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15/04/2020 18:39 -03 | Atualizado 15/04/2020 18:45 -03

O trio de sanitaristas que está deixando combate à pandemia no Brasil por divergências com Bolsonaro

"A vigilância em saúde no Brasil não é feita de personalidade. Não é o Wanderson. São milhares de sanitaristas em todo o Brasil", diz secretário que pediu demissão — rejeitada pelo ministro.

Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Wanderson Oliveira, Luiz Henrique Mandetta e João Gabbardo: trio que comanda Ministério da Saúde.

A entrevista coletiva da cúpula do Ministério da Saúde teve tom de despedida nesta quarta-feira (15). O trio Luiz Henrique Mandetta, João Gabbardo e Wanderson Oliveira deixou claro que a saída de todos é iminente e que vão ajudar na transição para um novo ministro, que deve ser escolhido nas próximas horas pelo presidente Jair Bolsonaro. “Se entrar hoje uma pessoa no Ministério da Saúde, está tranquilo para trabalhar”, disse Mandetta.

De acordo com o ministro, há ordens de compra de material encaminhadas para o combate ao novo coronavírus, estados e municípios receberam recursos e linhas de pesquisa estão financiadas. Mandetta afirmou, por outro lado, que é necessário comprar mais respiradores para os hospitais, EPIs (equipamentos de proteção individual) e melhorar o treinamento de profissionais de saúde para reduzir o número de infectados e mortos nesse grupo.

Na visão do ministro, a pasta conseguiu “domar a curva” de infectados e mortos pela covid-19 graças às medidas de isolamento adotadas por estados e municípios tão logo a pandemia foi decretada pela OMS (Organização Mundial da Saúde). Ele também lembrou que o trabalho das autoridades sanitárias no Brasil foi elogiado pelo Banco Mundial e pela OMS.

As restrições na circulação de pessoas são principal objeto de divergência entre Bolsonaro e o Ministério da Saúde. O presidente é favorável ao isolamento vertical, com o confinamento apenas dos grupos de risco para covid-19, como idosos e pessoas com doenças crônicas. O ministro defende isolamento social para maior parte da população do País.

Sobre o discurso anticiência de Bolsonaro, Mandetta afirmou que as ações baseadas em evidências científicas são o caminho que tem a oferecer. “Fora desse caminho, tem de achar alternativas”, disse. “Parece que eu sou contra o presidente ou o presidente é contra mim. não. São visões diferentes do mesmo problema. Não é um problema maniqueísta”, completou.

Secretário-executivo do ministério, João Gabbardo afirmou que conheceu Mandetta em dezembro de 2018, na época do governo de transição, quando recebeu o convite para ser o número 2 da pasta. Ele afirmou que deixará o governo com a saída do democrata. “Ano que vem completo 40 anos de Ministério da Saúde e não vou jogar no lixo meu patrimônio”, ressaltou.

Gabbardo prometeu, contudo, orientar uma eventual nova equipe, durante a transição. “Não vou abandonar o barco. Vou ficar no Ministério da Saúde durante todo o tempo necessário para fazer a transição porque tenho consciência de que a população espera uma continuidade desse trabalho”, disse.

Não podemos por qualquer prazo interromper isso, nem que seja por duas ou três semanas. Pode ser muito significativo o resultado dessa descontinuidade.João Gabbardo

Wanderson Oliveira também relembrou como chegou ao cargo de secretário, com um telefonema de Mandetta em 28 de dezembro de 2018. “Ficamos 40 minutos no telefone e parece que a gente já se conhecia”, contou. No dia seguinte, foi à casa do democrata, onde conheceu pessoalmente Gabbardo.

O epidemiologista lembrou que sentiu “simpatia, respeito e admiração pelo ministro Mandetta desde o primeiro momento”. Em um recado de despedida, pediu à população para ter cuidados básicos, como lavar às mãos e ficar em casa, se possível. “Se a gente fizer o básico, nós vamos segurar essa epidemia”, disse. “Esperamos que a gente consiga salvar o maior número de vidas possível”, completou.

Sempre sereno e de postura conciliadora, Wanderson acabou dando uma cutucada no presidente Bolsonaro, que trava uma guerra fria com o Ministério da Saúde nas últimas semanas.

A vigilância [em saúde] no Brasil não é feita de personalidade. Não é o Wanderson. São milhares de sanitaristas em todo o Brasil.

Além do isolamento social, outro ponto de dissenso entre Bolsonaro e a equipe de Mandetta é o uso da cloroquina. O presidente insiste no uso do remédio para covid-19 mesmo sem comprovação científica, enquanto o Ministério da Saúde resiste a recomendar uso amplo para infectados.