ENTRETENIMENTO
24/02/2020 01:49 -03 | Atualizado 24/02/2020 06:34 -03

Desfile da Mangueira provoca e emociona com diversas representações de Jesus Cristo

Enredo que apresentou Jesus como negro, favelado, mulher e indígena é ovacionado na Sapucaí e nas redes sociais.

Muito aguardado, principalmente pela polêmica que gerou por trazer representações diferentes de Jesus Cristo, o desfile da Estação Primeira de Mangueira, que aconteceu entre a noite de domingo (23) e a madrugada de segunda (24), não decepcionou.

Com o samba-enredo A Verdade vos Fará Livre, de Manu da Cuíca e Luiz Carlos Máximo, a atual campeã do Carnaval do Rio de Janeiro fez uma releitura da biografia de Jesus, que, no desfile, assumiu diversas faces: como negro, mulher, favelado e indígena.

O tema incomodou setores religiosos antes mesmo do desfile na Marquês de Sapucaí. A associação tradicionalista católica Instituto Plínio Corrêa de Oliveira chegou a promover um abaixo-assinado na internet para censurar a escola de samba carioca, classificando o samba-enredo como “blasfêmia”. 

“O nosso enredo é uma proposta de paz, inclusão e respeito às religiões. O nível do ensandecimento das notícias faz com que as pessoas fiquem temerosas com o que possam vir a fazer”, disse o vice-presidente de projetos especiais da Mangueira, Moacyr Barreto ao jornal O Globo um mês antes do desfile.

Porém, ao contrário do que aconteceu com a Beija-Flor em 1989, que teve um de seus carros alegóricos com um Jesus mendigo censurado, o desfile da Mangueira em 2020 ocorreu sem problemas. Tanto que foi ovacionado pelo público no Sambódromo e alcançou o topo dos assuntos mais comentados no Twitter com a hastag #Mangueira.

Mesmo antes de começar o desfile, a escola já dava o seu recado. Com a palavra, a rainha da bateria, Evelyn Bastos:

Ricardo Moraes / Reuters
Evelyn Bastos, rainha da bateria da Mangueira, desfilou como Jesus mulher.
Se Jesus fosse mulher, será que estaríamos no topo do ranking do feminicídio?Rainha da bateria Evelyn Bastos, que desfilou como Jesus mulher.

A comissão de frente mostrou um Jesus que mistura sua imagem mais “clássica” com um jeito mais moderno, com ele e seus apóstolos como amigos que dançam funk na favela e levam “dura” da polícia. 

Foi um desfile muito importante. Com uma mensagem muito importante nesses tempos intolerantes que vivemos.Arthur Morsh, que desfilou como o Jesus da gente, na comissão de frente.

Jesus favelado

REUTERS
Jesus negro, pobre e favelado fechou o desfile da Mangueira, em seu último carro alegórico.

Último carro alegórico - e mais esperado - do desfile mostrou um Jesus negro, pobre e favelado, com cabelo raspado, descolorido, tatuagens pelo corpo e crivado de balas. A placa em cima de sua cabeça dizia: Negro.

MAURO PIMENTEL via Getty Images
Ala que acompanhou o carro alegórico do Jesus favelado representava o sofrimento das mulheres.

Entre os muitos destaques, um grupo de 20 lideranças religiosas que participou do desfile se destacou. Entre eles, estavam católicos, protestantes, judeus, budistas, muçulmanos e umbandistas. 

Uma das últimas alas apontava o preconceito e violência contra a comunidade LGBT.

Estou muito feliz e emocionada com esse desfile. Ficava impactada toda vez que olhava para as pessoas.Alcione, que desfilou como Maria ao lado do sambista Nelson Sargento como José no carro abre-alas, que trazia um Jesus indígena.

Confira a letra completa do samba-enredo da Mangueira:

Senhor, tenha piedade
Olhai para a terra
Veja quanta maldade
Senhor, tenha piedade
Olhai para a terra
Veja quanta maldade

Mangueira
Samba, teu samba é uma reza
Pela força que ele tem
Mangueira
Vão te inventar mil pecados
Mas eu estou do seu lado
E do lado do samba também

Eu sou da Estação Primeira de Nazaré
Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher
Moleque pelintra no buraco quente
Meu nome é Jesus da Gente

Nasci de peito aberto, de punho cerrado
Meu pai carpinteiro, desempregado
Minha mãe é Maria das Dores Brasil

Enxugo o suor de quem desce e sobe ladeira
Me encontro no amor que não encontra fronteira
Procura por mim nas fileiras contra a opressão
E no olhar da porta-bandeira pro seu pavilhão
E no olhar da porta-bandeira pro seu pavilhão

Eu tô que tô dependurado
Em cordéis e corcovados
Mas será que todo povo entendeu o meu recado?
Porque, de novo, cravejaram o meu corpo
Os profetas da intolerância
Sem saber que a esperança
Brilha mais na escuridão

Favela, pega a visão
Não tem futuro sem partilha
Nem messias de arma na mão
Favela, pega a visão
Eu faço fé na minha gente
Que é semente do seu chão

Do céu deu pra ouvir
O desabafo sincopado da cidade
Quarei tambor, da cruz fiz esplendor
E ressurgi pro cordão da liberdade

Mangueira
Samba, teu samba é uma reza
Pela força que ele tem
Mangueira
Vão te inventar mil pecados
Mas eu estou do seu lado
E do lado do samba também


Escute aqui o samba-enredo da Mangueira: