POLÍTICA
26/05/2019 08:10 -03

PSL baixa o tom para não esvaziar manifestações de 26 de maio

Deputados focam na defesa da reforma da Previdência e no projeto de lei anti-crime e deixam de lado críticas à velha política e ao STF.

NurPhoto via Getty Images
Para protestos de hoje, deputados do PSL deixaram de lado críticas à velha política e ao STF.

Após mais uma semana de idas e vindas no relacionamento entre o governo Jair Bolsonaro e o Legislativo, integrantes do PSL, partido do presidente da República, baixaram o tom sobre as manifestações marcadas para este domingo (26), em busca de não esvaziar as ruas e de evitar atritos com o Congresso. Parlamentares negam que os atos incluam bandeiras como o fechamento do Supremo Tribunal Federal (STF).

Uma das vice-líderes do governo e organizadora de atos a favor do impeachment de Dilma Rousseff na capital federal em 2015, a deputada Bia Kicis (PSL-DF) disse que o foco é no apoio a medidas como a reforma da Previdência e o projeto de lei anti-crime do ministro da Justiça, Sérgio Moro, ambas em tramitação na Câmara.

De acordo com a parlamentar, a mobilização surgiu em 14 de abril, em uma reunião do grupo Direita São Paulo, na capital paulista, e não tem uma relação direta com o governo. “Lá decidiram fazer uma manifestação em apoio à reforma da Previdência e outras pautas do governo e marcaram para 26 de maio. Não tem nada a ver com o governo. E aí o movimento foi crescendo”, afirmou ao HuffPost Brasil.

Nos últimos dias, hashtags a favor dos atos no domingo estiveram entre os tópicos mais comentados do Twitter. A mobilização é vista também como uma resposta aos protestos de 15 de maio, contra os cortes na educação, em pelo menos 220 cidades.

Levantamento que circula entre apoiadores dos atos pró-governo apontam a expectativa de participação de 350 municípios, incluindo o exterior. Há uma descentralização da organização, mas os grupos Avança Brasil, Consciência Patriótica e Movimento Brasil Conservador também são apontados como responsáveis pelos atos.

Movimentos como o Vem pra Rua e o Movimento Brasil Livre (MBL), conhecidos pela força nas manifestações pró-impeachment de Dilma, decidiram ficar de fora, o que mostra uma divisão no campo da direita.

Nesta sexta-feira, o deputado e filho do presidente, Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), criticou frase de um dos líderes do MBL, deputado Kim Kataguiri (DEM-SP), sobre a relação entre Executivo e Legislativo.

Ao responder a questionamento da revista Crusoé sobre a possibilidade de impeachment de Bolsonaro, Kim Kataguiri disse que “ou a gente tem um parlamentarismo branco em que o presidente vira uma rainha da Inglaterra ou a gente passa por um processo de impeachment dependendo da votação do crédito suplementar”, em referência a projeto em que o governo pede acréscimo de R$ 240 bilhões no orçamento e que precisa ser aprovado até 30 de junho.

Após a repercussão da entrevista,  o deputado disse que a decisão de não participar dos protestos “se dá pelo fato de acreditar que o resultado pode ser prejudicial à reforma da Previdência e até mesmo para o próprio governo”.

Governo quer se descolar de manifestações

Entre governistas, há um esforço para descolar a mobilização do Planalto. Bia Kicis negou que Bolsonaro tivesse dito que participaria. “O presidente chegou a compartilhar um vídeo sobre a manifestação porque ele se sente agradecido pelo apoio, mas é só isso. [Ela] Não foi chamada pelo governo e nem faria sentido ser”, disse. Na última semana, o ex-deputado incentivou as manifestações e depois disse que não iria.

Dentro do PSL, há uma divisão sobre aderir aos protestos. A líder do governo no Congresso, a deputada Joice Hasselmann (PSL-SP), disse que não participaria por recomendação do Planalto.“Há uma orientação do presidente da República para que os integrantes do governo não participem justamente porque representam o governo”, afirmou a jornalistas na última quinta-feira (23).

