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03/06/2020 10:40 -03 | Atualizado 03/06/2020 10:42 -03

Manifestantes ignoram toque de recolher nos EUA em noite com protestos mais calmos

Trump defendeu que Exército saia às ruas para reprimir manifestações após a morte de George Floyd, um homem negro que estava desarmado, pela polícia de Mineápolis.

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Manifestantes protestam em frente à Casa Branca na noite de terça-feira (2).

Manifestantes ignoraram toques de recolher em dezenas de cidades americanas e saíram às ruas na 8ª noite de protestos após a morte de um homem negro desarmado sob custódia da polícia em Mineápolis. Houve uma diminuição considerável da violência que levou o presidente Donald Trump a ameaçar mobilizar os militares.

George Floyd morreu depois que um policial branco ajoelhou sobre seu pescoço durante quase nove minutos em Mineápolis no dia 25 de maio, reavivando a questão explosiva da brutalidade policial contra negros nos EUA, cinco meses antes da eleição presidencial de novembro.

Dezenas de milhares de pessoas foram às ruas de cidades de costa a costa na noite de terça-feira, e tropas da Guarda Nacional ladearam os degraus do  Lincoln Memorial em Washington.

Win McNamee via Getty Images
Membros da Guarda Nacional de D.C. fazem cordão de isolamento em frente ao Lincoln Memorial, em Washington. Local foi onde Martin Luther King fez seu icônico discurso"I have a dream".

Houve episódios esporádicos de violência em Washington e Portland, no Oregon – manifestantes lançaram fogos de artifício e garrafas em policiais que reagiram com bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo.

Confrontos entre manifestantes e policiais e saques em alguns lojas de Nova York deram lugar a uma calma relativa nas primeiras horas desta quarta-feira. A polícia disse à imprensa que fez 200 prisões, a maioria por violações do toque de recolher.

Em Los Angeles, muitos manifestantes que desafiaram o toque de recolher foram presos, mas no meio da tarde a calma havia sido restaurada a ponto de redes de televisão substituírem a cobertura ininterrupta por uma programação normal.

Grandes marchas e manifestações também aconteceram na Filadélfia, em Atlanta, Denver e Seattle.

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Policiais imobilizam manifestante durante toque de recolher em Nova York.

Derek Chauvin, o policial de 44 anos que se ajoelhou sobre Floyd, foi acusado de delito preterdoloso (quando a intenção é cometer outro crime, mas acaba-se matando a vítima) e de homicídio culposo (quando não há intenção de matar). Três outros policiais envolvidos foram demitidos, mas não acusados.

Embora as manifestações dos últimos dias em nome de Floyd e outras vítimas da brutalidade policial tenham sido majoritariamente pacíficas, ao anoitecer, muitas degeneraram em vandalismo, incêndios criminosos e saques. Na noite de segunda-feira, cinco policiais foram baleados em duas cidades.

Na tarde de terça-feira, uma multidão se ajoelhou diante do edifício do Capitólio e gritou “silêncio é violência” e “sem justiça não há paz” enquanto policiais os encaravam pouco antes do toque de recolher imposto pelo governo.

Militares deslocados

Na terça, Trump disse que as tropas do país deveriam ir às ruas da cidade de Nova York para reprimir distúrbios. Nesta quarta, o presidente americano postou apenas a mensagem “Lei e ordem!” no seu perfil no Twitter.

Nos últimos dias, grupos aproveitaram as manifestações para quebrar janelas e saquear lojas em Nova York, incluindo lojas de luxo na Quinta Avenida, e atearam fogo numa área de compras em Los Angeles. Quatro policiais foram baleados em St. Louis e um em Las Vegas ficou ferido gravemente, disseram autoridades.

Trump zombou de autoridades locais, incluindo alguns governadores estaduais, por suas respostas aos distúrbios. “NY, CHAME A GUARDA NACIONAL. Os marginais e perdedores estão despedaçando vocês. Ajam rápido!”, publicou no Twitter. 

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Policiais e membros da Guarda Nacional reforçaram a segurança da Casa Branca após dias de protestos violentos nas proximidades da residência presidencial.

Segundo o Pentágono, cerca de 1.600 militares do Exército foram deslocados para a região de Washington depois de várias noites de violentos protestos na cidade.

