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25/03/2020 18:29 -03 | Atualizado 25/03/2020 18:32 -03

Mandetta diz que fica no governo e propõe pacto com governadores para quarentena

Ministro da Saúde adota tom conciliador após pronunciamento controverso de Bolsonaro. Ele diz que medidas de isolamento por coronavírus foram precipitadas e que construirá proposta nacional.

Marcos Corrêa/PR
Ministro da Saúde diz que só deixa o cargo "na hora que o presidente - que me nomeou - achar que não devo trabalhar, ou se estiver doente, ou no momento em que achar que esse período todo de turbulência já tenha passado e eu possa não ser mais útil”.

Pressionado em meio à crise política com o presidente Jair Bolsonaro na pandemia do novo coronavírus, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, afirmou que continua no governo e defendeu um pacto com governadores para ajustar medidas de quarentena.

“Temos que ter muita calma porque quarentena é um remédio extremamente amargo e duro”, disse Mandetta, em coletiva de imprensa nesta quarta-feira (25). O ministro, contudo, deixou a entrevista antes de ouvir as perguntas de jornalistas.

Mandetta disse que tem conversado com governadores para construírem juntos uma proposta nacional e estabelecer parâmetros para ações ligadas à circulação de pessoas, como fechamento de comércio e restrições nas estradas.

O ministro adotou um tom conciliador entre a posição do presidente e a de alguns governadores e ressaltou que permanece no cargo. “Eu saio daqui na hora que o presidente - que me nomeou - achar que não devo trabalhar, ou se estiver doente, ou no momento em que achar que esse período todo de turbulência já tenha passado e eu possa não ser mais útil. Nesse momento de crise, vou trabalhar ao máximo, a equipe está empenhada, vamos trabalhar com critério técnico”, afirmou.

O Ministério da Saúde estuda mudar orientações sobre o isolamento social, mas ainda não anunciou qualquer alteração. “Não vamos fazer nada que a gente não tenha confiança que possa sugerir. É momento para se unir, andar, os governadores vão se reposicionar, temos de melhorar essa coisa da quarentena, não foi bom, foi precipitado, foi cedo”, disse Mandetta.

A restrição de circulação de pessoas é adotada para reduzir o ritmo de contágio e evitar que um grande número de pessoas fique doente ao mesmo tempo, o que poderia provocar um colapso do sistema de saúde, como alertou Mandetta na semana passada. 

Isso tem sido feito por meio de medidas adotadas por governadores e prefeitos, como fechamento de comércios não essenciais e restrição de uso de estradas. Esse tipo de conduta tem provocado embates políticos com o governo Bolsonaro.

Mesmo com o risco de acelerar o contágio, o presidente defende que as pessoas saiam às ruas para minimizar o impacto da crise na economia. Em pronunciamento em rede nacional nesta terça-feira (24), ele defendeu que apenas idosos fiquem em casa. Pessoas acima de 60 anos fazem parte do grupo de risco da covid-19. 

Nesta quarta, Bolsonaro reforçou esse entendimento. “O que precisa ser feito? Botar esse povo [abaixo de 60 anos] para trabalhar. Preservar os idosos e aqueles que têm problema de saúde. Mais nada além disso. Caso contrário, o que aconteceu no Chile [convulsões sociais] vai ser fichinha perto do que pode acontecer no Brasil. Todos nós pagamos um preço que levará anos para ser pago. Se é que o Brasil não possa sair da normalidade democrática, que vocês tanto defendem. Ninguém sabe o que pode acontecer no Brasil”, afirmou a jornalistas, na porta do Palácio da Alvorada.

Apesar das falas de integrantes do governo federal, governadores e prefeitos afirmaram nessa quarta que não irão flexibilizar o isolamento social.

Número de casos do coronavírus no Brasil

O número de casos confirmados do novo coronavírus no Brasil chegou a 2.433, de acordo com balanço divulgado pelo Ministério da Saúde nesta quarta. O número de mortes é de 57, sendo 48 em São Paulo, 6 no Rio de Janeiro, uma no Amazonas, uma em Pernambuco e uma no Rio Grande do Sul.

A quantidade de diagnósticos positivos cresceu 10,5% de terça para quarta — a menor taxa desde o fim da semana passada. “Os números estão crescendo num ritmo aproximadamente normal nos últimos dias”, destacou o ministro da Saúde.

O número de casos confirmados deve saltar nos próximos dias. Segundo Mandetta, a ampliação permitirá o diagnóstico de mais brasileiros. De acordo com ele, a identificação de mortos por coronavírus não muda. “O número de óbitos sempre será absoluto porque sempre vai poder apurar-se causa da morte”, disse.