Eis por que você deve se manifestar quando vê posts racistas no seu feed

Se vidas negras importam e você quer se aliar ao movimento, tem de se posicionar mesmo que isso signifique contestar posts racialmente insensíveis nas redes sociais.

Boas pessoas brancas, incluindo seus parentes, ainda assim podem ser racistas.

Essa é uma lição difícil que muitos estamos aprendendo três meses depois do assassinato de George Floyd pela polícia de Minneapolis, crime que gerou uma onda de protestos sem precedentes nos Estados Unidos e no mundo.

Talvez no passado, em festas de fim de ano ou reuniões de família, você ficasse quieto ao ouvir piadas ou comentários racistas porque, afinal de contas, seu tio é e sempre será racista. (Além disso, você realmente quer ser o responsável por estragar o que pode ser o último Natal da sua avó de 97 anos?)

Mas, à luz dos protestos, muita gente está caprichando nos memes e comentários racialmente insensíveis: “Martin Luther King protestou, isso é só bandidos saqueando”. “Todas as vidas importam.” “Nenhum branco vivo hoje jamais foi dono de um escravo. Nenhum negro vivo hoje foi escravo.” “Candace Owens diz que não deveríamos estar de luto por George Floyd porque ele não chegava nem perto de uma vítima perfeita.” “E os crimes cometidos por negros contra negros?”

Você estava em silêncio antes, mas agora parece que tem mais coisa em jogo. Você provavelmente conhece melhor as vítimas recentes da violência policial: seus nomes completos, suas histórias. George Floyd. Breonna Taylor. Elijah McClain. Ahmaud Arbery. Tamir Rice. Rayshard Brooks. Atatiana Jefferson. A lista é longa e nauseante. Assim que você memoriza o rosto e o nome de uma dessas vítimas, aparecem outras nas manchetes.

Se você se sentir compelido a se manifestar quando perceber racismo, especialmente entre as pessoas mais próximas, saiba que não está sozinho, diz Elizabeth McCorvey, assistente social clínica e terapeuta que oferece cursos antirracismo em Hendersonville, Carolina do Norte.

“Às vezes, dizer algo não significa uma tentativa de educar a outra pessoa, mas sim defender sua própria moral e ética”, afirma McCorvey. “Na verdade, você está dizendo: mesmo que não mudem de ideia, me recuso a deixar passar. Sempre aceitarei o convite para defender o que é certo.”

Este tipo de comportamento precisa ser normalizado entre os brancos. Protestar é essencial e eficaz, mas também temos de abordar o ódio em nossos círculos mais próximos. Comprar briga com a família não é nada divertido, mas contestar preconceitos implícitos e racismo é uma das coisas mais importantes que você pode fazer como aliado. E não estamos falando das discussões familiares de sempre: vocês não podem “concordar em discordar” que vidas negras importam.

Muitos desses debates acontecem no Facebook ou no Instagram ou no WhatsApp: por causa da pandemia, estamos todos lendo e reagindo em tempo real aos posts sobre protestos antirracismo. Gente que você jamais suspeitou que pudesse ser de linha-dura revela pensamentos interessantes.

Algumas dessas opiniões são problemáticas. Eis a questão: o que fazer se alguém próximo posta algo racialmente insensível ou factualmente impreciso nas redes sociais? Você tem a obrigação moral de contestar?

Resumindo: sim, é o que você deve fazer, diz Jacqueline Battalora, advogada, professora de sociologia na Saint Xavier University e autora de Birth of a White Nation: The Invention of White People and Its Relevance Today (Nascimento de uma nação branca: a invenção dos brancos e sua relevância hoje, em tradução livre).

“Como o Facebook é uma plataforma pública, mesmo entre ‘amigos’, é importante apontar quando algo é problemático”, afirma ela. “Deixar de fazê-lo pode ser uma afirmação pelo silêncio. Você não tem de ser direto; pode indicar que aceita conversar pessoalmente.”

Você não vai mudar a opinião de todo mundo, mas pode plantar algumas sementes. Veja a seguir os conselhos de especialistas como Battalora e McCorvey sobre a melhor tática a ser adotada nessas conversas difíceis.

<i>Voc&ecirc; tem a obriga&ccedil;&atilde;o de contestar o racismo casual nas redes sociais? Resumindo: &ldquo;sim&rdquo;, dizem os especialistas.</i>
Você tem a obrigação de contestar o racismo casual nas redes sociais? Resumindo: “sim”, dizem os especialistas.