“Os elementos do serviço ativo estão alocados em bases militares na região do Capitólio Nacional, mas não em Washington D.C.”, disse o porta-voz do Pentágono, Jonathan Rath Hoffman, em comunicado.

Ele afirmou que as tropas estão com “status de alerta elevado”, mas “não participam do apoio de defesa às operações da autoridade civil”.

As tropas incluem polícia militar e pessoas com habilidade em engenharia, além de um batalhão de infantaria, acrescentou Hoffman.

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Manifestantes se reúnem pacificamente na Foley Square, em Nova York, para protestar contra a violência policial.

O chefe da Guarda Nacional do país também disse que 18 mil membros da Guarda estão trabalhando junto com autoridades locais em 29 Estados.  

Maioria dos americanos simpatiza com protestos

Uma pesquisa Reuters/Ipsos publicada na terça-feira mostrou que, em ano eleitoral, a maioria dos norte-americanos simpatiza com os protestos que acontecem no país e reprova a resposta do presidente aos distúrbios.

A pesquisa conduzida entre segunda e terça-feira concluiu que 64% dos adultos norte-americanos tinham simpatia pelas pessoas que estavam protestando, enquanto 27% disseram que não e 9% não tinham certeza. 

A pesquisa sublinha os riscos políticos para Trump, que adotou uma postura linha dura em relação aos protestos. O presidente republicano enfrentará o democrata Joe Biden nas eleições de novembro. 

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Policiais bloqueiam manifestantes na Manhattan Bridge, em Nova York, após toque de recolher.

Mais de 55% dos norte-americanos dizem reprovar a condução de Trump nos protestos, incluindo 40% que disseram reprovar “fortemente”, enquanto apenas um terço disse que aprovou ― menos do que sua aprovação no cargo, de 39%, mostrou o estudo. 

Outra pesquisa Reuters/Ipsos concluiu que a liderança de Biden entre eleitores registrados cresceu para 10 pontos percentuais – a maior margem desde que o ex-vice-presidente se tornou virtual candidato democrata à Presidência em abril. 

Duas vezes mais eleitores independentes disseram desaprovar a resposta de Trump aos distúrbios. Entre os republicanos, 67% disseram aprovar a maneira com a qual ele tem respondido, número significativamente mais baixo do que os 82% que aprovam seu desempenho no cargo de maneira geral. 

A maioria tanto dos republicanos quanto dos democratas disseram apoiar protestos pacíficos, mas que danos à propriedades prejudicam a causa dos manifestantes. 

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Manifestante atira elemento incendiário contra a polícia em Atlanta, na Geórgia, nesta terça-feira.

Mesmo nas áreas suburbanas não afetadas pelas manifestações, a maioria das pessoas expressou apoio. Um pouco mais da metade dos residentes das áreas rurais disseram tem simpatia pelos manifestantes. 

Entre os eleitores registrados, 47% disseram que planejam apoiar Biden nas eleições do dia 3 de novembro, comparados com 37% que preferem Trump. 

A pesquisa da Reuters/Ipsos sobre os protestos foi conduzida online e reuniu respostas de 1.004 adultos de todo o país. O estudo tem margem de erro de 4 pontos percentuais. 

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Cenas de solidariedade também foram vistas em Nova York, como essa de um manifestante negro cumprimentando um policial negro.
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Em Los Angeles, manifestantes cumprimentaram membros da Guarda Nacional durante protesto no Hollywood Boulevard nesta terça.

A outra pesquisa feita no mesmo período e relacionada ao desempenho geral de Trump no cargo e nas eleições de 2020 reuniu respostas de 1.113 adultos do país e tem margem de erro de 3 pontos percentuais. 

Papa condena racismo e violência nos EUA

Nesta quarta-feira (3), o papa Francisco quebrou seu silêncio sobre os protestos nos Estados Unidos, dizendo que ninguém pode “fechar os olhos ao racismo e à exclusão”, ao mesmo tempo que condenou a violência como “autodestrutiva e derrotista”.

Francisco, que dedicou toda a seção em inglês de sua audiência pública semanal à situação nos EUA, implorou a Deus pela reconciliação nacional e pela paz. Ele chamou a morte de George Floyd de trágica e disse estar orando por ele e por todos aqueles que foram mortos como resultado do “pecado do racismo”.