bandeira.

O texto, que defende a diversidade e a liberdade de expressão, passou a ser lido no final de cada mesa de debate na tarde do último domingo (8), data de encerramento do evento. Também foi gravado um vídeo em que 24 autores leem versos da canção Apesar de você, de Chico Buarque. Lançada em 1970, a canção faz crítica ao regime militar que tomou o Brasil de 1964 a 1985.

O manifesto também elogia as duas decisões de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli e Gilmar Mendes, publicadas também no último domingo, que impediram apreensões de livros na Bienal, determinadas pelo TJ-RJ a pedido da Prefeitura do Rio de Janeiro. 

“Do contrário, se criaria uma jurisprudência que colocaria todos os eventos culturais, autores, editoras e livrarias do Brasil à mercê do entendimento do que é próprio ou impróprio a partir da ótica de cada um dos 5.470 prefeitos do País”, completa o texto.

Segundo dados divulgados pela Bienal do Livro do Rio de Janeiro, entre os dias 30 de agosto e 8 de setembro, cerca de 600 mil pessoas frequentaram o evento que, neste ano, foi realizado no Riocentro. 

Estima-se que tenham sido vendidos cerca de 4 milhões de exemplares em 10 dias de evento, o que foi celebrado por editoras, em meio à situação de crise das livrarias e mercado editorial. Cerca de 5,5 milhões de livros estavam disponíveis no evento. 

“Encerramos essa edição histórica da Bienal Internacional do Livro Rio com o coração cheio de orgulho e determinação. A Bienal não acaba hoje. Ela seguirá com cada um de nós todos os dias. O festival foi memorável. Deu voz e ouvidos a todos os públicos”, continua texto do manifesto. “Viva a Bienal do Livro Rio! Via a cultura! Viva a liberdade e a democracia!”, finaliza.

Leia texto completo do manifesto assinado na Bienal do Livro do Rio:

A Bienal Internacional do Livro Rio é a oportunidade que temos, a cada dois anos, para nos reunir, encontrar nossos públicos, nos inspirar e debater livremente sobre todo e qualquer tema, sem restrições e com empatia. Um evento de conteúdo qualificado e diverso, reconhecido nacional e internacionalmente como o maior festival cultural do Brasil.

Nos últimos dias, a Bienal se tornou um abrigo democrático, ao lado de 600 mil pessoas que prestigiaram o evento, contra as insistentes tentativas de censura. Se engana quem pensa que o alvo era a Bienal Internacional do Livro. O alvo somos todos nós cidadãos brasileiros, pois não precisamos ter quem determine o que podemos ler, pensar, escrever, falar ou como devemos nos relacionar. O brasileiro não precisa de tutor. Precisa de educação para que cada um possa fazer suas escolhas com consciência e liberdade. 

Foi com alívio e muito orgulho que recebemos as duas decisões de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) neste domingo (8/9) impedindo que a Bienal Internacional do Livro continuasse sofrendo assédio à literatura e aos seus leitores. Do contrário, se criaria uma jurisprudência que colocaria todos os eventos culturais, autores, editoras e livrarias do Brasil à mercê do entendimento do que é próprio ou impróprio a partir da ótica de cada um dos 5.470 prefeitos do país.

Encerramos essa edição histórica da Bienal Internacional do Livro Rio com o coração cheio de orgulho e determinação. A Bienal não acaba hoje. Ela seguirá com cada um de nós todos os dias. O festival foi memorável. Deu voz e ouvidos a todos os públicos. Reuniu e celebrou a cultura junto com autores, artistas, pensadores, lideranças de movimentos sociais, pastor evangélico, monge zen-budista, jornalistas, acadêmicos, ativistas, chef de cozinha e muitos outros.

Viva a Bienal do Livro Rio! Via a cultura! Viva a liberdade e a democracia!

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