Aceite que lidar com isso provavelmente será difícil

É fácil ficar indignado: você dá valor à opinião do seu amigo ou parente, e é doloroso vê-los desprezar o trauma geracional e as experiências atuais dos negros: “Como eles conseguem assistir àquele vídeo ― todos os 8 minutos e 46 segundos. ― e não concluir de forma inabalável que as coisas precisam mudar?”

Dói vê-los errar o alvo. Dizer a verdade pode ser doloroso; ninguém quer brigar com as pessoas que ama, mas às vezes é necessário. Trazer esse tópico à tona ou contestar certas afirmações pode mudar vidas para melhor.

“Você pode estar potencialmente salvando uma pessoa negra ou parda do risco de mais traumas e está deixando claro quais são suas posições e seus compromissos com a igualdade”, diz McCorvey.

“A responsabilidade pelo desmantelamento dos sistemas de opressão está sobre os ombros dos negros e pardos há muito tempo, mas não podemos lidar com isso sozinhos”, explica ela.

Não deixe de intervir e contestar quando encontrar racismo, seja no Facebook ou offline. Como explica Paul Kivel em Uprooting Racism: How White People Can Work for Social Justice (Desarraigando o racismo: como os brancos podem trabalhar pela justiça social, em tradução livre), observe as palavras-código para raça e as implicações das políticas, padrões e comentários que estão sendo expressados.

Observe como o racismo é negado, minimizado e justificado, até mesmo por sua família. Se alguém disser: “Todas as vidas importam”, analise o que há de errado nessa afirmação. Não há nada na frase “Vidas negras importam” que sugira que as outras vidas não importam. Todas elas importam, mas como mostra o momento atual, temos um trabalho coletivo a fazer para proteger as vidas negras.

“Ser antirracista e contra a solidariedade branca significa denunciá-los. E denunciá-los. E denunciá-los. E denunciá-los, mesmo quando estiver cansado”, afirma McCorvey.

Entenda por que seus amigos ou parentes brancos ficam na defensiva quando você aponta o racismo flagrante ou sistêmico: você está atingindo a solidariedade branca

Quando você ouve falar de “solidariedade branca” pela primeira vez, pode soar um pouco estranho: afinal, você não faz parte de uma vasta conspiração de brancos para ferrar com os negros. Você não faz parte de grupos supremacistas brancos. Você se esforça para tratar as pessoas de todas as raças e etnias da mesma forma. Definitivamente você não é racista.

Mas, como explica a socióloga Robin DiAngelo em White Fragility (Fragilidade branca, em tradução livre), não é assim que funciona o racismo hoje. Trata-se de algo sistêmico, que opera silenciosamente. Você pode ser uma boa pessoa e ainda assim colher os benefícios de uma sociedade profundamente racista, que privilegia a pele branca. E, se realmente pensar no assunto, você provavelmente é mais tendencioso do que imagina: o racismo existe em um espectro, e todos nós temos crenças e comportamentos inconscientemente racistas.

DiAngelo diz que a solidariedade branca protege essas crenças: pense em todas as vezes que você deu de ombros quando alguém fez uma piada racista sobre um colega negro depois de ele sair da sala. As vezes em que uma pessoa de idade fez um comentário racista e você a ignorou, porque “a geração deles é assim mesmo”. As vezes em que você e seus amigos inconscientemente agarraram suas bolsas ou atravessaram a rua quando viram um negro se aproximando. Pense em como isso aconteceu e como você nunca refletiu sobre isso.

Romper essa solidariedade branca com sua família ou amigos ― no Facebook ou em qualquer outro lugar – significa questionar esse tipo de comportamento. Isso pode causa mágoa, afinal de contas todo mundo aprende que só as pessoas “do mal” podem ser racistas. Ao se manifestar, você está colocando em xeque a crença do seu interlocutor de que ele ou ela não são racistas. Evitar ou ignorar comentários é exatamente o motivo pelo qual a supremacia branca ainda é tão prevalecente em nosso país hoje, diz a ativista antirracista Clare Bayard.

“Os brancos nascem e são treinados para serem seus principais defensores”, disse ela em uma entrevista de 2016. “Esse é o nosso papel, quer sejamos defensores ativos ou cúmplices pelo silêncio ou pela passividade. Se não estamos agindo contra a supremacia branca, estamos agindo com ela. Estamos apoiando-a.”

Opor-se ao racismo casual e falar sobre dos próprios preconceitos raciais ajuda a mostrar que é possível ser uma pessoa “boa” e ao mesmo tempo ter preconceitos raciais ― e que você pode ser mais consciente do problema. Aponte o dedo para si mesmo e assuma a responsabilidade por seus erros.