No mesmo dia, Bolsonaro criticou a inclusão de pautas extremistas nos protestos. “Quem defende o fechamento do Supremo Tribunal Federal e do Congresso Nacional está na manifestação errada”, disse em café com jornalistas no Palácio do Planalto.

Na avaliação de Kicis, é preciso separar “pessoas que querem causar tumulto” e eventuais infiltrados nos atos com bandeiras extremistas. Ela admitiu, contudo, que pode haver demonstrações de descontentamento com o STF devido à criminalização da homofobia.

“Com decisão de criminalizar a homofobia, de fazer crime sem lei, o próprio STF criar tipo penal, é possível que pessoas se manifestem contra isso, mas é um direito da população demonstrar desagrado com decisões. Ninguém falou em fechar STF. Nunca fez parte da pauta”, disse a vice-líder.

Na última quinta, o plenário da corte formou maioria para equiparar discriminação a pessoas LGBT ao crime de racismo. Críticos entendem que o Judiciário extrapola funções que caberiam ao Legislativo nesse caso.

Wilson Dias/Agência Brasil
O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), chegou a anunciar o rompimento de relações com o líder do governo na Casa, deputado Major Vitor Hugo (PSL-GO).

Velha política

Entre integrantes do PSL, alguns defendem o impeachment de ministros do Supremo e são críticos ao centrão, associado ao que seria a “velha política”. Isso tem provocado tensão entre parlamentares e dificultado a aprovação de propostas do governo, como medidas provisórias.

Nesta semana, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), chegou a anunciar o rompimento de relações com o líder do governo na Casa, deputado Major Vitor Hugo (PSL-GO), mas o clima melhorou após reunião na quinta. No encontro, o democrata se comprometeu em convidar Vitor Hugo para as reuniões na residência oficial. Ele havia criticado as reuniões fechadas, com poucos líderes.

Adepto ao discurso de críticas ao presidencialismo de coalizão, o major compartilhou uma charge sugerindo que para negociar com o Congresso era necessário um saco de dinheiro. O incômodo de Maia foi exposto em reunião de líderes na última terça-feira (21).

De acordo com Bia Kicis, a charge foi compartilhada em um grupo de WhatsApp fechado do PSL com a legenda “parte da população acredita que Congresso não nos representa, que há corrupção e estamos aqui para mostrar que é diferente”. “Rodrigo Maia recebeu mal porque achou que poderia ser uma crítica ao Congresso por parte do líder do governo. Não se tratou disso em nenhum momento”, afirmou.

A reconciliação do presidente da Câmara com Vitor Hugo foi articulada pela deputada Carla Zambelli (PSL-SP), também adepta das manifestações de domingo.

Na visão dela, as manifestações não vão prejudicar a relação entre os poderes, mas podem incentivar deputados a votarem conforme decisões pessoais e não orientações partidárias. “As ruas vão saber, como sempre souberam, separar o joio do trigo. A ideia é que essa manifestação venha a ajudar os deputados que querem votar conforme sua própria consciência ou ideia de seus eleitores mas não podem votar porque os caciques e lideranças muitas vezes não deixam”, afirmou ao HuffPost Brasil.

Zambelli disse que conversou com o presidente da Câmara sobre os protestos e que o democrata tem sido importante para o avanço de pautas governistas.

Apesar de baixarem o tom nas críticas ao Parlamento, integrantes do PSL entendem que a expectativa pelos protestos pressionou os congressistas a aprovarem a medida provisória (MP) 870/2019, da reforma administrativa. O texto deve ser votado no Senado na próxima terça-feira (28). Se não for aprovado até 3 de junho, o governo pode ser obrigado a recriar ministérios para a antiga estrutura, de 29 pastas.

O avanço na Câmara só foi possível após articulação envolvendo Rodrigo Maia e o centrão, grupo de partidos de centro e de direita que reúnem cerca de 200 deputados.

Governistas divergem se foi uma vitória ou não para o Planalto. O governo abriu mão de o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) ficar nas mãos de Sérgio Moro. Alguns integrantes da base defendem brigar por uma alteração no texto que garanta que o órgão que auxilia investigações fique subordinado ao Ministério da Justiça, mesmo com o risco de a MP vencer.