NOTÍCIAS
07/04/2020 18:46 -03 | Atualizado 07/04/2020 19:12 -03

Fake news subiram bem mais que casos de coronavírus, diz Mandetta

Ministro da Saúde diz que aguarda estudos científicos conclusivos para decidir sobre uso amplo da cloroquina.

Sem citar nomes, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, criticou o número de fake news envolvendo seu nome no fim de semana. “As fake news subiram bem mais que o número de casos”, disse nesta terça-feira (7), em coletiva de imprensa sobre a situação da pandemia da covid-19 no Brasil.

O número de casos confirmados do novo coronavírus no Brasil chegou a 13.717, de acordo com balanço divulgado pelo Ministério da Saúde. O número de mortes é de 667. A taxa de letalidade é de 4,9%.

Um dia após um dos momentos de maior tensão com o presidente Jair Bolsonaro, o democrata fez um apelo para que os brasileiros não acreditem em informações vindas das redes sociais. “Não posto nada. Não comento nada, eu não faço nada nesse mundo virtual”, disse.

As publicações envolvem informações falsas de denúncias contra o ministro ou áudios que imitam sua voz e pedem doações. “As que denegriram a imagem então… Essas vieram aos borbotões mas isso daqui deixo que fique para justiça divina”, alfinetou.

Na última sexta-feira (3), Mandetta chegou a fazer um apelo para que se reduzissem as fake news sobre o coronavírus: “Aos que destilam ódio, calma um pouco. Em vez de postar 10 fake news por dia, posta duas. Já ajuda porque dá um trabalho muito grande ficar respondendo fake news”, pediu.

Questionado sobre a reunião no Palácio do Planalto nesta segunda-feira (6), o titular da Saúde não respondeu diretamente se ainda corre risco de ser demitido. “A gente tem de olhar para frente, andar para frente, usar pouco retrovisor e tocar esse barco nosso chamado Brasil”, disse.

O ministro Braga Netto (Casa Civil), por sua vez, disse que a reunião interministerial com Jair Bolsonaro foi rotineira. “O assunto não foi a demissão do ministro Mandetta”, disse, sorrindo.

EVARISTO SA via Getty Images
Ministro Mandetta criticou mais uma vez a eclosão de fake news sobre coronavírus.

Uso da cloroquina

Sobre uma das principais bandeiras bolsonaristas nesta crise do coronavírus — e ponto de discordância entre o presidente e o ministro —, o uso da cloroquina, Mandetta esclareceu que o Ministério da Saúde já liberou médicos para receitarem o uso em casos moderados e graves. Para casos leves, a pasta ainda aguarda evidências científicas.

“Se ele [médico] quiser comunicar o paciente dele, ‘não tenho nenhuma evidência, acho que poderia usar medicado com tal risco’ e se responsabilizar individualmente, nada tem de óbice [impedimento]”, disse. “Para que nós possamos no Ministério da Saúde dizer que se recomenda [amplamente], precisamos de um pouco mais de tempo para saber se isso pode se confirmar numa coisa boa ou ter efeito colateral. Não é questão de gostar de A, B ou C. É simplesmente analisar com um pouco mais de luz”, completou o democrata.

A pasta informou que acompanha 9 ensaios clínicos sobre tratamento de pacientes com covid-19 envolvendo mais de 100 centros de pesquisas, como universidades e hospitais, e 5 mil pacientes. A expectativa é que resultados preliminares sejam divulgados a partir de 20 de abril, o que pode permitir uma ampliação do uso de medicamentos.

Para o Ministério da Saúde, “não há evidências científicas sobre um tratamento que possa prevenir a infecção por coronavírus ou ser utilizado com 100% de eficácia no tratamento”. As diretrizes de tratamento estão sendo atualizados com frequência.

Os principais medicamentos pesquisados são: cloroquina, hidroxicloroquina/azitromicina, remdezevir, lopinavir/ritonavir, interferon beta b1, hidroxicloroquina, dexametasona, tocilizumabe e plasma covalescente.

Um dos grupos de pesquisa, chamado Coalizão Covid-19 Brasil, é formado por hospitais integrantes do Proadi-SUS, como Albert Einstein e Sírio Libanês. Outra linha de pesquisa é desenvolvida a partir do “ensaio clínico Solidarity”, da Organização Mundial da Saúde (OMS), coordenado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Brasil.

Isolamento social

Quanta à flexibilização de restrição da circulação de pessoas, o ministro afirmou que as novas recomendações seguem critérios técnicos estabelecidos a pedido dos governadores.

Boletim publicado pelo ministério nesta segunda determina que, a partir de 13 de abril, os municípios, Distrito Federal e estados em que o número de casos confirmados de covid-19 não tenha impactado em mais de 50% da capacidade instalada existente antes da pandemia, seja iniciada a transição do distanciamento social ampliado para o restrito.

Questionado sobre quais critérios serão considerados pelos gestores locais para fazer essa avaliação, o secretário de Vigilância em Saúde no Ministério da Saúde, Wanderson Oliveira, afirmou que devem ser analisados os “condicionantes necessários para responder ao período mais crítico” da pandemia. Ele citou, por exemplo, o número de leitos disponíveis no município ou estado.

No modelo seletivo, apenas grupos considerados de risco, como idosos sintomáticos ou pessoas com doenças crônicas, ficam isolados. O restante da população pode retomar as atividades econômicas. De acordo com o documento, “pessoas abaixo de 60 anos podem circular livremente, se estiverem assintomáticos”. 

Esse tipo de sistema tem sido defendido pelo presidente Jair Bolsonaro, em oposição ao distanciamento mais amplo. Nesse outro modelo, adotado em estados como São Paulo e no Distrito Federal, todos os setores da sociedade permanecem na própria residência de acordo com medidas editadas por prefeitos e governadores. 

Respiradores para hospitais

O ministro anunciou que o Brasil irá começar a produzir respiradores para hospitais. A mudança, ainda sem data, irá aumentar a previsibilidade e permitir uma independência maior do País, que não ficará refém de importações. “A grande maioria de peças conseguimos encontrar aqui dentro. Vamos ter previsão por semana, o que vai dar muita segurança”, disse.

Desde fevereiro, o ministro tem alertado sobre dificuldades logísticas envolvendo insumos para o sistema de saúde, que incluem falta de matéria-prima, alta de preços e decisões comerciais de países. Ele repete diariamente que a China fechou as exportações em fevereiro e março para atender ao mercado interno, o que impacta no comércio global, uma vez que o País representa mais de 90% da produção mundial dos equipamentos.

Segundo Mandetta, será gasto um total de R$ 1 bilhão para respiradores no Brasil. Outro R$ 1 bilhão está separado para compra desse esquipamentos na China. Apesar da promessa na semana passada, a remessa de produtos ainda não foi liberada. Nesta terça, o democrata conversou com o embaixador do país asiático para viabilizar a transação.

Além desses valores, foram repassados R$ 7,6 bilhões para ações envolvendo a pandemia, de acordo com o ministro. O montante inclui R$ 1,5 bilhão para custeio de médicos e R$ 1,5 bilhão para aquisição de EPIs (equipamentos de proteção individual).