Ao ver o seu exemplo (seja respondendo a algum post ou compartilhando suas próprias experiências), as pessoas queridas podem passar de totalmente ofendidas a relutantemente (e mais tarde, com sorte, sem relutância!), agradecidas.

<i>&ldquo;Voc&ecirc; est&aacute; plantando sementes&rdquo;, diz a terapeuta. &ldquo;Voc&ecirc; pode n&atilde;o ver os frutos, mas, se ela decidir ler a mat&eacute;ria, da pr&oacute;xima vez pode pensar duas vezes antes de clicar no bot&atilde;o &lsquo;retuitar&rsquo;. Isso tamb&eacute;m &eacute; progresso.&nbsp; &nbsp;</i>
“Você está plantando sementes”, diz a terapeuta. “Você pode não ver os frutos, mas, se ela decidir ler a matéria, da próxima vez pode pensar duas vezes antes de clicar no botão ‘retuitar’. Isso também é progresso.   

Aceite que você pode não fazer os outros mudarem de ideia, mas você os fará pensar

Quando você tenta romper a solidariedade dos brancos, você está mostrando integridade e fazendo um trabalho difícil, mas você não conquistará todos imediatamente ― ou talvez nunca, diz McCorvey. Aquela antiga vizinha mais velha da sua cidade natal provavelmente não participará de uma passeata com você. Mas, ao oferecer um contra-argumento a um post sobre violência de negros contra negros que ela compartilhou, você pode ajudá-la a entender algo que simplesmente não entre em sua bolha.

“Você está plantando sementes”, diz a terapeuta. “Você pode não ver os frutos, mas, se ela decidir ler a matéria, da próxima vez pode pensar duas vezes antes de clicar no botão ‘retuitar’. Isso também é progresso.

Não leve para o lado pessoal

Seja estratégico: decida o que é importante contestar. Você não quer ser um troll e responder a tudo. Você não quer dar a entender que seu amigo é intolerante. Você não quer que eles se sintam mal.

Não leve para o lado pessoal ― ataque as fontes de poder (racismo sistêmico, brutalidade policial), diz Battalora.

“Seja o mais factual possível e procure não focar seus comentários em um único indivíduo”, diz ela. “Respondo me incluindo entre as pessoas que têm vantagem por ser brancas (‘nós brancos muitas vezes... ’) e sempre tento dar um exemplo da história para sustentar meu argumento.”

Se eles descreverem os protestos amplamente pacíficos como “saques” realizados por “bandidos”, descreva o que você viu com seus próprios olhos quando saiu para protestar.

No geral, a maneira mais eficaz de abordar alguém não é por meio da vergonha ou com uma enxurrada de dados, mas sim com empatia. McCorvey recomenda que as pessoas iniciem a conversa querendo aprender mais: se alguém que você ama postou algo racialmente insensível, você pode dizer: “Estou surpreso. Você pode dar mais detalhes?”

Nem todo mundo vai querer se envolver nessa conversa, mas tente começar a discussão apontando as coisas que vocês têm em comum. Se uma pessoa próxima postou algo racista, certamente não terá sido algo como: “Odeio negros e quero que eles sofram”.

“Eles podem dizer que dão valor a todas as vidas”, diz McCorvey. “Ótimo! Vocês dois concordam, e este é um bom ponto de partida.”.

A partir daí, mencione como os direitos dos negros americanos foram severamente postos de lado pelo governo muito depois do fim da escravidão. (Fale sobre a era Jim Crow, o complexo industrial das prisões, da ameaça constante da violência policial nas comunidades negras)

Em outras palavras, ajude-os pensar além de suas próprias experiências como pessoas brancas

“Seja curioso, entenda de onde vêm esses pontos de vista e por que eles levaram a tais conclusões. Assim são maiores as chances de um diálogo significativo”, afirma McCorvey.

&ldquo;Ser antirracista e contra a solidariedade branca significa denunci&aacute;-los. E denunci&aacute;-los. E denunci&aacute;-los. E denunci&aacute;-los, mesmo quando estiver cansado&rdquo;, afirma McCorvey.
“Ser antirracista e contra a solidariedade branca significa denunciá-los. E denunciá-los. E denunciá-los. E denunciá-los, mesmo quando estiver cansado”, afirma McCorvey.

Converse pessoalmente

É verdade que as conversas políticas mais eficazes acontecem cara a cara, não no Facebook, diz Tania Israel, professora da UCSB e autora do livro Beyond Your Bubble: How to Connect Across the Political Divide, Skills and Strategis for Conversations that Work (Além de sua Bolha: Como Conectar-se com o Outro Lado da Divisão Política, Habilidades e Estratégias para Conversas que Funcionam, em tradução livre).

É claro que não temos muitas oportunidades para essas conversas pessoais por causa do distanciamento social, mas você pode trocar mensagens de texto ou falar ao telefone.

“Se você realmente deseja se conectar, entender ou persuadir, o comentário mais eficaz é um convite para marcar um horário para falar por vídeo ou pessoalmente. E aí manter a curiosidade e os ouvidos abertos durante a conversa”, diz Israel ao HuffPost.

Pense duas vezes antes de “deixar de seguir” ou excluir a pessoa

Não há nada de errado em parar de se envolver com seus amigos ou família se eles estiverem postando coisas perturbadoras. Mas não desista – apenas saiba que pode deixar de segui-los ainda assim ser capaz de conversas, diz George James, terapeuta de casais e professor da Universidade Thomas Jefferson, na Filadélfia.

“Você pode cobrar responsabilidade, mas não precisa cortá-los da sua vida”, afirma James. “Você pode enviar uma mensagem de texto dizendo que não gostou da postagem, que a considerou ofensiva.”

Deixar de seguir é fácil - mas também é uma escolha muito privilegiada, segundo James.

“Se cada negro cortasse da sua vida todo mundo que dissesse ou fizesse algo racista, onde eles viveriam e trabalhariam?”, pergunta o professor.

Claro, se um parente seu posta comentários racialmente insensíveis ou desdenhosos em suas postagens, você tem todo o direito de dizer que a conversa vai passar para as DMs.

<i>Deixar de seguir &eacute; f&aacute;cil - mas tamb&eacute;m &eacute; uma escolha muito privilegiada, segundo James. &nbsp;</i>
Deixar de seguir é fácil - mas também é uma escolha muito privilegiada, segundo James.  

Não perca as esperanças: mudanças sísmicas estão acontecendo ― e você definitivamente não está sozinho nessas conversas

A notícia tranquilizadora é que o público, em geral, está aprendendo e mudando com essa conversa sobre raça: desde o início dos protestos, o apoio dos eleitores americanos ao movimento Black Lives Matter aumentou quase tanto quanto nos dois anos anteriores, segundo o New York Times.

Cada conversa difícil faz diferença, mesmo que você não note uma mudança imediata em seu círculo íntimo. E é importante lembrar que contestar o racismo nunca se trata somente da pessoa ou pessoas que você está tentando “mudar”.

“É um processo que impacta você e a sociedade”, diz Battalora. “O envolvimento molda nosso pensamento, ajuda a entender a resistência e as fontes de medo e ansiedade, ajuda a aguçar nosso pensamento, desafia nossas emoções e nosso corpo.”

Conte com seus amigos que estão passando pelo mesmo, diz McCorvey.

“Você definitivamente tem amigos ou seguidores que estão lidando exatamente com a mesma coisa”, diz ela. “Comece um clube do livro antirracista, pesquise educadores antirracistas que publicaram trabalhos sobre esse tipo de conversa.”

Lembre-se de que você fazendo isso para que a responsabilidade não seja de uma pessoa negra

Batalhar pelas causas e crenças antirracistas é exaustivo; os negros sabem disso há gerações. É muito difícil se fazer ouvir pelos brancos. Alguns negros dizem que basicamente “desistiram” de conversar com seus colegas de trabalho, vizinhos e amigos brancos.

Como disse a autora Reni Eddo-Lodge em um artigo publicado em 2017 no jornal britânico The Guardian: “A jornada para a compreensão do racismo estrutural ainda requer que as pessoas de cor priorizem os sentimentos dos brancos. Mesmo que consigam te escutar, eles não estão realmente ouvindo. É como se algo acontecesse com as palavras entre sair de nossas bocas e chegar aos ouvidos deles. Elas atingem uma barreira de negação e não seguem adiante.”

Comunidades negras e pardas dependem de nós para permanecer na conversa sobre raça: elas precisam que você lembre seus parentes e amigos que Candace Owens não fala por todos os negros. Para contrariar a narrativa batida do “basta se esforçar”, para falar sobre o histórico perigoso do presidente Donald Trump em relação a quem não é branco.

“Os negros precisam que você tenha essas conversas, para que a responsabilidade não seja apenas nossa”, diz McCorvey. “Pode ser irritante para você, mas é traumatizantes e prejudicial para mim.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.